I | LXXXIX SETE E MEIA

Yellow House, Vincent Van Gogh, 1888 POESIA RUI SOBRAL ILXXXIX sete e meia o credo rezado ao fim da tardecabeceira da cama de solteiroDeladoze pessoas na pontevindas da casa divinarumo à casa amarelao sabor a cevada na minha bocamisturado com circus de sabores pastososdesde as três e meia; desde as três e meiada tardee o […]

NÃO É NADA QUE O TEMPO POSSA EMPURRAR

POESIA NÃO É NADA QUE O TEMPO POSSA EMPURRAR TIAGO MARCOS Não é nada que o tempo possa empurrarNão é nada que o mar possa levarE por mais que escaves a terraA impossibilidade permanece…Espera um poucoDeixa que te tente explicar,É uma espécie estranha de angústiaNão é a saudade dos poemas comunsNem a revolta contra a […]

MECÂNICA DO SONHO

POESIA MECÂNICA DO SONHO PEDRO VALE Trepa a liana o simbólico detetive da imaginação.Referência orgânica da língua, declaração de exílio, fonte abundante.Descida à prisão. Identidade e interesse do pensamento.Descoberta dos personagens: paradigma e destino.Um poeta articula e reverte o mundo de casa aberta, viva canção. (falsidade-embaraço, perfume-folclore, magia-projeção, poema-cheiro,figura-mãe, memória-ferrugem) Arrastamento, recorrência e inevitável esquecimento […]

IRÁS SEMPRE CRUZAR A MESMA RUA

Fotografia de Fabian Fauth POESIA IRÁS SEMPRE CRUZAR A MESMA RUA TIAGO MARCOS Irás sempre cruzar a mesma ruaNo caminho que é pensarE terás os pés doídos pelas pedrasMas não pares.Sei, só no espaço guardado para a esperança,Que uma manhã nova viráE todo o pó que o caminho temSerá soprado por um vento novoUm vento […]

QUANDO VOLTARES

Scotch, Rocks I, 2008, Julia Jacquette POESIA QUANDO VOLTARES ANTÓNIO FOJO quando voltares, não olhes de soslaio para mim.eu fiz da minha biologia uma tentativa,eu portei-me bem e a preceito.deixei feita a cama, enchi os vasos de água,calcei com amor as botas rasgadasque encontrei no meio da lama.eu cantei para Ti quando a raivaera por […]

POEMAS DA MINHA VIDA

Pintura de Aires dos Santos POEMAS poemas da minha vida MIGUEL MESQUITA MONTES I OS ROJÕES DA MINHA MÃE SÃO OS MELHORES rojões DO MUNDO Os rojões da minha mãe são os melhores rojões do mundo,Embora goste mais de os comer no restaurante.Cansado, chego a casa e brilha a lua:“Mãe, o que vamos jantar?”“Rojões, e […]

Manoel de Barros | Livro sobre Nada

CLUBE DOS POETAS MORTOS MANOEL DE BARROS A lista das suas obras é farta; as condecorações também (onde se incluem dois Prémios Jabuti), ainda que tenha demorado a chegar o reconhecimento da crítica e do público à poesia que o próprio define como parte da “vanguarda primitiva”. Manoel de Barros escrevia ser o poeta “fraco […]

EXERCÍCIO DE MORRER II

POESIA exercício de morrer ii LÍVIA PELLEGRINI Fazercontigo escansões no tempo Reconhecendo-teao transcorrer do rio instante por instante e sempre do cantochão às alturasa voz Inscrevendod e v a g a r i n h o nossa fatia de brisanossa cadência de amor. Share on facebook Share on twitter Share on linkedin Share on pinterest […]

ERA UMA VEZ NA TERRA UMA FLOR ARRANCADA

Night Blooming Cereus, de Ladianne Henderson, 2015 POESIA Era uma vez na Terra Uma flor arrancada ANA RITA RODRIGUES [ A Flor do Sonho, alvíssima, divina, Miraculosamente abriu em mim ]  Florbela Espanca    Pingava do céu,naquele final de tarde.Apesar disso,imperou o alcatrão, ao relento.Auscultadores pousados, microfones desligados;jingles trocados  pelo assentoda tua mota: adrenalina que o peito quase […]

CORO ATLÂNTICO

“Polar Woman ― The Memory of her Icy Love”, Kazuya Akimoto POESIA coro atlântico LÍVIA PELLEGRINI Minha terra tem encantosTantosque não há como contar Estão no canto que insistenas aves e as que aqui gorjeiamtransitam agitadas Trazem no cantouma dorde uma mensagem deslocada : óleo mortal éderramadonas águas férteisde Dona Janaínae espalha-se por toda a […]

DERRETEM-SE AS MÃOS NAS MEMÓRIAS

Melting Watch, Salvador Dali, 1954 POESIA DERRETEM-SE AS MÃOS NAS MEMÓRIAS SARA MARTINS Derretem-se as mãos nas memórias,Que ao fogo ficaram e acabaram por se fazer. Estendem-se os braços para além daquilo que se é, Enquanto as horas fogem em passos líquidos, Como se procurassem um gesto que não é meu.  Se todas as coisas […]

A CARTA QUE OPHELIA ACABOU POR ENVIAR

Fernando Pessoa, pintura de António Faria POESIA A CARTA QUE OPHELIA ACABOU POR ENVIAR LIA CACHIM Meu querido Fernando,tomara eu ser querida tua como tu és meupara poder tocar-te quando te vejonas raras vezes em que te vejoque na verdade são as raras vezes em que me vês a mim Mas o teu olhar trespassa-me, […]

A POESIA DAS COISAS

POESIA SONHO – VI NUNO MINA Ver tudo menos aquilo que se vê. Uma magia de pôr um sorriso nos lábios, Por ver numa gota de chuva, Num olhar, Num vento, Algo mais do que aquilo que é. A poesia das coisas está em nós. Negar-nos é retirar brilho a um mundo Que é muito […]

Manuel António Pina | COMO SE DESENHA UMA CASA

CLUBE DOS POETAS MORTOS MANUEL ANTÓNIO PINA Escreveu poesia, literatura infanto-juvenil, ensaios, novelas, textos dramáticos; deixou-nos obras como Histórias com Pés e Cabeça, Aquele Que Quer Morrer, Um Sítio Onde Pousar a Cabeça ou Como se Desenha uma Casa, onde o poema escolhido para representar a sua efeméride está publicado. Manuel António Pina foi um […]

William Carlos Williams – Isto é só para dizer

tradução ISTO É SÓ PARA DIZER WILLIAM CARLOS WILLIAMS Comias ameixasque estavamno congelador e quetu, provavelmente,guardavaspara o pequeno-almoço. Perdoa-meeram deliciosas tão docese tão frias N/T: Certa manhã, William Carlos Williams, poeta imagista de New Jersey, antes de sair para o trabalho, rabiscou três estrofes numa folha de papel, um recado à esposa. “This Is Just to […]

DA BOCA FIZ UMA GAIOLA ABERTA

POESIA DA BOCA FIZ UMA GAIOLA ABERTA SARA MARTINS Da boca fiz uma gaiola aberta,Tenho-a cheia de pássaros a picar-me por dentro. A sede das penas a romperem-me a carne,Cegou-me a inocência cristalizada nos olhos. Quantos mais pássaros, mais dentes,Quantos mais dentes, menos pássaros. E porque lhes mastigo os ossos,O âmago escorre pelas minhas mãos. […]

NÃO TE DÊS AO TRABALHO DE FOTOGRAFAR MEIA RUA

POESIA NÃO TE DÊS AO TRABALHO DE FOTOGRAFAR MEIA RUA BRUNO FIDALGO DE SOUSA não te pedi para guardares a minha imagem. tantoque não a quis sequer lembrar no espelho eafastei-me do mar e do reflexo dos vidros.deixei de conduzir eesforcei-me para me afastar das montras ondetelevisões não estariam ligadas24 sobre 7e o material refletor […]

QUEM ME DERA MORRER

POESIA QUEM ME DERA MORRER RUI SOBRAL quem me dera morrerquem me deramorreragoracom as mãos sujas de tintajá seca nas extremidadesainda húmida entre os dedosazul vermelho por todo o ladoisso faria de mim escritor dotadoaté ao último suspiro a escrevera azul vermelho preto tambémo nervo ulnar ainda a baterdas veias mais tinta a rebentarainda mais […]

JAZZ

Portrait of Germaine Nellens. René Magritte. 1962

POESIA JAZZ LÍVIA PELLEGRINI enquanto dançam em mim todas as vozes do dia a lua vai crescendo decidida a gaveta do criado está aberta o chá ferveu o bolo acabou na vitrola o mesmo disco há meses pela janela, a brisa fica refém do meu corpo presa fácil do amor espero sem expectativa aquela serenata. […]

efeito kahlo kuleshov

Tramonto sul mare, Pierre-Auguste Renoir, 1879 eNSAIO – PROSA – OPINIÃO efeito kahlo kuleshov calí boreaz estou imóvelsuspeito que me tornei um quadrocom debrum de areia   pequenas conchase pontas de cigarroà minha beira está o mar em marçoele desatentamente cospe nos meus pés. e atravésde mim desamarro o vendaval morse/ não escutes. ainda estou […]

TESOUROS

POESIA TESOUROS LÍVIA PELLEGRINI Das voltas que o mundo dáencontro em cheiocom o ponto de partida Entre sonhos, visitas eespelhosA notória presença da falta Não esqueçamos, prezados insurgentes!que o vazio é o que permiteo movimentodas partículas O que não pode faltarespecialmente pela manhã –é o café. Sem título, Pedro Santos Share on facebook Share on […]

DILÚVIO

DILÚVIO, por Mariana Cordeiro

poesia dilúvio BRUNO FIDALGO DE SOUSA um dilúvio é a única catástrofeinconcebível pela atualidade. sabem-seser reais as ondas, o espreguiçar da Terra,mas ainda se duvida das nuvens. ainda se crêna metafísica, na fé, na tísica, no dormir de pé. ainda não se afinou a pontaria. há embarcaçõesque cheguem para suportar quem reste – quemsabe flutuar. […]