III | XX ASTRONAUTA AMOR

POESIA RUI SOBRAL IIIXX astronauta amor foi sempre o amor. é sempre o amor. nada é tão alto como o amor, nada é tão solene, nem severo; nada é tão agramatical, nem fértil nem terreno nem astronauta no espaço;nada é tão sereno ou obsceno como é o amor. foi sempre o amor, será sempre o amor. que nos […]

António Gedeão | Lágrima de preta

CLUBE DOS POETAS MORTOS ANTÓNIO GEDEÃO Nasceu e morreu Rómulo de Carvalho, mas é o nome António Gedeão que ressoa nos ouvidos do leitor, a imagética de uma “bola colorida entre as mãos de uma criança”, o seu musicado poema Pedra Filosofal, presente no seu primeiro livro de poesia, Movimento Perpétuo, publicado somente quando já […]

O TEU NOME

Egon Schiele, The Lovers, 1909 POESIA O TEU NOME BRUNO FIDALGO DE SOUSA a partir de “Esquimó“, de Fabrício Corsaletti ​ no outro dia, ouvi na televisão o teu nomeas notícias adoram noticiar o teu nomeeu gostava de nunca me esquecer do teu nomee gravar no meu diário o teu nomepara notificar o notário do […]

III | XIII VALA SÓ MINHA

Stabat Mater, Roberto Fiore POESIA RUI SOBRAL IIIXIII vala só minha o pó das cinzas minhasneste mundo derramadasoh vala triste que me tenssempre tão mortotão morto e preocupadode fracassar cansadode em alto mar, à vela, naufragadoa esbravejarde em alto mar, à vela, naufragadoa esbravejar, a esbravejarsempre tão mortosempre à esperaque a vala me tornemorto descansadomorto […]

José Gomes Ferreira | Homens do futuro

CLUBE DOS POETAS MORTOS JOSÉ GOMES FERREIRA Foi um “poeta militante”, à poesia, à sua “teoria do grito poético”, ao poder mutante dos versos. Nasceu no Porto, mas cedo se mudou para Lisboa – onde veio a morrer. A sua vasta obra divide-se em crónicas, ficção, memórias, traduções, ensaios e literatura infantil (como as Aventuras […]

Alda Lara | Noite

CLUBE DOS POETAS MORTOS ALDA LARA A sua poesia é social e humanitária: do exílio à opressão, escreve sobre a mulher, o seu país e o término da colonização, sobre África, da “noite” ao “regresso”, sobre a solidão. Alda Lara, poeta portuguesa com origens angolanas, cursou e praticou Medicina, ao mesmo tempo que a sua […]

III | XVIII Petra – UM POEMA DE AMOR

First Steps (after Millet), Vincent van Gogh POESIA RUI SOBRAL IIIXVIII Petra – um poema de amor também Tu me ajudas a descer da cadeira de madeiraproíbes-me com a Tua nascençade morrer cedo às minhas mãos(uma outra espécie de Salvaçãouma outra forma de penitência)já não desejo a morte como antesnem a fome me é tão […]

Manuel Resende | Confissão

CLUBE DOS POETAS MORTOS MANUEL RESENDE Poeta de sublime engenho e surreal crueza, poeta discreto de ímpeto lírico vigoroso, Manuel Resende, também jornalista, também tradutor (de Marx a Kaváfis), publicou somente três livros de inéditos ao longo de três distintas décadas: “Natureza Morta com Desodorizante” em 1983, “Em Qualquer Lugar” de 98 e “O Mundo […]

QUERIA INVENTAR UMA LINGUAGEM

Composition VII, Wassily Kandinsky POESIA QUERIA INVENTAR UMA LINGUAGEM PEDRO VALE Que ri aI n v e n t a rU m a  l i n g u a g e m ,movimento perpétuo, eUm culto e belo cogumelo encontrar.Queria a raiz, o chão, a manta, o lar. T e rA do r ado oReto […]

Fiama Hasse Pais Brandão | Os amigos que morrem

CLUBE DOS POETAS MORTOS FIAMA HASSE PAIS BRANDÃO Poeta, dramatruga, ensaísta e tradutora, Fiama Hasse Pais Brandão ainda é um nome debilmente iluminado pelos holofotes da cultura portuguesa. A sua obra é vasta e referencialmente rica, harmoniosamente simbólica. Na prosa, destaca-se com Em cada pedra um voo imóvel; na poesia, faz parte da revista Poesia […]

Ary dos Santos | Epígrafe

CLUBE DOS POETAS MORTOS ARY DOS SANTOS Da sua caneta brindam-nos centenas de canções, da sua poesia fica marcada a contestação e intervenção ao  Estado Novo português; dos seus escritos saíram quatro canções vencedoras da Eurovisão e mais de 600 produções poéticas; da sua voz recordamos os discos “Ary por si próprio” ou “Cantigas de […]

Miguel Torga | Misere Nobis

CLUBE DOS POETAS MORTOS MIGUEL TORGA O nome Miguel Torga não é passível de irreconhecimento. Nascido em Vila Real Adolfo Correia da Rocha, só ao terceiro romance, A Terceira Voz, adotou o pseudónimo literário pelo qual hoje o conhecemos, em homenagem a Cervantes, Unamuno e à flor da montanha. Um dos mais influentes autores portugueses […]

II | XCIX OUTRO RENASCIMENTO

POESIA RUI SOBRAL IIXCIX outro renascimento histórias de virgindadena central dos autocarrosnos bancos da cidadenas esplanadas hoje nuasna relva onde comemoscoisas tuas; coisas nossasnas mochilas da escolae tantos sonhos vivemostantos pães na relva comemostanto amor, tantas promessastantas lágrimas e ciúmestantas origens desconhecidastodas vindas do estômagoo amor não foi suficiente, amore hoje olho-tee desejo-te com a […]

EIS QUE UM DEUS IRREMEDIÁVEL DESVENDA OS SEUS PLANOS

Crâne de squelette fumant une cigarette, by Vincent Van Gogh, 1888 POESIA EIS QUE UM DEUS IRREMEDIÁVEL DESVENDA OS SEUS PLANOS ANTÓNIO FOJO Eis que um Deus irremediável desvenda os seus planos a prova não é um tormento honroso à escatologia é uma castanha meia verde enrolada na língua “Meu Deus” mas a castanha agora […]

Fernanda de Castro | Três Poemas da Solidão

CLUBE DOS POETAS MORTOS FERNANDA DE CASTRO Escreveu para teatro, poesia, na qual se estreou aos 19 anos, literatura infantil, romances, inclusive cinema e um livro de introdução à botânica, traduziu dezenas de importantes autores da literatura europeia e foi a primeira mulher a ser reconhecido com o prémio Ricardo Malheiros, tendo como galardão maior […]

IRÁS SEMPRE CRUZAR A MESMA RUA

Fotografia de Fabian Fauth POESIA IRÁS SEMPRE CRUZAR A MESMA RUA TIAGO MARCOS Irás sempre cruzar a mesma ruaNo caminho que é pensarE terás os pés doídos pelas pedrasMas não pares.Sei, só no espaço guardado para a esperança,Que uma manhã nova viráE todo o pó que o caminho temSerá soprado por um vento novoUm vento […]

A UVA NÃO UIVOU

On The Vine, Darice Machel McGuire POESIA A UVA NÃO UIVOU SARA MARTINS Há tempo em que a terra uiva, Lavrando bocas entre bocejos. Ainda a terra não acabou de bocejar-te, E já as parras, em ninhos, murcham-se. Ainda nem as uvas se deixam ver, E já a terra uiva de dentro do ninho. Ou […]

António José Forte | O Poeta em Lisboa

CLUBE DOS POETAS MORTOS ANTÓNIO JOSÉ FORTE O “mano Forte”, como foi apelidado por Luiz Pacheco, é talvez um dos grandes últimos poetas do movimento surrealista da poesia portuguesa, cujos versos “nos ficam como se os houvéssemos descoberto num muro, numa parede que nos perturbou o caminho, porque fulgura neles a feroz exemplaridade dos desastres […]

Mário Cesariny | Pastelaria

Fotografia de Eduardo Tomé CLUBE DOS POETAS MORTOS MÁRIO CESARINY Diz-se ser ele o principal representante do surrealismo português. Poeta e pintor, dissidente e controverso, Mário Cesariny é uma figura incontornável da cena literária nacional – em Paris, a curta convivência com André Breton ajudou-o a clarificar o caminho do surreal e a afastar-se do […]

POEMAS DA MINHA VIDA

Pintura de Aires dos Santos POEMAS poemas da minha vida MIGUEL MESQUITA MONTES I OS ROJÕES DA MINHA MÃE SÃO OS MELHORES rojões DO MUNDO Os rojões da minha mãe são os melhores rojões do mundo,Embora goste mais de os comer no restaurante.Cansado, chego a casa e brilha a lua:“Mãe, o que vamos jantar?”“Rojões, e […]

António Aleixo | Quadras Escolhidas

CLUBE DOS POETAS MORTOS ANTÓNIO ALEIXO Em nenhum poeta português se revê tão bem a poesia popular, dedilhada nas quadras características de António Aleixo. O poeta do povo, o “poeta-cauteleiro”, emigrante retornado, foi, segundo os seus contemporâneos, um homem simples, espontâneo, humilde, como concordam os seus versos (“Julgam-me mui sabedor/ E é tão grande o […]

Indulgência Plenária, de Alberto Pimenta

crítica INDULGÊNCIA PLENÁRIA ALBERTO PIMENTA, EDIÇÃO LÍNGUA MORTA [2018] Quando a poesia encontra a realidade e, irreparavelmente, a funde nessa sublimação natural das palavras, as histórias que se diziam factos reforçam-se, dilatam-se. A literatura é exímia no relato narrativo; a poesia é perita na desconstrução (e construção, que a arte tem por hábito ser uma […]

José Bento | Os poemas que escrevas

CLUBE DOS POETAS MORTOS josé bento Um dos maiores tradutores de literatura e poesia em língua espanhola em Portugal, ele próprio um poeta recatado, José Bento faleceu a 26 de outubro de 2019, em Lisboa. As suas traduções de obras de autores como Federico Garcia Lopes, Jorge Luis Borges, Pablo Neruda, Ortega y Gasset ou […]

DERRETEM-SE AS MÃOS NAS MEMÓRIAS

Melting Watch, Salvador Dali, 1954 POESIA DERRETEM-SE AS MÃOS NAS MEMÓRIAS SARA MARTINS Derretem-se as mãos nas memórias,Que ao fogo ficaram e acabaram por se fazer. Estendem-se os braços para além daquilo que se é, Enquanto as horas fogem em passos líquidos, Como se procurassem um gesto que não é meu.  Se todas as coisas […]

A CARTA QUE OPHELIA ACABOU POR ENVIAR

Fernando Pessoa, pintura de António Faria POESIA A CARTA QUE OPHELIA ACABOU POR ENVIAR LIA CACHIM Meu querido Fernando,tomara eu ser querida tua como tu és meupara poder tocar-te quando te vejonas raras vezes em que te vejoque na verdade são as raras vezes em que me vês a mim Mas o teu olhar trespassa-me, […]

A POESIA DAS COISAS

POESIA SONHO – VI NUNO MINA Ver tudo menos aquilo que se vê. Uma magia de pôr um sorriso nos lábios, Por ver numa gota de chuva, Num olhar, Num vento, Algo mais do que aquilo que é. A poesia das coisas está em nós. Negar-nos é retirar brilho a um mundo Que é muito […]

DA BOCA FIZ UMA GAIOLA ABERTA

POESIA DA BOCA FIZ UMA GAIOLA ABERTA SARA MARTINS Da boca fiz uma gaiola aberta,Tenho-a cheia de pássaros a picar-me por dentro. A sede das penas a romperem-me a carne,Cegou-me a inocência cristalizada nos olhos. Quantos mais pássaros, mais dentes,Quantos mais dentes, menos pássaros. E porque lhes mastigo os ossos,O âmago escorre pelas minhas mãos. […]

NÃO TE DÊS AO TRABALHO DE FOTOGRAFAR MEIA RUA

POESIA NÃO TE DÊS AO TRABALHO DE FOTOGRAFAR MEIA RUA BRUNO FIDALGO DE SOUSA não te pedi para guardares a minha imagem. tantoque não a quis sequer lembrar no espelho eafastei-me do mar e do reflexo dos vidros.deixei de conduzir eesforcei-me para me afastar das montras ondetelevisões não estariam ligadas24 sobre 7e o material refletor […]

QUEM ME DERA MORRER

POESIA QUEM ME DERA MORRER RUI SOBRAL quem me dera morrerquem me deramorreragoracom as mãos sujas de tintajá seca nas extremidadesainda húmida entre os dedosazul vermelho por todo o ladoisso faria de mim escritor dotadoaté ao último suspiro a escrevera azul vermelho preto tambémo nervo ulnar ainda a baterdas veias mais tinta a rebentarainda mais […]

SONHO – V

Interchange, Willem de Kooning, 1955 POESIA SONHO – V NUNO MINA Engana-se um poetaComo se manipula uma criança. Basta uma folha em brancoPara ainda haver esperançaDe dar cor(da) aos sonhos,Medonhos, como o fadoAprisionado em que levaA sua vida enganada. Cria mundos, cria-se.E tinta basta escorrerPara que Ele nunca se percaE se derrame em sangue. Vai […]