III | XV CAMINHOS DE TERRA E SANGUE

Landscape, Rene Magritte, 1926; POESIA RUI SOBRAL IIIXV caminhos de terra e sangue percorri todas as tuas estradasas que trilhaste sozinha nosfrios da madrugadadentro da cúpula envidraçadaque construímos sem medidae nos guardamos para sempre percorri-as devagar na pérfidaesperança de nos encontrarencontrei-nos sozinhos lentostrilhos a metade por acabartrilhos de terra e sanguetrilhos ainda por trilhar Share […]

O QUE PRECISA A POESIA

Greta Knutson-Tzara, Spring Morning, 1950s POESIA O QUE PRECISA A POESIA BRUNO FIDALGO DE SOUSA o primeiro verso vem sempre carregado de hidrogénio, vem rimado,é do hélio, do vapor: o que precisa a poesia? contenho-me o que precisa a poesia? nunca de um rebanho. afinal o que precisa a poesia é espaço o que precisa […]

III | XVIII SUOR AMOR NOSSO

Caspar David Friedrich – Woman Before the Rising Sun (1818-20) POESIA RUI SOBRAL IIIXVIII suor amor nosso respirações tuas adormecem o meu solfazem-me sentir que adormecem o meu sole devagar transpiras espinhos nossos dos braçose contas-me aos poucos que partiste de manhãrefletem-se cores e novas flores em mimsinto escapar espaços novos de nós doise mordem-me […]

BRAVO, COMO EU

POESIA BRAVO, COMO EU BRUNO FIDALGO DE SOUSA 1. vejo-te: tens os olhos raiados de sangue.noto que te aproximas, pronto para me derrubar. sinto-teresfolgar como danado cão selvagem.chegamos à batalha.pontapeias o chão de fúria.dás voltas à arena em incúria e ouço-te. o teu urro é animalesco.na mão vejo o espeto. resta a mortalha. o teu […]

I | XCVI JANELAS ABERTAS RETROVISOR O MEU PAI

POESIA RUI SOBRAL IXCVI janelas abertas retrovisor o meu pai do alto do meu quarto ouço carros lá forarodas nuas no alcatrão da chuva molhadosinto a brisa das janelas abertas dos carrose lembro-me de quando criança as abrianos bancos de trás partilhados com a sofiae o meu pai pelo retrovisor me seguia do alto do […]

III | XX PESCOÇO VELHO E O SERROTE

Black Untitled by Willem de Kooning, 1948 POESIA RUI sOBRAL IIIXX pescoço velho e o serrote decapitaste-me e eu feliz ajudei-tenaquelas partes mais difíceis a minha mão a empurrar a canetaque me ia cortando devagar o pescoçotinhas um ar sereno enquanto cortavasfizemos quatro ou cinco intervalose eu aguardava pacientementesegurei inclusive o serrote, sozinhoenquanto fumavas lá […]

III | XIX DA RAPOSA O OLFATO

Death in the Sickroom, Edvard Munch, 1893 POESIA RUI SOBRAL IIIXIX da raposa o olfato a fotografia de todos nós outra veztodos nósmenos um Share on facebook Share on twitter Share on linkedin Share on pinterest Share on pocket PARTILHAR

DIRIAM UNS: O MAR AQUIETA, O MAR CONSERTA, O MAR REPARA

Monge Junto ao Mar, Caspar David Friedrich POESIA ANA RITA RODRIGUES Diriam uns:o mar aquieta, o mar conserta, o mar repara.Diriam outros:o mar entorpece sentidos, o mar abate-os, o mar traz fastio e dá nascença à melancolia, ainda que nem sempre a melancolia enfastie.Dir-se-ia:talvez me situassem a mim algures no meio dessas duas margens.E, do […]

II | VII A POESIA DOS DETIDOS

POESIA RUI SOBRAL IIVII a poesia dos detidos no corpo do poema a minha espadadetida por mãos nunca escritasvestida de pó dos pés à cabeça eis um poema teu devagarinhoao luminoso som de apaixonados Share on facebook Share on twitter Share on linkedin Share on pinterest Share on pocket PARTILHAR

III | XVI AMANTES DO CAMPO

Tempo de Colheita, Julian Dupre POESIA RUI SOBRAL IIIXVI amantes do campo semeei na terra um amor que era só nossoe de angústias reguei-o delicadamentetodos os dias ao acordartodos os dias fizesse chuva fizesse sol todos os diastodos os dias reguei-o ao acordaràs vezes vento outras não colhi dos outros verdades sempre nossasverdades mentidas a […]

II TODAS AS NOSSAS CANÇÕES

POESIA RUI SOBRAL IItodas as nossas canções sonhaste-me amor naquela tarde desamparadade nós os dois sempre juntos lado a ladoenquanto nus bebíamos florestas inteirasde amor sangue sangue amor e bebedeiras escapaste-me sozinha no doce horizontede quilómetros inteiros a navegar sozinhoà esquerda o ribatejo à direita sanjoaninasque de fé me perdia de fé me ganhava e […]

III | XVIII CORPOS NOSSOS DOIS

Figuras na praia, 1931, Pablo Picasso POESIA RUI SOBRAL IIIXVIII corpos nossos dois do chão os pés que pisasas histórias por contartristes amargurasde vidas por viverdo chão os pés tão nossossapatos rasgadoscoelhos no chãocigarros nos olhoseu quero ver-te irrasgar partir mentirbeber só dos teus olhosamar amar no chãoamor tu és só minhaamor não és só […]

Mahmoud Darwish – Tenho lugar marcado no teatro abandonado

tradução TENHO LUGAR MARCADO NO TEATRO ABANDONADO MAHMOUD DARWISH Tenho lugar marcado no teatro abandonadoem Beirute. Talvez me esqueça, talvez recordeo ato final sem saudade… e a única razãoé que a peça não foi escritacom habilidade…Caoscomo nos dias de guerra daqueles em desespero, e uma autobiografia do impulso dos espetadores. Os atores rasgavam osguiõese procuravam […]

II | XCIX A MORTE EM FADO EM MIM

Marsz żałobny, Władysław Podkowiński – 1894. POESIA RUI SOBRAL IIXCIX a morte em fado em mim morrer tornou-se sabedorianas horas de garrafas vaziascustou-me tanto viver tantas vezes na minha vidaque morrer queria tantoque morrer parecia fado sem que matar-me fado se realizasse – morre de uma vez ou vive em mim alguma coisaque me faça […]

III | XIX RUMINANTES HISTÓRIAS MIL

POESIA RUI SOBRAL IIIXIX ruminantes histórias mil ruminantes pensamentos meusimagens em caracol de outroscanções antigas baixinhoe fumo de cigarros à janelajá nem sei quem sou agoranunca soube ao certo tambémmales de amor decertogenealogias obscuras em mime palavras mil à noitehistórias desconhecidasperdidas no raciocínio meuoutrora nu outrora teununca só teu sempre só meu Share on facebook […]

É PRECISO VIVER SEM PAIXÕES

POESIA PEDRO VALE É preciso viver sem paixões.Mergulhar no absoluto anonimato,Permanecer morto ou vivo até ao fim. Aclamar o tumulto escuro e bruto.Encenar o drama clemente e lento.Sentir um amor ideal por anjos nebulosos.Descobrir um novo fundo de poesia e aguardaruma voz que nos ordene docilmente– Não te movas, nem te inquietes,nem traias o queainda […]

III | XX VÍCIOS CIGARRO AMOR

POESIA RUI SOBRAL IIIXX vícios cigarro amor um cigarro no tempo em que fumarme fazia novoe me trazia paz aos pulmões meusum cigarro que agora me pedesa mim devagarnas angústias de um tempo acelerado com o fumo pelas estribeiras da camaenrolo-me nu aos lençóis nossos das noites sem sonoe bebo-me inteiro a um só golesem […]

II | I MAR CORAÇÃO VELHO

POESIA RUI SOBRAL III mar coração velho disseste-me vai afoga-te nas palavras minhase eu tolo à procura delasvoltei no tempoe do teu mar para nele me afogare fugi do tempo outra vez (como antes)enquanto o tempo perseguia devagarentre colinas que ficaram por subirimaginadas em tardes inférteis nossastão esperançosas tardes na época dos sonhos afoguei-me no […]

I | XCVI NOITES DE ALVORADA EM MIM

Vincent van Gogh – Cafe Terrace at Night (1888) POESIA RUI SOBRAL IXCVI noites de alvorada em mim nunca houve uma noite sequerem que nenhum medo me assaltassetodas foram alvorada dentro da minha paztodas nuas, malditas noites em mime resta-me a voz dos dias luminososque me abraçam inteiro e fazem correr vestido de esperançapelas beiras […]

III | XX SOU SEREI

Drunkenness of Noah, Michaelangelo POESIA RUI SOBRAL IIIXX sou serei desço a rua meio morto vivo de certeza morto também garrafa na mão esquerda à direita um trambolhão não meu mas de outras gentes tão distantes de mim – tão perto de quem um dia serei Share on facebook Share on twitter Share on linkedin […]

II | XCVI DONA MARIA SEGUNDA

POESIA RUI SOBRAL IIXCVI dona maria segunda já vi um tio dormir no jardimdo parque da minha cidadedeitado num banco vermelhode lado; coitado, sofria acho que isto é um poemapelo menos assim o sintopelo menos assim o sentequem o viu naquele dia Share on facebook Share on twitter Share on linkedin Share on pinterest Share […]

I | LXXXVIII VERMELHO SANGUE MÃE

POESIA RUI SOBRAL ILXXXVIII vermelho sangue mãe em pequena confundi cotão de uma meia vermelha com um pedaço de sangue do meu pé tenro e salutar chorei como uma criança como a criança que era a minha mãe apareceu do nada encontrou-me no bidé não me limpou as lágrimas acalmou-me o peito disse filha, isso […]

I | LXXXIX ZÉ POETA AMIGO

Friends Under The Rain, Leonid Afremov POESIA RUI SOBRAL ILXXXIX zé poeta amigo o Zé é o meu grande amigo o poeta dos poetas mas não tendo umbigo de que serve o poeta se nem de umbigoestá vestido talvez o Zé o tenha e eu só precise de escrever direito este poema importa é o […]

MAIO É UMA CANÇÃO

Fotografia de Gerald Bloncourt POESIA MAIO É UMA CANÇÃO BRUNO FIDALGO DE SOUSA maio é uma cançãode vozes em uníssonoem manifesto maio é uma cançãoa mais antiga partituraum cantar de solfejo maio é uma cançãotrova-se em briga por saúde, pão, habitação maio é uma cançãode desejo e desparazitação maio é um cançãoà desgarrada de um […]

III | XIX POESIA VI

Daydreamer -Required Reading, Carl Larsson POESIA RUI SOBRAL IIIXIX poesia vi pouso baudelaire na beira da janela olho impaciente a janela embaciada entre as gotas da humidade vejo um carro lá fora a subir a encosta rumo ao nevoeiro, parece desviar-se destino à lua, abranda, encosta, uma porta aberta alguém se aproxima em passo acelerado […]

La Danse, Henri Matisse,1909 POESIA – CALÍ BOREAZ ainda sou muito nova para escrever este poemapercebo que a melancolia é um excesso— de espaço e de tempopercebo que sou dos cavalos que precisamnão do toque do chicote ou mesmo do sangue a rachar os ossosmas do próprio desaparecimento— para iniciar o trotepercebo e procuro seguir […]

III | XVII FOLHAS SECAS EM MIM

Still Life with a Basket of Potatoes, Surrounded by Autumn Leaves and Vegetables, Van Gogh POESIA RUI SOBRAL IIIXVII folhas secas em mim há lá noite mais escura do que aquela que vive em mim há lá morte mais crua do que a vida que vejo em mim há lá vida mais banal do que […]

III | XX MÃE SOPA

Madonna and Child with the Milk Soup, Gerard David, 1510 – 1515 POESIA RUI SOBRAL ​ III XX mãe sopa às vezes era a fomehoje ainda a sintomesmo não a tendopercebo agora quequem a fome fizervítimadela para sempre seráescravaservia-me cevadaou pãoou marmeladanão gostava de saladaachava-ademasiado molhadatroncos das árvores na sopahoje eu sei que eram outra […]

Herberto Hélder | Súmula

CLUBE DOS POETAS MORTOS HERBERTO HÉLDER Nasceu e partiu envolto no fumo cinza dos seus cigarros, Herberto Hélder, o da poesia misantropa e muitas vezes tão misteriosa quanto o seu ator, o dos “Passos Em Volta”, talvez a sua obra mais em voga, o autor que negou grande parte das entrevistas, das fotografias, até alguns […]

III | XX CARDÍACO DILÚVIO

After the Rain Gloucester, by Paul Cornoyer POESIA RUI SOBRAL IIIXX cardíaco dilúvio desço a ruasozinhoespero-te nuapelo caminho onde tu estás amor?deixei-te nua, sozinhano caminhohá alguns anosfazia noitefazia frio onde tu estás amor?deixei-te nua, sozinha aquele tempero teuaquele tempero que era só teuque me elevava a ser mais euque me eleva a ser mais eu […]