crítica

entre a carne e o osso

luís filipe parrado, edição língua morta [2012]

 “Entre a Carne e o Osso” ficam uma lasca de madeira, poemas, luz e fruta. Muita luz, para refletir em plena condição a recheada fruteira de memórias, experiências, anseios. E perguntas. Com alguns receios. Esta primeira obra de Luís Filipe Parrado gesticula com convicção, despe-se de folhas e ramos para ostentar as laranjas rugosas, as maçãs imberbes, “fruta espessa”, as amoras que todos os poetas gostam de colher. O sujeito poético vai interpretando o seu caminho – nostálgico? – sem, contudo, tropeçar na excessividade da própria linguagem poética.

A primeira edição é de 2012 – Língua Morta. Desde então, Luís Filipe Parrado ainda não acrescentou novo livro à sua bibliografia, antes parece ter decidido dar a “Entre a Carne e o Osso” uma nova edição – a terceira, aumentada em 2019. Nela, escreve sobre a “teoria da narrativa familiar” ou reúne uma antologia de poetas suicidas, conseguindo, com um humor característico, conformista e desiludido, terminar os seus poemas com um sorriso que se estende ao leitor. Os seus temas correm campos de juventude e inocência, alguma perda e alguma reflexão, “Abominação”. Transparece ora uma ímpar afeição à carne, ora uma brutal constatação do osso. E os versos servem-se assim, crus. Como o próprio ser humano, que nesse limbo que titula a obra se vai cruzando com apaixonantes visões, poeta a quem o cão guia, pessoas que não leem poemas, a sala civil de Buñuel.

Ao primeiro poema, surge um inevitável sorriso. Não é um gargalhar de instantânea iluminação, não é sequer um riso agudo de comédia. TUDO O QUE EU MEU PAI ME DISSE QUANDO, AOS 15 ANOS, DECLAREI EM FAMÍLIA QUE IRIA COMEÇAR A ESCREVER POESIA, titula-o o autor. E o pai responde: “’Antes/ de te sentares/ à mesa/ lava bem/ essas mãos”.  O sorriso que fica é de amiúde surpresa, que sobe do pulmão quando, ao terminar a leitura, a interpretação aberta inquieta o leitor. E é uma sensação refrescante – a imaginação – e, entre glosas, unhas, dentes, “Carne”, “Osso”, esta obra de Luís Filipe Parrado é um belo exemplo de poesia contemporânea, onde o conformismo se mistura com a continuidade vigorosa, a experiência com a ingenuidade, um poema e a pergunta “que nunca deveria surgir”.

Share on facebook
Share on twitter
Share on linkedin
Share on pinterest
Share on pocket
Bruno Fidalgo de Sousa

Bruno Fidalgo de Sousa

Depois da dança, o lobo avança, encontra a curva.

PARTILHAR