Pintura de Aires dos Santos

poemas da minha vida

I

OS ROJÕES DA MINHA MÃE SÃO OS MELHORES rojões DO MUNDO

Os rojões da minha mãe são os melhores rojões do mundo,
Embora goste mais de os comer no restaurante.
Cansado, chego a casa e brilha a lua:
“Mãe, o que vamos jantar?”
“Rojões, e não pode sobrar!”
Faço que sim com a cabeça, sento-me à mesa e virou o banquete,
Feito desses belos rojões, um café, e uma ida à retrete.

II

O TANQUE PERDIDO DA MINHA AVÓ

Há um tanque perdido no vale onde vivia.
A água nele passava como o sangue nas minhas veias,
E, mesmo distante, eu a ouvia.
Nascida na mina, lá longe, na esverdeada irmã vinha mergulhar
Para um dia se evacuar,
E seguir o seu caminho.
No verão, um mergulho bastava,
E, dissaboreado o inferno,
No além se tocava.
Era o tanque perdido da minha avó,
Que, uma vez encontrado, me fazia perder-me.

III

AQUELA CONSOLA, EM 2003

Aquela consola, em 2003,
Foi quem primeiro me tirou do quarto.
Sentadinho na cadeira, na cama, ou até ao contrário,
Jogava, jogava, jogava.
Não queria dormir quando o nível não cruzava:
“Mas pai, o Bernardo já vai à frente!”
“Pois, e por isso está na cama, doente.”
Ao meu lado, nem o meu irmão sonhava,
Em 2003, quando aquela consola o mundo me dava.

Iv

OS MEUS ÓCULOS NOVOS

Os meus óculos novos não me deixam ver nada.
Fazem de mim distante, porque não sabia ver ao longe,
E agora sei.
Fazem de mim grande, porque pensava estar mais próximo do chão,
Mas não estou.
Levanto-me e esqueço-me de os pôr,
Deito-me e esqueço-me de os tirar.
Caramba! Quem me dera não os ter,
Porque estes óculos novos não me dizem nada;
Só como é o mundo,
Quando eu nem queria saber.

V

AS CHUTEIRAS QUE NUNCA TIVE

Já não sei onde arrumei
As chuteiras que nunca tive.
Se no armário, se na gaveta,
Se naquela mochila preta.
Levavam-me aos jogos, caminhando em sonho:
“Mãe, vens ver?”
“Claro, e não vale perder!”
Com elas, abria os braços, e voava,
Sempre que um golo a chuteira magicava.
Queria voltar ao relvado, calcar o seu leve tecido,
Mas esse meu sono tem-me andado adormecido.

VI

A PERNA DE PLÁSTICO DO MEU AVÔ

A perna de plástico do meu avô assustava-me quando saía.
O seu olhar, perdido algures,
Via em mim o que outrora se alevantava.
Agora, deitado na cama,
A testemunhar a tomada da loucura,
Nem da perna boa ele precisava.
Já não sei por onde caminha
Essa perna meio que doida;
Sei mas é que já vinha,
E trazia o meu avô de volta.

VII

A QUEM PERTENÇO

Se, ao entrar no comboio, vir a chegada,
Tudo ficará bem.

Lembro-me daquele céu roxo
A confundir-se com o mar estendido,
Que se curvava para quem o mundo tinha percebido,
E tinha agora a coragem de mergulhar.
Abraçado a ti, rodopiava na bacia da não ondulação,
E nem o mundo girava.
O tempo tinha puxado do travão de mão
E estacionado na rua da felicidade.
E, deixando escapar a ideia de inocência,
Provava-te que o meu paladar não conhecia a sua ciência.
Pelos montes fugia o amigo alaranjado,
E nós, exilados da cozinha, nadávamos até o sentir.
Foi só no dia seguinte, volvido o passado,
Erguida a estrela imperadora,
Que dei conta de que o melhor não se pode repetir:
Uns dizem que sim, outros nem tanto,
Mas a dúvida leva-me a mergulhar no que penso.
Só chegado à tona regressava desse lugar distante
Que é o das recordações de a quem pertenço.

As bolhas do fundo do oceano fazem cócegas.
Num lugar melhor seria impossível comparecer:
É o passado a contar-me o que fui,
A mostrar-me o que sou,
A adivinhar o que serei.
As coisas da minha vida marcam-me como balas,
Que, arrancadas de mim, parece que nunca me pertenceram.
Cicatrizada fica a ferida ardente,
Essa, a pior delas todas,
Aquela que já não se sente.
Foco-me no que já foi,
Insisto em não olhar em volta,
Receio o que possa surgir,
O que me possa fazer cócegas,
Quando uma bolha passa por mim e me obriga a rir.
São as bolhas da vida que me preenchem o ser;
São as bolhas da vida que verei quando morrer.
Maldita seja essa bolha que me vai levar para longe,
Que me vai tirando primeiro
Desse lugar que é o último (a memória)
O que me pertenceu.
E fico fodido quando me lembro de que a todos pertenci,
Mas ninguém em mim ficou.
E, à boleia da bolha, lá me vou.

Quero fugir deste mar,
Deste inferno que se mascara e me encharca de água gelada.
Quero voltar à cozinha onde fui feliz,
Onde tudo me pertencia,
Desde as chuteiras na minha cabeça
À consola que me esperava no quarto;
Desde a perna do meu avô na reforma perdida
Aos rojões que me deixavam farto;
Desde o tanque no meu pensamento de verão
A uns óculos que ainda não tinha, pois não.
Desde ti, envolta no meu abraço,
Clamando que te largasse
Para poderes cozinhar sem embaraço.

Quero fugir deste mar que me obriga a escrever,
Que me obriga a tecer a dor e a transformá-la nisto,
Que nem por isso me a deixa ver.
Quero voltar a ser quem sou.

“Com tanta treta, ainda vai perder a viagem!”
Avisa-me a voz segura,
Confundida pela fraca ondulação.
Nada se cria sem ondas, sem resistência,
E nada se compreende sem paciência.
Tremo de novo,
Mas não do frio;
Tremo porque imagino um futuro sombrio.
Tremo porque o comboio já partiu
E eu não sei onde arrumar a mala.
Devia tê-la deixado em casa,
Em vez de andar a passeá-la.
Deixo os medos para trás,
Porque vejo qualquer coisa lá ao fundo,
Porque, entrado no comboio, vejo a chegada,
E tudo me parece bem.

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Miguel Mesquita Montes

Miguel Mesquita Montes

Duriense apaixonado por cinema e por escrever

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