A MÁQUINA DE ESCREVER

POESIA A MÁQUINA DE ESCREVER MIGUEL MESQUITA MONTES Ainda consigo sentir o que sentiaquando um escritor me tocava.Apertava-me as teclas,não para me apertar,mas para apertar alguém.O que os escritores não sabemé que quem mais apertamsão eles. Ainda consigo sentir o que sentiaquando um escritor me usava.Cravava no papel que eu cuspia,esquecendo-me do que nele escrevia,o […]

III | XX SÃO AMOR POEMAS

POESIA RUI SOBRAL IIIXX são amor poemas perdi um irmãoesta semanaum irmão que não estava na fotografiaum irmão de toda a minha existênciaum irmão filho da minha tiaperdi um irmão pelo primo que desconheciapelo primo que amavapelo primo que meu o meu irmão dava antes do ano novo começarperdi um irmão de toda a minha […]

III | XX NATAL E HOSPITAIS

The Adoration of the Shepherds – El Greco POESIA RUI SOBRAL ​ IIIXX natal e hospitais as origens da bíbliacomo a desconhecemospertencem à história do natalque se eleva aos mortais          como sensatos vilões e se revela nas mesas fartase nas portas entreabertas          das camas dos hospitais Share […]

II | I CAMAS MINHAS

POESIA RUI SOBRAL III camas minhasdesgraço-meem camas de outras pessoasvestindo-mesempre de nada nas minhase morro sempre de manhã morro sempre de manhã Share on facebook Share on twitter Share on linkedin Share on pinterest Share on pocket PARTILHAR

III | XVIII BATIMENTOS CARDÍACOS FILHA

Edvard Munch, “New Snow in the Avenue”, 1906 POESIA RUI SOBRAL IIIXVIII batimentos cardíacos filha abraço a menina que tem de primavera a outonoas suas asase abraço-a vivaabraço-a minha a meninaque para os braços meus correunaquele inverno infinitoque gelou um diatodos os batimentosdeste meu nosso coração Share on facebook Share on twitter Share on linkedin […]

Florbela Espanca | Lágrimas Ocultas

CLUBE DOS POETAS MORTOS FLORBELA ESPANCA Nasce Flor Bela, mas cedo começa a utilizar pseudónimos para os seus textos: dos contos ao diário, passando pelas traduções, a obra de Florbela Espanca é tão completa quanto podia ser, embora seja na poesia – e principalmente nos sonetos – que se destacou, imprimindo nos versos a atribulação […]

II | I POETA NÃO SOU EM MIM

POESIA RUI SOBRAL III poeta não sou em mim escrevesse eu poesiaou nãopoeta na mesma seriavive em mim a poesiasem que a exerça(aos olhos dos outros)sem que a retrate (aos olhos meus)vive em mim toda a poesiatoda a poesia do mundosem que de poesia me vistasem que poesia sinta em mimapenas a beboa esquartejoe a […]

II | II SANGUE DANÇA MINHA

Dance Among Swords -Henryk Siemiradzki, 1881 POESIA RUI SOBRAL ​ IIII sangue dança minha a minha dançaé uma faca na mãouma faca na mãode cabo preto afiadapara mortes usadamilhões de vezespara mortes usadade cortar cansada;às vezesàs sete e meia da manhãentre nevoeiros nossosfrios de gelo no mar;outras vezes à noiteantes de adormecercom odor a morte […]

III | XIX POETA NA POESIA

POESIA RUI SOBRAL IIIXIX poeta na poesia não há poema lidoem que não seja encontradaa poesia de quem o lêsem que nele veja guardadocomo mistério suplementara vida morta onde se revê Share on facebook Share on twitter Share on linkedin Share on pinterest Share on pocket PARTILHAR

III | XVIII ESPANHOLA NOSSA MARESIA

POESIA RUI SOBRAL IIIXVIII espanhola nossa maresia no ar a maresia chegava-nosao coraçãoestávamos todos lána mão de uma espanholaestávamos todos látodos menos um Share on facebook Share on twitter Share on linkedin Share on pinterest Share on pocket PARTILHAR

III | XX FAMÍLIAS PERFEITAS MINHA

One of the Family, Frederick George Cotman, 1880 POESIA RUI SOBRAL IIIXX famílias perfeitas minha há famílias perfeitasvivem em cidades modernascom veleiro e moto de pistatodos com carros e motoristanas suas casas luminosasjantam descansados à mesanão há crianças a correr à voltatodas se comportam decentementee crescem com banho ao deitare pequeno-almoço de manhã há famílias […]

III | XV ENUNCIADO À MORTE

Fotografia de Chris Buckwald POESIA RUI SOBRAL IIIXV enunciado à morte subi as escadas – feito loucosubi-as sempre a correrdeitava-se a noite devagare eu ao cimo a querer chegarpara encontrar no ventorazões para não me atirar Share on facebook Share on twitter Share on linkedin Share on pinterest Share on pocket PARTILHAR

III | XX AO MEU LADO NINGUÉM

Twilight, Venice – Claude Monet POESIA RUI SOBRAL III XX ao meu lado ninguém descansa amor que o sol se pôs e me iluminou ainda tu dormias pintou-me de gelo por dentro e de amor a ti por fora devagar desencarcerou do peito meu a lua e disse-me baixinho sossega ainda há tempo até sossegar […]

III | XV CAMINHOS DE TERRA E SANGUE

Landscape, Rene Magritte, 1926; POESIA RUI SOBRAL IIIXV caminhos de terra e sangue percorri todas as tuas estradasas que trilhaste sozinha nosfrios da madrugadadentro da cúpula envidraçadaque construímos sem medidae nos guardamos para sempre percorri-as devagar na pérfidaesperança de nos encontrarencontrei-nos sozinhos lentostrilhos a metade por acabartrilhos de terra e sanguetrilhos ainda por trilhar Share […]

O QUE PRECISA A POESIA

Greta Knutson-Tzara, Spring Morning, 1950s POESIA O QUE PRECISA A POESIA BRUNO FIDALGO DE SOUSA o primeiro verso vem sempre carregado de hidrogénio, vem rimado,é do hélio, do vapor: o que precisa a poesia? contenho-me o que precisa a poesia? nunca de um rebanho. afinal o que precisa a poesia é espaço o que precisa […]

III | XVIII SUOR AMOR NOSSO

Caspar David Friedrich – Woman Before the Rising Sun (1818-20) POESIA RUI SOBRAL IIIXVIII suor amor nosso respirações tuas adormecem o meu solfazem-me sentir que adormecem o meu sole devagar transpiras espinhos nossos dos braçose contas-me aos poucos que partiste de manhãrefletem-se cores e novas flores em mimsinto escapar espaços novos de nós doise mordem-me […]

BRAVO, COMO EU

POESIA BRAVO, COMO EU BRUNO FIDALGO DE SOUSA 1. vejo-te: tens os olhos raiados de sangue.noto que te aproximas, pronto para me derrubar. sinto-teresfolgar como danado cão selvagem.chegamos à batalha.pontapeias o chão de fúria.dás voltas à arena em incúria e ouço-te. o teu urro é animalesco.na mão vejo o espeto. resta a mortalha. o teu […]

I | XCVI JANELAS ABERTAS RETROVISOR O MEU PAI

POESIA RUI SOBRAL IXCVI janelas abertas retrovisor o meu pai do alto do meu quarto ouço carros lá forarodas nuas no alcatrão da chuva molhadosinto a brisa das janelas abertas dos carrose lembro-me de quando criança as abrianos bancos de trás partilhados com a sofiae o meu pai pelo retrovisor me seguia do alto do […]

III | XX PESCOÇO VELHO E O SERROTE

Black Untitled by Willem de Kooning, 1948 POESIA RUI sOBRAL IIIXX pescoço velho e o serrote decapitaste-me e eu feliz ajudei-tenaquelas partes mais difíceis a minha mão a empurrar a canetaque me ia cortando devagar o pescoçotinhas um ar sereno enquanto cortavasfizemos quatro ou cinco intervalose eu aguardava pacientementesegurei inclusive o serrote, sozinhoenquanto fumavas lá […]

III | XIX DA RAPOSA O OLFATO

Death in the Sickroom, Edvard Munch, 1893 POESIA RUI SOBRAL IIIXIX da raposa o olfato a fotografia de todos nós outra veztodos nósmenos um Share on facebook Share on twitter Share on linkedin Share on pinterest Share on pocket PARTILHAR

DIRIAM UNS: O MAR AQUIETA, O MAR CONSERTA, O MAR REPARA

Monge Junto ao Mar, Caspar David Friedrich POESIA ANA RITA RODRIGUES Diriam uns:o mar aquieta, o mar conserta, o mar repara.Diriam outros:o mar entorpece sentidos, o mar abate-os, o mar traz fastio e dá nascença à melancolia, ainda que nem sempre a melancolia enfastie.Dir-se-ia:talvez me situassem a mim algures no meio dessas duas margens.E, do […]

II | VII A POESIA DOS DETIDOS

POESIA RUI SOBRAL IIVII a poesia dos detidos no corpo do poema a minha espadadetida por mãos nunca escritasvestida de pó dos pés à cabeça eis um poema teu devagarinhoao luminoso som de apaixonados Share on facebook Share on twitter Share on linkedin Share on pinterest Share on pocket PARTILHAR

III | XVI AMANTES DO CAMPO

Tempo de Colheita, Julian Dupre POESIA RUI SOBRAL IIIXVI amantes do campo semeei na terra um amor que era só nossoe de angústias reguei-o delicadamentetodos os dias ao acordartodos os dias fizesse chuva fizesse sol todos os diastodos os dias reguei-o ao acordaràs vezes vento outras não colhi dos outros verdades sempre nossasverdades mentidas a […]

II TODAS AS NOSSAS CANÇÕES

POESIA RUI SOBRAL IItodas as nossas canções sonhaste-me amor naquela tarde desamparadade nós os dois sempre juntos lado a ladoenquanto nus bebíamos florestas inteirasde amor sangue sangue amor e bebedeiras escapaste-me sozinha no doce horizontede quilómetros inteiros a navegar sozinhoà esquerda o ribatejo à direita sanjoaninasque de fé me perdia de fé me ganhava e […]

III | XVIII CORPOS NOSSOS DOIS

Figuras na praia, 1931, Pablo Picasso POESIA RUI SOBRAL IIIXVIII corpos nossos dois do chão os pés que pisasas histórias por contartristes amargurasde vidas por viverdo chão os pés tão nossossapatos rasgadoscoelhos no chãocigarros nos olhoseu quero ver-te irrasgar partir mentirbeber só dos teus olhosamar amar no chãoamor tu és só minhaamor não és só […]

Mahmoud Darwish – Tenho lugar marcado no teatro abandonado

tradução TENHO LUGAR MARCADO NO TEATRO ABANDONADO MAHMOUD DARWISH Tenho lugar marcado no teatro abandonadoem Beirute. Talvez me esqueça, talvez recordeo ato final sem saudade… e a única razãoé que a peça não foi escritacom habilidade…Caoscomo nos dias de guerra daqueles em desespero, e uma autobiografia do impulso dos espetadores. Os atores rasgavam osguiõese procuravam […]

II | XCIX A MORTE EM FADO EM MIM

Marsz żałobny, Władysław Podkowiński – 1894. POESIA RUI SOBRAL IIXCIX a morte em fado em mim morrer tornou-se sabedorianas horas de garrafas vaziascustou-me tanto viver tantas vezes na minha vidaque morrer queria tantoque morrer parecia fado sem que matar-me fado se realizasse – morre de uma vez ou vive em mim alguma coisaque me faça […]

III | XIX RUMINANTES HISTÓRIAS MIL

POESIA RUI SOBRAL IIIXIX ruminantes histórias mil ruminantes pensamentos meusimagens em caracol de outroscanções antigas baixinhoe fumo de cigarros à janelajá nem sei quem sou agoranunca soube ao certo tambémmales de amor decertogenealogias obscuras em mime palavras mil à noitehistórias desconhecidasperdidas no raciocínio meuoutrora nu outrora teununca só teu sempre só meu Share on facebook […]

É PRECISO VIVER SEM PAIXÕES

POESIA PEDRO VALE É preciso viver sem paixões.Mergulhar no absoluto anonimato,Permanecer morto ou vivo até ao fim. Aclamar o tumulto escuro e bruto.Encenar o drama clemente e lento.Sentir um amor ideal por anjos nebulosos.Descobrir um novo fundo de poesia e aguardaruma voz que nos ordene docilmente– Não te movas, nem te inquietes,nem traias o queainda […]

III | XX VÍCIOS CIGARRO AMOR

POESIA RUI SOBRAL IIIXX vícios cigarro amor um cigarro no tempo em que fumarme fazia novoe me trazia paz aos pulmões meusum cigarro que agora me pedesa mim devagarnas angústias de um tempo acelerado com o fumo pelas estribeiras da camaenrolo-me nu aos lençóis nossos das noites sem sonoe bebo-me inteiro a um só golesem […]