crítica

TENET

CHRISTOPHER NOLAN [2020]

Ver Tenet (2020) pela primeira vez é como naufragar numa ilha deserta, sem tripulação a acompanhar, e, horas antes de acordar com uma ressaca repleta de dor, bater com a cabeça na rocha mais dura da praia. Depois, lá aprendemos a pescar, a sobreviver, e vamos conhecendo os cantos à ilha, quando alguém nos vem buscar e tudo fica menos estranho. Já estávamos habituados a fazer companhia a um protagonista confuso e à primeira vista inocente, deitado ao alheio num enredo complexo, um puzzle que exige paciência, que se vai montando com a serenidade de um idoso, desde Memento (2000) a A Origem (2010). Tenet não difere muito de tais obras da sua cinegrafia.

Desta vez, e como sucedeu em Interstellar (2014), o realizador, Christopher Nolan, presenteia-nos com uma nova forma de contar histórias. Não exagero quando comparo as inovações, pois se no anterior as personagens em lugares diferentes percecionam o tempo de maneiras distintas, em Tenet, título que funciona como capicua, a brincadeira é também diferenciadora. Não estou com isto a dizer que Nolan foi o primeiro a fazê-lo, certamente não terá sido. Nos diálogos facilmente se encontraria uma certa falta de naturalidade, já que é necessário explicar as matreirices temporais de que o realizador faz uso. Mas não. O já à vontade que o também argumentista apresenta na sua escrita, que eu acredito que seja feita a começar pelo fim, leva a que também a montagem dos puzzles seja um processo quase tão indetetável quanto um truque de magia. Muitas devem ter sido as noites mal passadas durante a escrita de Tenet.

“Não estás a disparar a bala. Estás a apanhá-la,” é explicado a The Protagonist (John David Washington) pouco depois do começo do filme. A personagem encarnada pelo filho de Denzel Washington é levada para uma sala onde balas estão inscritas em pedras quando, desafiada a disparar uma arma descarregada, elas regressam à mesma. Ou seja, o tempo caminha sempre em frente, mas algumas ações podem decorrer no sentido cronológico oposto. Também inscrita, mas na história do cinema, está definitivamente a forma de Christopher Nolan simplificar a complexidade de uma técnica desconhecida ao público, depois de tal ter sido necessário com o complexo mundo dos sonhos em A Origem. Pode parecer ofício facilitado, mas isto só acontece quando a mestria é aguçada.

Ao longo da história, o argumentista vai demonstrando certas atitudes e vontades e omitindo outras que, ao fim, nos fazem, a dado momento, crer que qualquer personagem é a vilã. Embora bem acompanhado, ora por um colega íntimo de missão, Neil (um Robert Pattinson bem amadurecido, com um quê de engraçado que lhe assenta muito bem), ora por uma musa por quem parece nutrir algo mais do que uma singela preocupação profissional, Kat (Elizabeth Debicki), os dois não deixam de ser motivo de desconfiança. Andrei Sator (Kenneth Branagh), uma espécie de magnata russo perigoso, mantém-se até ao fim como a maior ameaça à sobrevivência mundial, e a missão para o travar é colocada aos ombros de The Protagonist. Mas é com a personagem principal que tudo culmina, e o afunilamento dessa perceção está também mascarado e acontece com exímio.

Tenet cai no extremo de tanto ocorrer em garagens desleixadas ou num aeroporto banal como no belíssimo mar vietnamita ou na igualmente estonteante colónia de Amalfi. Ainda assim, a cena mais incrível talvez seja mesmo a do choque de uma aeronave Boeing 747, de grande porte, no tal aeroporto. A cinematografia é cuidada, embora não seja o maior feito do filme, a iluminação é visualmente apelativa, e bastam alguns minutos de fita para compreender o aviso do realizador acerca da inigualável dificuldade para a editora, Jennifer Lame.

Ao fim do dia, vale a pena sair de casa para ver a nova obra do já icónico realizador, mesmo em tempos de crise higiénica global. Por muito que não tenha compreendido todos os detalhes da trama que faz da ficção científica brinquedo, posso ainda garantir que valeu também a pena Christopher Nolan passar todas as noites em branco enquanto tecia Tenet. Talvez qualquer dia ele possa também desafiar o tempo e tê-las de volta.

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Miguel Mesquita Montes

Miguel Mesquita Montes

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