PORVENTURA

se, porventura, não vos for possível ler este poema, tudo temam.
ninguém precisa de um lápis da cor do mar ensonado.
dessa grafite que enfeita as linhas tortas da maré.
um marcador fluorescente sobre todas as obras inapropriadas.
todas as palavras sublinhadas pelo atentado à família, à fé, ao passado.
se, porventura, não vos for possível ler algum poema, tudo temam.
tivessem lido todos antes.
é pena. ainda se escutam os ecos
dos versos de Brecht, de Niemöller, de Eduardo.

e se, porventura, substituírem neles as palavras,
e se, porventura, fizerem sentido, tudo temam.
chegará o dia em que nos virão buscar.
não dará nem tempo de colher aquela flor.
e se, porventura, já tardar em demasia,
já tudo devem temer.

se, porventura, se anielarem os répobros e os mal-amados, tudo temam.
se, porventura, se criminalizar Roma e se louvar o Papado, tudo temam.
se, porventura, se recusar o solo a quem nada sem pé, tudo temam.

percorrendo calmamente todos os versos, eles virão.
como vampiros que são. e seremos tão poucos.

troncos de árvore tombados num jardim plantado.
onde? não sabemos. já não reconhecemos as flores.
diziam-me que os cravos eram vermelhos; mas a hortifloricultura
anda uma lástima; agora há excesso de girassóis, cegos pelo sol,
e de encarnado não se faz a pátria. metade desta bandeira
é apenas sangue disfarçado.

portanto e

se, porventura, vos acariciarem o caule antes de arrancar a raíz, tudo temam.
se, porventura, vos explicarem tal coisa como além-de-humana raça, tudo temam.
se, porventura, vos reduzirem a uma insignificante parte do todo, tudo temam.
qual é o todo de coisa alguma? qual é coisa que, no seu todo, se incompleta?
a máquina perfeita não existe. o Übermensch cometeu suicídio. o populismo tem
o seu sentido, a demogagia tem sempre a melhor história. entenderam o que
vos digo? é o bandidismo, o mendicismo, o radicalismo. tanto ismo. tanta retórica.

se, porventura, vos levarem o nome e a vontade, tudo temam.
se, porventura, vos roubarem a casa e a nacionalidade, tudo temam.
se, porventura, forem vítimas da fome e da Idade, tudo temam.
se, porventura, forem óbitos da revolta e da desigualdade, tudo temam.

se, porventura, cair Clístenes em derrocada
e, porventura, se juntar nova chaga ao escudo de armas,
se, porventura, escapar da pólis a humanidade, com um fascista em cada bancada,
porventura, um fascista de cara lavada,
tudo temam.

se, porventura, se repetir o novíssimo estado das coisas, tudo temam.

até chegar a hora de não temer mais.

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Bruno Fidalgo de Sousa

Bruno Fidalgo de Sousa

Depois da dança, o lobo avança, encontra a curva.

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