III | XIII VALA SÓ MINHA

Stabat Mater, Roberto Fiore POESIA RUI SOBRAL IIIXIII vala só minha o pó das cinzas minhasneste mundo derramadasoh vala triste que me tenssempre tão mortotão morto e preocupadode fracassar cansadode em alto mar, à vela, naufragadoa esbravejarde em alto mar, à vela, naufragadoa esbravejar, a esbravejarsempre tão mortosempre à esperaque a vala me tornemorto descansadomorto […]

II | II NOITES DE DIAS EM VÃO

POESIA RUI SOBRAL II II noites de dias em vão impiedoso é este vazioque preenche as noitesas noites minhasnoites sozinho de angústias fartonoites perdidasde dias em buscade quem afinal sou eu impiedoso vazio queescravo me manténs a mima mim cru de ser mata-me de tiou mata-te de mimdisfarça-me para longede quem afinalsou eu Ilustração de […]

IV | LXVI A BELA AOS OITENTA

POESIA RUI SOBRAL IVLXVI a Bela aos oitenta vazio olhar no espelho do hallrugas minhas; lá fora primaverana cozinha as luzes que a Belapintava quando nova sonhava;quando nova ainda sonhava comsonhos desconcretizadosvazio olhar o meu desde os trintapresságio bom em número para morrerporém vivi; morto vivo por aquicom memórias nunca minhasnostalgias de coisas cruasde coisas […]

I | LXXXIX SETE E MEIA

Yellow House, Vincent Van Gogh, 1888 POESIA RUI SOBRAL ILXXXIX sete e meia o credo rezado ao fim da tardecabeceira da cama de solteiroDeladoze pessoas na pontevindas da casa divinarumo à casa amarelao sabor a cevada na minha bocamisturado com circus de sabores pastososdesde as três e meia; desde as três e meiada tardee o […]

III | XIX CARTA DE DESPEDIDA

Michaelangelo’s list detail POESIA RUI SOBRAL III XIX carta de despedida uma vida inteira em pontuações finais; ou talvez a minha carta de morte natural: abacaxi. melão. água. pão. chocapic. ice tea. batata frita. douradinhos. vinho. carregar telemóvel. Share on facebook Share on twitter Share on linkedin Share on pinterest Share on pocket PARTILHAR

IRÁS SEMPRE CRUZAR A MESMA RUA

Fotografia de Fabian Fauth POESIA IRÁS SEMPRE CRUZAR A MESMA RUA TIAGO MARCOS Irás sempre cruzar a mesma ruaNo caminho que é pensarE terás os pés doídos pelas pedrasMas não pares.Sei, só no espaço guardado para a esperança,Que uma manhã nova viráE todo o pó que o caminho temSerá soprado por um vento novoUm vento […]

A UVA NÃO UIVOU

On The Vine, Darice Machel McGuire POESIA A UVA NÃO UIVOU SARA MARTINS Há tempo em que a terra uiva, Lavrando bocas entre bocejos. Ainda a terra não acabou de bocejar-te, E já as parras, em ninhos, murcham-se. Ainda nem as uvas se deixam ver, E já a terra uiva de dentro do ninho. Ou […]

António José Forte | O Poeta em Lisboa

CLUBE DOS POETAS MORTOS ANTÓNIO JOSÉ FORTE O “mano Forte”, como foi apelidado por Luiz Pacheco, é talvez um dos grandes últimos poetas do movimento surrealista da poesia portuguesa, cujos versos “nos ficam como se os houvéssemos descoberto num muro, numa parede que nos perturbou o caminho, porque fulgura neles a feroz exemplaridade dos desastres […]

QUANDO VOLTARES

Scotch, Rocks I, 2008, Julia Jacquette POESIA QUANDO VOLTARES ANTÓNIO FOJO quando voltares, não olhes de soslaio para mim.eu fiz da minha biologia uma tentativa,eu portei-me bem e a preceito.deixei feita a cama, enchi os vasos de água,calcei com amor as botas rasgadasque encontrei no meio da lama.eu cantei para Ti quando a raivaera por […]

Mário Cesariny | Pastelaria

Fotografia de Eduardo Tomé CLUBE DOS POETAS MORTOS MÁRIO CESARINY Diz-se ser ele o principal representante do surrealismo português. Poeta e pintor, dissidente e controverso, Mário Cesariny é uma figura incontornável da cena literária nacional – em Paris, a curta convivência com André Breton ajudou-o a clarificar o caminho do surreal e a afastar-se do […]

Bang Avenue: dos ensaios no alpendre para o palco do Mercado Negro

ESPECIAIS – REPORTAGEM Bang Avenue: dos ensaios no alpendre para o palco do Mercado Negro ANA RITA RODRIGUES Começámos a tocar atrás do meu prédio. Houve um dia em que uma senhora abriu as janelas. Pensámos ‘ Estamos lixados ! ‘ , até que ela perguntou ‘porque é que pararam ? Eu abri as janelas […]

Jorge de Lima | Poema à Pátria

CLUBE DOS POETAS MORTOS JORGE DE LIMA O “príncipe dos poetas”, como foi apelidado por um jornal da sua terra natal, foi um homem de vários ofícios. Além de médico, professor ou vereador, Jorge de Lima destacou-se nas artes plásticas e na literatura, estando a sua obra divida em estéticas distintas: o seu primeiro livro, […]

Augusto dos Anjos | Vandalismo

CLUBE DOS POETAS MORTOS augusto dos anjos Quando, em 1912, publicou a sua antalogia de poemas Eu, a crítica não foi a melhor. É que Augusto dos Anjos prima pela singularidade da sua voz poética, unindo um vocabulário científico e racional ao simbolismo da data, dissecando temas como a morte, a angústia e a solidão, deixando nos […]

EXERCÍCIO DE MORRER II

POESIA exercício de morrer ii LÍVIA PELLEGRINI Fazercontigo escansões no tempo Reconhecendo-teao transcorrer do rio instante por instante e sempre do cantochão às alturasa voz Inscrevendod e v a g a r i n h o nossa fatia de brisanossa cadência de amor. Share on facebook Share on twitter Share on linkedin Share on pinterest […]

ERA UMA VEZ NA TERRA UMA FLOR ARRANCADA

Night Blooming Cereus, de Ladianne Henderson, 2015 POESIA Era uma vez na Terra Uma flor arrancada ANA RITA RODRIGUES [ A Flor do Sonho, alvíssima, divina, Miraculosamente abriu em mim ]  Florbela Espanca    Pingava do céu,naquele final de tarde.Apesar disso,imperou o alcatrão, ao relento.Auscultadores pousados, microfones desligados;jingles trocados  pelo assentoda tua mota: adrenalina que o peito quase […]

ARROZ QUE SE COSE FALA E UMA SOLIDÃO AURORIZADA

CONTO – PROSA ARROZ QUE SE COSE FALA E UMA SOLIDÃO AURORIZADA ANA RITA RODRIGUES I SOLIDÃO CAPEADA. CLAREIRA-PROFECIA Sabia-me solitário. E sabia-me bem saber-me solitário. Entendia este leva-leva, de ser e saber que era, mais como rumo à tranquilidade do que como fatalismo ou fragilidade temida pelo homem contemporâneo. No entender dos outros (os […]

NICTOFOBIA

Ilustração de Francisco Ferreira conto- PROSA nictofobia ANA RITA RODRIGUES A soma ao ânimo que o cair da noite provoca nuns é simultaneamente a subtração ao ânimo de outros. Pelo menos, ao ânimo de Teresa e de Pedro, esse cair ocasionava uma perda tal, que os fazia cair também. Nictófobos, encaravam a noite como uma […]

NÃO TE DÊS AO TRABALHO DE FOTOGRAFAR MEIA RUA

POESIA NÃO TE DÊS AO TRABALHO DE FOTOGRAFAR MEIA RUA BRUNO FIDALGO DE SOUSA não te pedi para guardares a minha imagem. tantoque não a quis sequer lembrar no espelho eafastei-me do mar e do reflexo dos vidros.deixei de conduzir eesforcei-me para me afastar das montras ondetelevisões não estariam ligadas24 sobre 7e o material refletor […]

QUEM ME DERA MORRER

POESIA QUEM ME DERA MORRER RUI SOBRAL quem me dera morrerquem me deramorreragoracom as mãos sujas de tintajá seca nas extremidadesainda húmida entre os dedosazul vermelho por todo o ladoisso faria de mim escritor dotadoaté ao último suspiro a escrevera azul vermelho preto tambémo nervo ulnar ainda a baterdas veias mais tinta a rebentarainda mais […]

JAZZ

Portrait of Germaine Nellens. René Magritte. 1962

POESIA JAZZ LÍVIA PELLEGRINI enquanto dançam em mim todas as vozes do dia a lua vai crescendo decidida a gaveta do criado está aberta o chá ferveu o bolo acabou na vitrola o mesmo disco há meses pela janela, a brisa fica refém do meu corpo presa fácil do amor espero sem expectativa aquela serenata. […]

Fósforos e Metal sobre Imitação de Ser Humano, de Filipa Leal

crítica fósforos e metal sobre imitação de ser humano filipa leal, edição assírio e alvim [2019] Escreve que “Não suja as mãos quem suja o poema” e que “este livro começou por ser uma tentativa de EXPOSIÇÃO DE ESCULTURA”. Filipa Leal continua a deambular sardonicamente pelos aspetos do quotidiano, espicaçando aqui e ali as exigências […]

EXÉRCITO DE SOLDADOS LÍRICOS

“View of Westminster Bridge”, Joseph Nicholls, 1740 PROSA – CRÓNICA EXÉRCITO DE SOLDADOS LÍRICOS ANA RITA RODRIGUES No aeroporto, vaguear em páginas online de jornais serve de subterfúgio à espera demorada até embarcar no avião. “Sem-abrigo português morre em Londres e Jeremy Corbyn deixa mensagem” é o título noticioso que mais me rouba a atenção: não sei […]

ELE E ELA

The Lovers II, Rene Magritte,1928 prosa – conto ele e ela nuno mina O empregado recebe um encontrão vindo do nada. Ele pede desculpa, diz que não o viu, puxa uma cadeira e senta-se. Dá esperança a um cigarro. Percorrendo o horizonte, vislumbrando o mar, o sol, as formigas que passeiam na areia, desliga-se do […]

TESOUROS

POESIA TESOUROS LÍVIA PELLEGRINI Das voltas que o mundo dáencontro em cheiocom o ponto de partida Entre sonhos, visitas eespelhosA notória presença da falta Não esqueçamos, prezados insurgentes!que o vazio é o que permiteo movimentodas partículas O que não pode faltarespecialmente pela manhã –é o café. Sem título, Pedro Santos Share on facebook Share on […]

EUCALIPTOS

prosa – conto eucaliptos rui sobral ao longe os eucaliptos. recordo-me dos eucaliptos pelo cheiro que se fazia sentir à entrada do cemitério. uma velha aqui outra acolá, poucas pessoas àquela hora. procuro a minha irmã, sei que está junto ao muro, lá em baixo. ouço as folhas dos eucaliptos a esvoaçar, presas ao seu […]

DILÚVIO

DILÚVIO, por Mariana Cordeiro

poesia dilúvio BRUNO FIDALGO DE SOUSA um dilúvio é a única catástrofeinconcebível pela atualidade. sabem-seser reais as ondas, o espreguiçar da Terra,mas ainda se duvida das nuvens. ainda se crêna metafísica, na fé, na tísica, no dormir de pé. ainda não se afinou a pontaria. há embarcaçõesque cheguem para suportar quem reste – quemsabe flutuar. […]