crítica

"A Herdade" é um lugar perigoso, mas convém visitá-la

"a herdade", tiago guedes [2019]

Não sei se esta obra de Tiago Guedes [“Odisseia” (2013)] é um olhar sobre uma quinta pela lente da Revolução de Abril, se vice-versa, mas penso que será um pouco de ambos.

O filme analisa as três principais fases da vida de João Fernandes (Albano Jerónimo), ainda que através de um olhar imparcial, mas com trejeitos de técnica cinematográfica muito amadurecidos. Ernest Hemingway, escritor americano, dizia que, contada verdadeiramente, a vida de um homem é um romance. Pois bem, de um romance não se tratará obviamente, mas de uma produção de envergadura anómala para Portugal (o filme foi nomeado para o Leão de Ouro do Festival de Veneza e teve apresentação especial no Festival de Toronto).

Dono de uma herdade isolada no Alentejo prometido, João Fernandes não olha a meios – nem a saias – no momento da sua gestão, que tem de ser forçosamente lucrativa. Começando a ser pressionado pelo governo marcelista, pois há nesta herdade pessoal duvidoso aos olhos do Estado, o dono vê um dos seus trabalhadores mais importantes ser detido pela PIDE. Leonel Sousa (João Vicente) é comunista assumido e passa então a ser um meio de chantagem por parte do poder no sentido de persuadir João Fernandes a começar a apoiar publicamente a governação do então Presidente do Conselho de Ministros, Marcello Caetano.

Uma raiva medida

“Filhos da puta”, profere a rude e imperiosa personagem de Albano Jerónimo quando descobre do encarceramento do seu bom mecânico. E é neste momento que podemos achar hesitação e talvez algum automatismo na performance deste ator, que até tem de olhar para o chão para profanar. No entanto, à medida que os seus longos cabelos se vão tornando brancos, também a representação da personagem vai refletindo uma maior imponência (os diálogos ficam também mais realistas), atacando o final de “A Herdade”, num momento que é um verdadeiro murro no estômago do espectador, como que em jeito de redenção.

Mais forte e segura é a performance de Sandra Faleiro, um anexo na vida de João Fernandes, com quem é casada, mas simultaneamente uma peça fundamental do filme. A sua reação ao desprezo é tocante e revela-nos o monstro no qual um homem aparentemente simples se pode tornar.

O filme leva 2h46, a sua cinematografia, cenarização e guarda-roupa são um feito assinalável a nível nacional, não obstante ficando a vontade de ouvir mais sotaque alentejano.

Temos épico português.

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Miguel Mesquita Montes

Miguel Mesquita Montes

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