III | XX AO MEU LADO NINGUÉM

Twilight, Venice – Claude Monet POESIA RUI SOBRAL III XX ao meu lado ninguém descansa amor que o sol se pôs e me iluminou ainda tu dormias pintou-me de gelo por dentro e de amor a ti por fora devagar desencarcerou do peito meu a lua e disse-me baixinho sossega ainda há tempo até sossegar […]

III | XV CAMINHOS DE TERRA E SANGUE

Landscape, Rene Magritte, 1926; POESIA RUI SOBRAL IIIXV caminhos de terra e sangue percorri todas as tuas estradasas que trilhaste sozinha nosfrios da madrugadadentro da cúpula envidraçadaque construímos sem medidae nos guardamos para sempre percorri-as devagar na pérfidaesperança de nos encontrarencontrei-nos sozinhos lentostrilhos a metade por acabartrilhos de terra e sanguetrilhos ainda por trilhar Share […]

O QUE PRECISA A POESIA

Greta Knutson-Tzara, Spring Morning, 1950s POESIA O QUE PRECISA A POESIA BRUNO FIDALGO DE SOUSA o primeiro verso vem sempre carregado de hidrogénio, vem rimado,é do hélio, do vapor: o que precisa a poesia? contenho-me o que precisa a poesia? nunca de um rebanho. afinal o que precisa a poesia é espaço o que precisa […]

III | XVIII SUOR AMOR NOSSO

Caspar David Friedrich – Woman Before the Rising Sun (1818-20) POESIA RUI SOBRAL IIIXVIII suor amor nosso respirações tuas adormecem o meu solfazem-me sentir que adormecem o meu sole devagar transpiras espinhos nossos dos braçose contas-me aos poucos que partiste de manhãrefletem-se cores e novas flores em mimsinto escapar espaços novos de nós doise mordem-me […]

BRAVO, COMO EU

POESIA BRAVO, COMO EU BRUNO FIDALGO DE SOUSA 1. vejo-te: tens os olhos raiados de sangue.noto que te aproximas, pronto para me derrubar. sinto-teresfolgar como danado cão selvagem.chegamos à batalha.pontapeias o chão de fúria.dás voltas à arena em incúria e ouço-te. o teu urro é animalesco.na mão vejo o espeto. resta a mortalha. o teu […]

O GRANDE NAVIO

Vessels In A Swell At Sunset, Ivan Konstantinovich, 1850 CONTO – PROSA O GRANDE NAVIO MIGUEL MESQUITA MONTES Na solitude das montanhas, cercado sobretudo por árvores, vivia um velho numa cabana de madeira que construíra para a esposa fazia muito tempo. O velho nunca acreditara um dia vir a ficar sozinho, mas o tempo marcou […]

III | XX PESCOÇO VELHO E O SERROTE

Black Untitled by Willem de Kooning, 1948 POESIA RUI sOBRAL IIIXX pescoço velho e o serrote decapitaste-me e eu feliz ajudei-tenaquelas partes mais difíceis a minha mão a empurrar a canetaque me ia cortando devagar o pescoçotinhas um ar sereno enquanto cortavasfizemos quatro ou cinco intervalose eu aguardava pacientementesegurei inclusive o serrote, sozinhoenquanto fumavas lá […]

III | XIX DA RAPOSA O OLFATO

Death in the Sickroom, Edvard Munch, 1893 POESIA RUI SOBRAL IIIXIX da raposa o olfato a fotografia de todos nós outra veztodos nósmenos um Share on facebook Share on twitter Share on linkedin Share on pinterest Share on pocket PARTILHAR

DIRIAM UNS: O MAR AQUIETA, O MAR CONSERTA, O MAR REPARA

Monge Junto ao Mar, Caspar David Friedrich POESIA ANA RITA RODRIGUES Diriam uns:o mar aquieta, o mar conserta, o mar repara.Diriam outros:o mar entorpece sentidos, o mar abate-os, o mar traz fastio e dá nascença à melancolia, ainda que nem sempre a melancolia enfastie.Dir-se-ia:talvez me situassem a mim algures no meio dessas duas margens.E, do […]

II | VII A POESIA DOS DETIDOS

POESIA RUI SOBRAL IIVII a poesia dos detidos no corpo do poema a minha espadadetida por mãos nunca escritasvestida de pó dos pés à cabeça eis um poema teu devagarinhoao luminoso som de apaixonados Share on facebook Share on twitter Share on linkedin Share on pinterest Share on pocket PARTILHAR

II TODAS AS NOSSAS CANÇÕES

POESIA RUI SOBRAL IItodas as nossas canções sonhaste-me amor naquela tarde desamparadade nós os dois sempre juntos lado a ladoenquanto nus bebíamos florestas inteirasde amor sangue sangue amor e bebedeiras escapaste-me sozinha no doce horizontede quilómetros inteiros a navegar sozinhoà esquerda o ribatejo à direita sanjoaninasque de fé me perdia de fé me ganhava e […]

III | XVIII CORPOS NOSSOS DOIS

Figuras na praia, 1931, Pablo Picasso POESIA RUI SOBRAL IIIXVIII corpos nossos dois do chão os pés que pisasas histórias por contartristes amargurasde vidas por viverdo chão os pés tão nossossapatos rasgadoscoelhos no chãocigarros nos olhoseu quero ver-te irrasgar partir mentirbeber só dos teus olhosamar amar no chãoamor tu és só minhaamor não és só […]

II | XCIX A MORTE EM FADO EM MIM

Marsz żałobny, Władysław Podkowiński – 1894. POESIA RUI SOBRAL IIXCIX a morte em fado em mim morrer tornou-se sabedorianas horas de garrafas vaziascustou-me tanto viver tantas vezes na minha vidaque morrer queria tantoque morrer parecia fado sem que matar-me fado se realizasse – morre de uma vez ou vive em mim alguma coisaque me faça […]

III | XIX RUMINANTES HISTÓRIAS MIL

POESIA RUI SOBRAL IIIXIX ruminantes histórias mil ruminantes pensamentos meusimagens em caracol de outroscanções antigas baixinhoe fumo de cigarros à janelajá nem sei quem sou agoranunca soube ao certo tambémmales de amor decertogenealogias obscuras em mime palavras mil à noitehistórias desconhecidasperdidas no raciocínio meuoutrora nu outrora teununca só teu sempre só meu Share on facebook […]

III | XX VÍCIOS CIGARRO AMOR

POESIA RUI SOBRAL IIIXX vícios cigarro amor um cigarro no tempo em que fumarme fazia novoe me trazia paz aos pulmões meusum cigarro que agora me pedesa mim devagarnas angústias de um tempo acelerado com o fumo pelas estribeiras da camaenrolo-me nu aos lençóis nossos das noites sem sonoe bebo-me inteiro a um só golesem […]

O QUE QUER QUE ENTERRES

25 de Abril, Mariana Cordeiro POESIA O QUE QUER QUE ENTERRES ANTÓNIO FOJO se pisas as sementes,se mentes,se travas o caminhoà primavera tudo isso um dia te espera a tirania do homem anónimoas obras predilectas – o que quer que enterresna superfície da esfera – o pesar do teu próximo,a voz dos profetas tudo isso […]

III | XIX POESIA VI

Daydreamer -Required Reading, Carl Larsson POESIA RUI SOBRAL IIIXIX poesia vi pouso baudelaire na beira da janela olho impaciente a janela embaciada entre as gotas da humidade vejo um carro lá fora a subir a encosta rumo ao nevoeiro, parece desviar-se destino à lua, abranda, encosta, uma porta aberta alguém se aproxima em passo acelerado […]

II | LXXXVII O VENTO MUNDO MEU

POESIA RUI SOBRAL II LXXXVII o vento mundo meu pego nos comprimidospreparo-me para partirchamo os amigos quenunca foram meus aviso-os “vou partir”abraçam-me caladosou gritam silêncios em coroa memória é fraca dispo as meias e acamisola enrolo-meem mim e fico caladoaté a fome chegar pego nos compridospreparo-me para irembora mas não voude fome prefiro morrer os […]

ARROZ QUE SE COSE FALA E UMA SOLIDÃO AURORIZADA

CONTO – PROSA ARROZ QUE SE COSE FALA E UMA SOLIDÃO AURORIZADA ANA RITA RODRIGUES I SOLIDÃO CAPEADA. CLAREIRA-PROFECIA Sabia-me solitário. E sabia-me bem saber-me solitário. Entendia este leva-leva, de ser e saber que era, mais como rumo à tranquilidade do que como fatalismo ou fragilidade temida pelo homem contemporâneo. No entender dos outros (os […]

Entre a Carne e o Osso, de Luís Filipe Parrado

crítica entre a carne e o osso luís filipe parrado, edição língua morta [2012] “Entre a Carne e o Osso” ficam uma lasca de madeira, poemas, luz e fruta. Muita luz, para refletir em plena condição a recheada fruteira de memórias, experiências, anseios. E perguntas. Com alguns receios. Esta primeira obra de Luís Filipe Parrado […]

QUEM ME DERA MORRER

POESIA QUEM ME DERA MORRER RUI SOBRAL quem me dera morrerquem me deramorreragoracom as mãos sujas de tintajá seca nas extremidadesainda húmida entre os dedosazul vermelho por todo o ladoisso faria de mim escritor dotadoaté ao último suspiro a escrevera azul vermelho preto tambémo nervo ulnar ainda a baterdas veias mais tinta a rebentarainda mais […]