crítica

a cidade e as serras

eça de queirós, edição leya [2009]

É fácil percorrer os parágrafos d’“A Cidade e as Serras” como um rato esquadrinha as prateleiras da despensa de uma casa de família: com a velocidade insaciável de uma corrida que tem por meta um pedaço de queijo parmesão. 

Deselegância literária à parte, não gostaríamos de ver morrer a metáfora do roedor nas primeiras linhas deste texto, pois foi cheia de vida que a encontrámos nos capítulos do romance queirosiano. A verdade é que, ao ler “A Cidade e as Serras”, se sente o gostinho nostálgico de quem relê a fábula infantil “O Rato do Campo e o Rato da Cidade”.

Zé Fernandes assemelha-se, por isso, a um roedor rural, vestido com o fulgor dos trabalhos do campo, com a frescura de um quotidiano sem rotinas fixas e com as cores dadas pelo contacto próximo com a natureza. O campo a que chama “casa” estende-se pelas aldeias do norte lusitano. É-nos, contudo, necessário atravessar duas fronteiras para encontrar o roedor citadino. A uma distância de mais de 1500 quilómetros, Paris é a urbe que acolhe Jacinto, português de berço e um amante ainda mais devoto da “Cidade Luz” que os próprios franceses.

É nos braços (entenda-se, nas ruas) de Paris, e não nos de Lisboa, que Jacinto se perde. A escolha do cenário não é, por isso, nem inocente, nem aleatória, pois seria difícil fazer competir a meninice e mocidade da capital lusa com o encanto ‘femme fatale’ parisiense. Já n’“Os Maias”, Eça caricaturava os efeitos deste encanto sobre o bom senso e o bom gosto, instruindo-nos na tendência portuguesa de desvirtuar as práticas da alta sociedade europeia e de lhes imprimir uma extravagância ridícula. Assim, também em “A Cidade e as Serras” não faltam travessas de arroz doce que chegam à mesa na forma de gigantescas pirâmides, peixes pescados com ganchos de pérolas ou elevadores que transportam comida de um andar para o outro.

A visita do rato do campo ao rato da cidade representa, no entanto, um momento de viragem no enredo e, no contudo, Zé Fernandes e Jacinto não são atacados por um gato demasiado zeloso da sua despensa – peripécia que se abate sobre os protagonistas do conto infantil. São, sim, abraçados pelo tédio mole de uma metrópole que vive de aparências. À medida que os faustosos banquetes, a extravagante literatura e a tecnologia exótica perdem o seu encanto, o regresso às aldeias portuguesas afigura-se retemperador. 

Assiste-se, por isso, a uma transformação do protagonista que, mesmo não perdendo todos os jeitos parisienses, entra num novo e desacelerado ritmo de vida campestre. Escrita na última fase de produção literária do autor, “A Cidade e as Serras” troca a crónica de costumes corrosiva das primeiras obras queirosianas por um otimismo refrescante, digno de quem redescobriu um carinho especial pela pátria lusa. Ao contrário do que acontece em “O Rato do Campo e o Rato da Cidade”, os dois roedores, campestre e urbano, acabaram por render-se aos cenários rurais. E por lá parece também ter ficado o próprio Eça.

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Maria Francisca

Maria Francisca

Faulkner dizia que, havendo uma história em nós, esta acabará por sair. Enquanto a minha se fecha ainda em linhas por escrever, perco-me nos parágrafos de outros.

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