Once Upon A Time In Hollyhood, Quentin Tarantino, 2019

crítica

"Era Uma Vez em... Hollywood" é o filme menos Tarantino de sempre, mas é mais Tarantino que nunca.

quentin tarantino [2019]

Lâmpadas de néon começam a brilhar, ao ritmo daquela faísca que sempre contrasta com o cair da noite americana, e arranca a festa. Acendem-se cigarros, que nunca chegam ao fim, bebe-se whisky sem pensar que amanhã será outro dia, entretanto já mudou a cena, e estamos decididamente a inspirar Hollywood, com tudo de bom e de mau que isso possa ter. Mas que não se pense que o topo do mundo será o pano de fundo do nono filme de Quentin Tarantino. Este buddy movie é uma carta de amor aos fracassados da cidade dos sonhos, como já tinha admitido Leonardo DiCaprio, um dos protagonistas, na estreia do filme, no Festival de Cannes.

Levada a cabo pelo ator Rick Dalton (Leonardo DiCaprio) e pelo seu duplo, Cliff Booth (Brad Pitt), esta história pode facilmente ser confundida com imagens em movimento que não nos levam a lado nenhum durante 2h41. Supostamente, o assassinato da atriz Sharon Tate (Margot Robbie), que estava grávida, seria o cerne da narrativa, mas Quentin Tarantino já nos ensinou que nos seus filmes podemos tudo [ver “Sacanas Sem Lei” (2009)], inclusive fugir à História. De outro ponto de vista, os diálogos da obra podem ainda ser encarados como um belo discorrer sobre a insegurança, a vontade de a combater, e a impotência que se sente quando ela toma conta de nós e molda o que somos para os outros (este é um exercício não só mais fácil, como mais agradável e justo).

Em “Era Uma Vez em… Hollywood” discute-se argumentação cinematográfica, representação, casting e erros no mesmo, egotrips de atores e outro tipo de dilemas que foram quase tão bem como aqui analisados em “Birdman ou (A Inesperada Virtude da Ignorância)” (2014). Quentin Tarantino disserta sobre tudo isto com tanta precisão que até uma menina de dez anos (Julia Butters) se transforma na personagem mais adulta do filme, colocando na idade de todas as restantes uma relação de proporcionalidade inversa face às suas maturidade e sanidade. A certa altura, a personagem de Butters, Trudi, questiona a Rick Dalton sobre o que é o livro que está a ler. Ele, às aranhas, faz que o romance é um western sobre um homem que vai perdendo tudo ao longo da vida. Ora, não será difícil dizer que a falta de intelecto por parte da personagem de DiCaprio o leva a falar dele mesmo, tão virado para si que está. Depois, a menina demonstra pena, mas Dalton não é capaz de lhe omitir que um dia a vida dela será também assim, caída em desgraça e impedimentos. E foi durante esta cena que me apercebi de que Tarantino nos quer contar que a vida é como um filme: um jogo de escondidas em que quem está a contar vai olhando de esguelha para os outros, fingindo que não está a ver, e – pior! – sendo enganado por quem o observa e não admite.

Em entrevista, o realizador assumiu que a dupla de protagonistas deste filme seria a mais dinâmica desde o par Robert Redford e Paul Newman no clássico western “Dois Homens e um Destino” (1969). Por muito que o ache único, diria ser quase impossível não ver em “Era Uma Vez em… Hollywood” muito dessa obra de George Roy Hill. Mas as referências não se ficam por aqui: há vestígios claros de toda a filmografia de Quentin Tarantino, e qualquer fã do autor ficará com aquela sensação agradável vinda da presunção de inteligência. Há espadas que nos levam de volta a “Kill Bill” (2003 e 2004), há um assassinato não propositado que nos faz recuar um quarto de século até “Pulp Fiction” (1994), há um lança-chamas que leva nazis ao inferno, inferno esse antes retratado na perfeição em “Sacanas Sem Lei”.

Com a promessa de fugir à realidade cumprida, no mundo dos sonhos não voámos mesmo ao estrelato. Mas Tarantino é um tipo perigoso, pois se nesse mundo Brad Pitt dá uma tareia a Bruce Lee (Mike Moh), na realidade somos nós quem leva uma inesquecível lição de cinema.

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Miguel Mesquita Montes

Miguel Mesquita Montes

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