I | XCVI NOITES DE ALVORADA EM MIM

Vincent van Gogh – Cafe Terrace at Night (1888) POESIA RUI SOBRAL IXCVI noites de alvorada em mim nunca houve uma noite sequerem que nenhum medo me assaltassetodas foram alvorada dentro da minha paztodas nuas, malditas noites em mime resta-me a voz dos dias luminososque me abraçam inteiro e fazem correr vestido de esperançapelas beiras […]

III | XX SOU SEREI

Drunkenness of Noah, Michaelangelo POESIA RUI SOBRAL IIIXX sou serei desço a rua meio morto vivo de certeza morto também garrafa na mão esquerda à direita um trambolhão não meu mas de outras gentes tão distantes de mim – tão perto de quem um dia serei Share on facebook Share on twitter Share on linkedin […]

II | XCVI DONA MARIA SEGUNDA

POESIA RUI SOBRAL IIXCVI dona maria segunda já vi um tio dormir no jardimdo parque da minha cidadedeitado num banco vermelhode lado; coitado, sofria acho que isto é um poemapelo menos assim o sintopelo menos assim o sentequem o viu naquele dia Share on facebook Share on twitter Share on linkedin Share on pinterest Share […]

I | LXXXVIII VERMELHO SANGUE MÃE

POESIA RUI SOBRAL ILXXXVIII vermelho sangue mãe em pequena confundi cotão de uma meia vermelha com um pedaço de sangue do meu pé tenro e salutar chorei como uma criança como a criança que era a minha mãe apareceu do nada encontrou-me no bidé não me limpou as lágrimas acalmou-me o peito disse filha, isso […]

I | LXXXIX ZÉ POETA AMIGO

Friends Under The Rain, Leonid Afremov POESIA RUI SOBRAL ILXXXIX zé poeta amigo o Zé é o meu grande amigo o poeta dos poetas mas não tendo umbigo de que serve o poeta se nem de umbigoestá vestido talvez o Zé o tenha e eu só precise de escrever direito este poema importa é o […]

MAIO É UMA CANÇÃO

Fotografia de Gerald Bloncourt POESIA MAIO É UMA CANÇÃO BRUNO FIDALGO DE SOUSA maio é uma cançãode vozes em uníssonoem manifesto maio é uma cançãoa mais antiga partituraum cantar de solfejo maio é uma cançãotrova-se em briga por saúde, pão, habitação maio é uma cançãode desejo e desparazitação maio é um cançãoà desgarrada de um […]

III | XIX POESIA VI

Daydreamer -Required Reading, Carl Larsson POESIA RUI SOBRAL IIIXIX poesia vi pouso baudelaire na beira da janela olho impaciente a janela embaciada entre as gotas da humidade vejo um carro lá fora a subir a encosta rumo ao nevoeiro, parece desviar-se destino à lua, abranda, encosta, uma porta aberta alguém se aproxima em passo acelerado […]

La Danse, Henri Matisse,1909 POESIA – CALÍ BOREAZ ainda sou muito nova para escrever este poemapercebo que a melancolia é um excesso— de espaço e de tempopercebo que sou dos cavalos que precisamnão do toque do chicote ou mesmo do sangue a rachar os ossosmas do próprio desaparecimento— para iniciar o trotepercebo e procuro seguir […]

III | XVII FOLHAS SECAS EM MIM

Still Life with a Basket of Potatoes, Surrounded by Autumn Leaves and Vegetables, Van Gogh POESIA RUI SOBRAL IIIXVII folhas secas em mim há lá noite mais escura do que aquela que vive em mim há lá morte mais crua do que a vida que vejo em mim há lá vida mais banal do que […]

III | XX MÃE SOPA

Madonna and Child with the Milk Soup, Gerard David, 1510 – 1515 POESIA RUI SOBRAL ​ III XX mãe sopa às vezes era a fomehoje ainda a sintomesmo não a tendopercebo agora quequem a fome fizervítimadela para sempre seráescravaservia-me cevadaou pãoou marmeladanão gostava de saladaachava-ademasiado molhadatroncos das árvores na sopahoje eu sei que eram outra […]

Herberto Hélder | Súmula

CLUBE DOS POETAS MORTOS HERBERTO HÉLDER Nasceu e partiu envolto no fumo cinza dos seus cigarros, Herberto Hélder, o da poesia misantropa e muitas vezes tão misteriosa quanto o seu ator, o dos “Passos Em Volta”, talvez a sua obra mais em voga, o autor que negou grande parte das entrevistas, das fotografias, até alguns […]

III | XX CARDÍACO DILÚVIO

After the Rain Gloucester, by Paul Cornoyer POESIA RUI SOBRAL IIIXX cardíaco dilúvio desço a ruasozinhoespero-te nuapelo caminho onde tu estás amor?deixei-te nua, sozinhano caminhohá alguns anosfazia noitefazia frio onde tu estás amor?deixei-te nua, sozinha aquele tempero teuaquele tempero que era só teuque me elevava a ser mais euque me eleva a ser mais eu […]

II | II HIGIENIZAÇÃO DE UM EX-AMANTE

Man Looking in a Mirror, Pablo Picasso (1969) POESIA RUI SOBRAL IIII higienização de um ex-amante pego na escovae começo a lavaros dentesprimeiros os da frenterapidamente de ladomovimentos circularesoutros aleatóriosabstratospara cima para baixoesquerda direitaa água em abundânciao cheiro a lavadoimprimo força à escovaà escova contra as gengivascuspo sanguerenovo a intensidadeo sangue escorre-me boca foranão penso […]

I | XC O CAFÉ ERA COM PÃO

POESIA RUI SOBRAL IXC o café era com pãoum sabor novoa cada pensamento hoje avó, avó, quando posso lancharà primeira não me ouviaà segunda, já vai, já vai café com pãoum sabor novoque não sei mais onde encontrar “Peasant Girl Drinking Her Coffee”, Camille Pisarro, 1881 Share on facebook Share on twitter Share on linkedin […]

III | XIX O COMPRIMIDO DA MANHÃ

Três Músicos, Pablo Picasso POESIA RUI SOBRAL IIIXIX o comprimido da manhãcostas retasombros descontraídosrespiração consciente uma duas três quatrorespirações profundasrecordo-me recordo-me de um filete de sangue nas gengivasmantenho a respiraçãorios nos olhos outra vezruminantes pensamentos agrestes na minha cabeçaleonard cohen e outras poesiasflanders amarante e leonard cohen e outras poesiase o adanowski o filho e […]

III | XX ASTRONAUTA AMOR

POESIA RUI SOBRAL IIIXX astronauta amor foi sempre o amor. é sempre o amor. nada é tão alto como o amor, nada é tão solene, nem severo; nada é tão agramatical, nem fértil nem terreno nem astronauta no espaço;nada é tão sereno ou obsceno como é o amor. foi sempre o amor, será sempre o amor. que nos […]

O TEU NOME

Egon Schiele, The Lovers, 1909 POESIA O TEU NOME BRUNO FIDALGO DE SOUSA a partir de “Esquimó“, de Fabrício Corsaletti ​ no outro dia, ouvi na televisão o teu nomeas notícias adoram noticiar o teu nomeeu gostava de nunca me esquecer do teu nomee gravar no meu diário o teu nomepara notificar o notário do […]

II | II NOITES DE DIAS EM VÃO

POESIA RUI SOBRAL II II noites de dias em vão impiedoso é este vazioque preenche as noitesas noites minhasnoites sozinho de angústias fartonoites perdidasde dias em buscade quem afinal sou eu impiedoso vazio queescravo me manténs a mima mim cru de ser mata-me de tiou mata-te de mimdisfarça-me para longede quem afinalsou eu Ilustração de […]

QUERIA INVENTAR UMA LINGUAGEM

Composition VII, Wassily Kandinsky POESIA QUERIA INVENTAR UMA LINGUAGEM PEDRO VALE Que ri aI n v e n t a rU m a  l i n g u a g e m ,movimento perpétuo, eUm culto e belo cogumelo encontrar.Queria a raiz, o chão, a manta, o lar. T e rA do r ado oReto […]

IV | LXVI A BELA AOS OITENTA

POESIA RUI SOBRAL IVLXVI a Bela aos oitenta vazio olhar no espelho do hallrugas minhas; lá fora primaverana cozinha as luzes que a Belapintava quando nova sonhava;quando nova ainda sonhava comsonhos desconcretizadosvazio olhar o meu desde os trintapresságio bom em número para morrerporém vivi; morto vivo por aquicom memórias nunca minhasnostalgias de coisas cruasde coisas […]

I | LXXXIX SETE E MEIA

Yellow House, Vincent Van Gogh, 1888 POESIA RUI SOBRAL ILXXXIX sete e meia o credo rezado ao fim da tardecabeceira da cama de solteiroDeladoze pessoas na pontevindas da casa divinarumo à casa amarelao sabor a cevada na minha bocamisturado com circus de sabores pastososdesde as três e meia; desde as três e meiada tardee o […]

NÃO É NADA QUE O TEMPO POSSA EMPURRAR

POESIA NÃO É NADA QUE O TEMPO POSSA EMPURRAR TIAGO MARCOS Não é nada que o tempo possa empurrarNão é nada que o mar possa levarE por mais que escaves a terraA impossibilidade permanece…Espera um poucoDeixa que te tente explicar,É uma espécie estranha de angústiaNão é a saudade dos poemas comunsNem a revolta contra a […]

MECÂNICA DO SONHO

POESIA MECÂNICA DO SONHO PEDRO VALE Trepa a liana o simbólico detetive da imaginação.Referência orgânica da língua, declaração de exílio, fonte abundante.Descida à prisão. Identidade e interesse do pensamento.Descoberta dos personagens: paradigma e destino.Um poeta articula e reverte o mundo de casa aberta, viva canção. (falsidade-embaraço, perfume-folclore, magia-projeção, poema-cheiro,figura-mãe, memória-ferrugem) Arrastamento, recorrência e inevitável esquecimento […]

IRÁS SEMPRE CRUZAR A MESMA RUA

Fotografia de Fabian Fauth POESIA IRÁS SEMPRE CRUZAR A MESMA RUA TIAGO MARCOS Irás sempre cruzar a mesma ruaNo caminho que é pensarE terás os pés doídos pelas pedrasMas não pares.Sei, só no espaço guardado para a esperança,Que uma manhã nova viráE todo o pó que o caminho temSerá soprado por um vento novoUm vento […]

QUANDO VOLTARES

Scotch, Rocks I, 2008, Julia Jacquette POESIA QUANDO VOLTARES ANTÓNIO FOJO quando voltares, não olhes de soslaio para mim.eu fiz da minha biologia uma tentativa,eu portei-me bem e a preceito.deixei feita a cama, enchi os vasos de água,calcei com amor as botas rasgadasque encontrei no meio da lama.eu cantei para Ti quando a raivaera por […]

POEMAS DA MINHA VIDA

Pintura de Aires dos Santos POEMAS poemas da minha vida MIGUEL MESQUITA MONTES I OS ROJÕES DA MINHA MÃE SÃO OS MELHORES rojões DO MUNDO Os rojões da minha mãe são os melhores rojões do mundo,Embora goste mais de os comer no restaurante.Cansado, chego a casa e brilha a lua:“Mãe, o que vamos jantar?”“Rojões, e […]

Manoel de Barros | Livro sobre Nada

CLUBE DOS POETAS MORTOS MANOEL DE BARROS A lista das suas obras é farta; as condecorações também (onde se incluem dois Prémios Jabuti), ainda que tenha demorado a chegar o reconhecimento da crítica e do público à poesia que o próprio define como parte da “vanguarda primitiva”. Manoel de Barros escrevia ser o poeta “fraco […]

EXERCÍCIO DE MORRER II

POESIA exercício de morrer ii LÍVIA PELLEGRINI Fazercontigo escansões no tempo Reconhecendo-teao transcorrer do rio instante por instante e sempre do cantochão às alturasa voz Inscrevendod e v a g a r i n h o nossa fatia de brisanossa cadência de amor. Share on facebook Share on twitter Share on linkedin Share on pinterest […]

ERA UMA VEZ NA TERRA UMA FLOR ARRANCADA

Night Blooming Cereus, de Ladianne Henderson, 2015 POESIA Era uma vez na Terra Uma flor arrancada ANA RITA RODRIGUES [ A Flor do Sonho, alvíssima, divina, Miraculosamente abriu em mim ]  Florbela Espanca    Pingava do céu,naquele final de tarde.Apesar disso,imperou o alcatrão, ao relento.Auscultadores pousados, microfones desligados;jingles trocados  pelo assentoda tua mota: adrenalina que o peito quase […]

CORO ATLÂNTICO

“Polar Woman ― The Memory of her Icy Love”, Kazuya Akimoto POESIA coro atlântico LÍVIA PELLEGRINI Minha terra tem encantosTantosque não há como contar Estão no canto que insistenas aves e as que aqui gorjeiamtransitam agitadas Trazem no cantouma dorde uma mensagem deslocada : óleo mortal éderramadonas águas férteisde Dona Janaínae espalha-se por toda a […]