Giorgio Gosti, trains 9, 2019

Pode uma estação de comboios assemelhar-se a uma plantação de urtigas?
ou Agata, a mulher do pescoço em I

Como tampa que sela uma caixa branca de papel, tinha o Inverno prolongado de Leste já coberto os campos e as cidades de uma neve fofa e leve. Àquela hora fria da manhã, sob os toldos que cobriam as esplanadas estranhas ao clima dessa região do mundo, homens nus dançavam de mãos dadas debaixo da neve, que os toldos não impediam de escorrer pelas carnes ao léu e de as banhar, virando água que não evaporava, pois que Sol havia? A contemplar os dançarinos nus e agora lavados, outros homens apagavam beatas nessa neve, à medida que tragavam como esponjas a vodka de avelã que havia de coagular com o sangue logo pela manhã. Sorviam com os lábios a boca dos cálices cheiinhos da doce e morna fermentação, e faziam-no com uma atenção cuidada, fisgando com os olhos os dedos que seguravam a bebida e a bebida segurada, para que não entornasse. Quem disse que joie de vivre é coisa da cultura ocidental? Esta gente também dança, arfa, sua. Talvez suscitasse este quentifrio no corpo e no espírito uma possível vontade de viver, ou ilusoriamente consolasse as dores invisíveis nos corpos que, apesar de nus, não deixavam a descoberto. É que, a par do festim e do aparente amor à vida, as margens da alameda enchiam-se de mulheres que se manifestavam. Pela mão seguravam cartazes, e neles a mensagem: “O Meu Corpo, A Minha Escolha”. Não se pergunte, portanto, por que razão dançavam os homens nus logo pela alva: o seu corpo também haveria de ser a sua escolha. Entretanto, do lado de lá do balcão, a Mulher do Pescoço em I emitia bilhetes. Sim, a Mulher do Pescoço em I. Porque se David Lynch pôde criar um bebé mutante e deformado, e J.K. Rowling goblins e gigantes, e até o Cosmos centopeias-domésticas, nada impede de sair do caldeirão entrópico que é o meu teclado a grotesca e desconcertante Mulher do Pescoço em I. 

Chamava-se Agata, a mulher cujo corpo desembocava em I Maiúsculo. Bem, talvez não se chamasse, mas, pelo menos nesta história que vos conto, é assim que se chama. Na verdade, não lhe sei o nome real, e isso pouco ou nada importa para esta história. “Agata” é um nome de uma amiga polaca que A. fez quando regressou a Portugal, mas essa será ainda uma outra história. De Agata a batizo porque, como um fantasma que bate à porta, me urra na lembrança a seguinte inquietação de Deborah Levy: “Quem somos nós, afinal, se não temos um nome?”; mas digo que ser ou não ser Agata no nome pouco ou nada importa já que, responder-lhe-ia Saramago, “dentro de nós há uma coisa que não tem nome, essa coisa é o que somos”, e é sobre essa coisa inominável que vos falo nesta história.

Àquela hora fria da manhã, estava A. numa dessas cidades, a tentar lidar com a sensação de ter um cisco no olho esquerdo, que mais não era que uma irritaçãozita no globo ocular, talvez represália da fusão de ares compartilhada durante as três horas e meia de voo e da decorrente míngua de irrigação, ou mesmo (aposte-se mais nesta opção) uma desculpa esfarrapada para centrar a atenção no cisco e ignorar a inquietação por saber que, mais tarde ou mais cedo, teria de comunicar com Agata, a Mulher do Pescoço em I. 

Àquela hora fria da manhã, tinha o nariz de A. o cheiro a folhas molhadas e a restos de cevada diluída em água lêveda comprada na hora da aterragem, na fé de funcionar a cevada como expresso ocidental e converter a sonolência em estímulo, pois, apesar das horas não dormidas no avião, seria preciso arrebitar os olhos, com ou sem cisco, e focá-los nas novidades da cidade. As placas polacas eram língua morta para A., que nem o bê-a-bá dominava. Para além disso, Varsóvia diferia em muito daquela que, horas antes de embarcar, os passeios digitais no Google Maps lhe haviam mostrado. À semelhança de quando vemos alguém em tempo real e nos esforçamos por fazer coincidir as feições dessa hora real com as que se recorda da pessoa, A. esforçou-se por fazer coincidir feições, veias, anos e roupagens que vestiam Varsóvia Real com as de Varsóvia Virtual. A diferença, no entanto, era maior que a similitude, manifestando-se no aroma sumarento da vodka de avelã lambida e engolida pelos homens nus sob os toldos de neve; nas mulheres manifestantes; no cheiro a queijo e ketchup oriundo das judaicas Zapiekankas vendidas a cinco złotys em roulottes nas labaredas das estradas; nos raios de visão que a tecnologia ainda não concede. Em tenra idade, A. sonhava que lambia e partia o ecrã da televisão, na esperança de assim conseguir provar o bolo de chocolate do Henrique Sá Pessoa e cheirar o perfume em forma de maçã da Nina Ricci. Utopias devaneantes que só sonhos segregam e que só a eles e à tenra idade pertencem, até chegar o dia em que a física e a tecnologia rumem a esse Império Onírico e transformem as utopias em possibilidades mercantilizáveis. O dia em que lá se chegar será tanto benéfico, uma vez que expirar-se-ão os devaneios da fantasiosa A. (de lamber e partir os ecrãs para tocar, provar ou cheirar) e, com eles, as despesas que implicaria reparar o vidro da televisão, como promíscuo, pois, se tudo nos será dado através de passeios virtuais pilotados pelos dedos indicadores, até os odores e paladares que se arrastam pelas ruas, para que servirão os clássicos meios de transporte? Virarão defuntos? O que levará o Homem a escolhê-los para viajar?

Como quem vem do Palácio da Cultura e Ciência e atravessa uma das passadeiras à direita, ei-la: a estação ferroviária que mais parecia uma plantação de urtigas, ao decalcar-lhe na pele uma súbita  irritação cutânea: puxadas ou empurradas as portas, aguardar-lhe-ia no seu interior Agata, a Mulher do Pescoço em I, e, com ela, a primeira das dinâmicas sociais por estabelecer com os forasteiros, autóctones do solo que A. pisava, no qual ela sim (lhes) era forasteira. Encharcada das vagas pingas que do céu caiam e das espessas que provinham do seu próprio dilúvio hormonal, A. deu os primeiros passos, cochos e inseguros, rumo à estação. Uma voz apenas interiormente audível zuniu-lhe: “Avança. Entra.”, e a palma de uma mão invisível deu-lhe uma pancadinha no ombro, empurrando-a para o interior da estação. A. foi no encalço da voz inaudível e da palma de mão invisível, entrou na estação e aproximou-se do balcão. Afunilou os olhos, ainda irritados dos ares do avião ou do cisco ficcionista. Acachapada na mesa da secretária e a ela colada como um lagarto, de aura um pouco cansada da vida e quase sem greta de tempo para respirar, de tão absorta nas extenuantes e mecânicas tarefas de imprimir bilhetes, marcar bilhetes, sublinhar nos bilhetes as partidas, as chegadas, as horas, as trocas, os dados fundamentais, levar à guilhotina bilhetes, corrigir bilhetes, lá estava a Mulher do Pescoço em I. 

Usava um casaco de fato de treino, originalmente concebido para se usar folgado e assim confortar o corpo, mas que no corpo desta mulher ficava tão cintado que quase se lhe rebentavam as costuras. Poderia ser este o motivo do desassossego de A., ou os calos que forravam as meninges de Agata, ossos do ofício maquinista, ou os lábios carnudos que delimitavam a boca tão grande, que seria impossível não rir com os dentes todos, ou até o arco-íris nascido das extravagantes mechas lacadas a laranja e turquesa que se abriam no cabelo fúchsia, mas não. O tesouro que guardava o baú, escondido entre as pontas desse arco-íris capilar, e por sinal a razão do desassossego, era o pescoço daquela mulher. Ou a inexistência dele, ou a estranha fisionomia provocada por essa inexistência. O pescoço daquela mulher era um I, um I Maúsculo, de tipografia, sem a ponta de um i como têm todos os is minúsculos e aos quais se parecem todos os pescoços de gente dita normal, se é que ela realmente existe. Seja como for, em Agata parecia não haver pescoço a conectar a cabeça ao tronco; como se o tronco e a cabeça, unidos e achatados, formassem um só órgão. Por uns dez minutos, A. não consegue livrar-se da imagem de uma arena onde Agata é amassada por meia dúzia de pugilistas armados em doutores que executam no corpo da mulher uma espécie de cirurgia macabra e feita de berlaitadas, responsáveis por aquela sinistra fisionomia, e sente a tensão arterial a desatinar por não conseguir escapulir daquela imagem entorpecedora.  

 Após uma lufada de ar frio e matutino inspirado aos solavancos e sem mais delongas, A. tomou a dianteira:

-Good Morning. It’s a ticket to Łódź , please.

Com um ar quase tão frio quanto o que A. inalara minutos antes, (e que veio em dias póstumos a descobrir ser transversal ao Ser-se polaco e ao viver-se à luz dessa maneira de se ser, e que fria mais não é que um eufemismo para hostil, por mais que também essa gente nua dance, nua arfe, nua sue) responde-lhe Agata:

-Nie rozumiem.

Como quem diz: não entendo. Como seria presumível, porque chegada de fresco, era A. quem não entendia que nie rozumiem significava não entender. Fustigada de perdida no labirinto-remoinho das múltiplas e possíveis significações da resposta de Agata (já não haveria mais comboios para Łódź ? Mas, mal amanheceu! Como não haver mais comboios!? Combinei com a Andreia às onze na estação ferroviária de Łódź , só tenho três horas para lá estar…aaaaai!) , A. cacarejou à martelada as seguintes palavras que acreditou serem chaves suficientes para que Agata a entendesse finalmente:

-Łódź . Ticket. Train. (!)

Agata repete, então, o nome da cidade:

-Łódź ? 

-Woods? Florestas?! Que raio…esta mulher está a querer fazer-me embarcar para uma floresta? indagou A., mentalmente, até chegar à epifania:

-Ah! “Łódź ”! -Ao que parece, Łódź  lê-se como se lê Woods, acentuando-se o fim da palavra com a onomatopeia do silêncio: Shhhh! Esta onomatopeia não é mais nem menos que uma metáfora para a pronúncia. Era a pronúncia que lhe faltava incluir no nome do destino da viagem solicitada. Era essa pronúncia de Agata, melodiosa e de rouxinol já farto de cantar, que foneticamente se separava de A., de pronúncia ainda talhada à faca como os bilhetes que Agata talhava, e de rouxinol recém-nascido. 

Porque palavras pouco adiantam em situações confrangidas apesar de insólitas, nada proferiu A., nem mesmo um palavrão daqueles bem sujos que apetece gritar aos quatro ventos, mas, esófago acima, uma súbita vontade de rir cresce-lhe como cresce todo o vómito que se quer expelir, havendo pouco ou nada a fazer nessa instância a não ser provocar a catarse: deixá-lo, enfim, tomar conta do corpo desarmado, rumar até à boca e através dela libertar-se.  Todavia, para não agravar o constrangimento, A. arranjou forças, regurgitou a vontade-vómito e engoliu-a que nem tequila com limão. 

Pelo canto do olho esguelhado, Agata vigiava A., sem pestanejar, e o choque dos seus olhares produziu em A. uma espécie de descarga elétrica no sangue, misturada com algum suor, talvez. Talvez sejam os olhos a arma que sempre carregará o corpo dos homens, e oxalá fosse a única. Enquanto isso, esboçou-se no rosto de Agata um sorriso postiço de sacripanta, uma máscara de amistosidade maliciosa que talvez já fizesse parte da sua indumentária natural porque diária, ao ponto de a colocar no rosto a cada uma das vezes que atende um estrangeiro. Imprimiu o bilhete de A., e nele besuntou a marcador laranja os dados fundamentais do bilhete –  que seriam cruciais à inspeção do revisor do comboio e a afastariam de clandestina – ainda que clandestina fosse a sensação certa para descrever como se sentia naquele território, tão forasteiro e atípico, não muito longe de pardacenta terra baldia, terra de muitos mas de ninguém, até porque mais perto de ninguém do que de todos parece hoje gradualmente ser, enquanto terra de um povo que manifesta por ver liberdades e direitos serem inconstitucionalizados, cerceados e cortados pela lâmina conservadora e repressiva. Uma lâmina que cresce, que se afia e afina por voz que silencia a dos manifestantes, por se querer uníssona e ancenúbio da Democracia. Também ela, a Democracia, vai diagnosticando ciscos, com a diferença de que estes se diagnosticam no Globo que se afirme democrático, e não apenas no ocular.  

A imagem que imprimo hoje surge do também impresso bilhete que data meados de um inverno de 2018 (um bilhete que veio, meses póstumos, a constar no caderno de recordações de A., mas que, para Agata, era apenas um dos demais bilhetes que diariamente imprimia, cortava, besuntava, etc.). Hoje, dois anos depois, talvez Agata, a Mulher do Pescoço em I, tenha trocado a máscara de amistosidade maliciosa por uma cirúrgica, pois há as pestes que devastam, uma constitucional e outra pulmonar, mas ambas respiratórias e respiráveis. Talvez já não esteja do lado de lá do balcão e o marcador fluorescente tenha sido entregue a mãos que não as suas. Talvez essas outras mãos pertençam a um corpo que desemboque em i minúsculo. Talvez pertença esse corpo a um espírito mais complacente do que o de Agata, quando confrontado com um cliente forasteiro e, portanto, de pronúncia martelada e não de rouxinol cantante, à semelhança da de A. . Talvez tenham outros ouvidos também absorvido “Florestas” (Woods) no lugar de “Łódź” e se tenham tanto ou mais intrigado quanto os seus. 

É divertida esta coisa de as línguas tanto nos achegarem e aconchegarem por nos achegar, como nos afastarem, situando-nos ora na pertença e no entendimento, ora na margem do significado das suas palavras. Esta coisa é indissociável de outra, chamada fonética, e que é simpática por nos fazer encontrar semelhanças nas palavras que evocamos do arquivo que com o tempo armazenamos, e que, apesar de foneticamente semelhantes, vulgarmente colidem no seu significado. Conclusão: bem, afinal, há nomes que importam. Nem todos. O de Agata, não. O da cidade, sim. Ou, melhor: há coisas que talvez nos interesse nomear e pronúncias que nos recompense ir polindo (talvez os homens nus dispensem uns minutos da dança e da vodka para nos ajudar), a menos que não seja para nos fazermos entender ou, neste caso, para não irmos pernoitar à beira dos lobos e bisontes que habitam as desérticas e silenciosas florestas periféricas da (por vezes periférica) Polónia.  

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Ana Rita Rodrigues

Ana Rita Rodrigues

Algures entre Aljezur e Porto; algures entre jornalismo, literatura e jornalismo literário.

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