O QUE SE ANDOU PARA ALI CHEGAR

Este episódio tem 47 anos e eu não estive lá. É o relato da morte de um pátrio – amargo e desamado – que batia nos filhos com as solas dos sapatos que não tinham; a história da esposa, deitada e vergada pelos costumes antigos. Sobre a lareira, o pátrio tinha colocado um crucifixo, mas desviava os olhos quando lhe estendia a mão o peregrino, o vizinho, a própria mãe. Sob o seu teto, não existia fome. Mas dentro de casa só restava ele – dizia que a mulher não contava e os filhos tinham todo um sol-a-sol para chamar de lar. Pouquíssimos o chamavam de pai. As árvores caíam aos seus pés; as flores murchavam, sem rega ou regra. À mesa, os cães rondavam-lhe os tornozelos, procurando os ossos. A sua prole coçava os tornozelos, aproveitando o espaço entre a pele e as correntes. O pátrio não tinha pena. A única pena que existia escrevia o que ele queria em tons de azul. Homem de uma só cor, senhor de si, dinossauro excelentíssimo, amigo dos seus ricos amigos. Tinha 41 anos quando faleceu, assassinado no Largo do Carmo, nº 27, Lisboa, e em todas as outras ruas.

Passaram 47 anos – e eu não estive lá. Mas sei que foi em Abril, – assim, com maiúscula – e que o céu estava limpo e o dia inteiro. A morte aproximara-se de todos os cantos do jardim – e de todos os jardins de além-mar. No Cais, deu-se ordens de disparo, mas ninguém disparou. Terminava, depois dessa manhã, o tempo em que balas fugidias atingiam braços abertos. No Terreiro, sussurrava-se sobre uma das canções proibidas que a rádio passara – alguém, naquele momento, alheado de tal acontecimento, cantava um fado, de olhos fechados, numa qualquer tasca matutina. Nos dias seguintes, declarado o óbito, as grilhetas quebraram e os filhos retornaram a casa: todos ou nenhum. Dizem que o ar gelava, mas ninguém sentia frio. Cada vala, a cada quilómetro, contava o que se andou para ali chegar. O pátrio estava morto e morto era o seu estado novo. O céu estava limpo – não havia chuva para lavar o sangue. Não havia sangue. Havia águas mil. E escorriam pela calçada, grudando nas botas. Desapegavam-se dos olhos cansados. Regavam as flores. Acho que eram cravos.

Esta história tem 47 anos. Eu não estive lá. E ainda lá estou.

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Bruno Fidalgo de Sousa

Bruno Fidalgo de Sousa

Depois da dança, o lobo avança, encontra a curva.

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