Egon Schiele, The Lovers, 1909

O TEU NOME

a partir de “Esquimó“, de Fabrício Corsaletti

no outro dia, ouvi na televisão o teu nome
as notícias adoram noticiar o teu nome
eu gostava de nunca me esquecer do teu nome
e gravar no meu diário o teu nome
para notificar o notário do teu nome
ou me despedir no mar saltando pelo teu nome

se um dia eu rezar, rezarei pelo teu nome
se um dia já não for mais dia eu nas trevas procurarei o teu nome
eu nas minas procurarei o teu nome
eu nas minhas costas tatuei o teu nome
pena que os espelhos se quebrem com o teu nome

se eu for velhinho quando encontrar o teu nome
provavelmente não me lembrarei mais do teu nome
mas se ainda hoje descobrir o teu nome
reescreverei um dicionário com o teu nome

espero que me digas o teu nome
de nada vale o meu nome sem o teu nome
pouco vale quando falta o teu nome
é uma delícia o teu nome
recheiam croissants em Paris com o teu nome
turistas querem fotografar o teu nome
nos Elísios querem plantar o teu nome
e todas as flores sugam o teu nome

havia um monumento com o teu nome
mas todos os monumentos deviam ter o teu nome
ainda bem que não tenho o teu nome
não aguentava o teu nome
não devia ser um fardo o teu nome
que amanhã nascerá alguém com o teu nome
e penso que minha filha terá o teu nome
minha cadela terá o teu nome
até minha terra terá o teu nome
desde que a caixa de correio tenha o teu nome

adoro escrever nas cartas o teu nome
todas as cartas seriam belas se só tivessem apenas o teu nome
e se todos os marcos de correio ostentassem o teu nome
todos largariam o email pela possibilidade de rever o teu nome

pensando bem, todos os assuntos podiam perfeitamente ser o teu nome

na minha cidade existia um parque com o teu nome
e deixávamos voar balões ao ar no feriado que tinha o teu nome
por mim todas as feiras também tinham o teu nome
queria passear na calçada com o teu nome
os meus pés tão cansados de evitar pisar o teu nome
e todo eu exausto por saber tão longe o teu nome

não consigo encontrar outros versos sobre o teu nome
quem sabe todos os versos sejam sobre o teu nome

se eu construir um barco, ele vai ter o teu nome
e quando o batizar o champanhe terá o teu nome
todas as flores do mundo são das cores do teu nome
às vezes acredito que bem lá no fundo o meu dopante é o teu nome
e que todos os dias me vicio um pouco mais no teu nome

gostava de me emprestar o teu nome
gostava de vigiar o teu nome
e impedir quem quer roubar o teu nome
gostava que todos soubessem a importância do teu nome
seria segurança se me dessem a guardar o teu nome
seria mendigo se me dessem o teu nome
mas continuaria rico por saber o teu nome

não consigo duvidar do teu nome
quando espirro espirro o teu nome
quando tusso tusso o teu nome
e quando grito ecoa o teu nome
a acústica é uma merda perante o teu nome
quantos de nós somos reclusos do teu nome
quando todos os países querem conquistar o teu nome
e erguer bandeiras no teu nome

se voltar à guerra, escreverei na espingarda o teu nome
e se ficar pela guerra, lembra-te que sangrei suplicando pelo teu nome
e se voltar da guerra, quero que na minha medalha se coloque o teu nome

quando for enfermo e padecer gasto, quero que me relembrem do teu nome
como quando em criança me liam histórias com o teu nome
quando no final eu escrever o teu nome
mesmo tendo dedicado nestas estrofes o teu nome
se me encontrar náufrago escreverei na areia o teu nome
e dos meus três álbuns preferidos todos têm o teu nome
se um dia for vivo tenho a certeza que ainda vive o teu nome
se um dia deixar de escrever, hei de ter escrito infinitas vezes o teu nome
mesmo que poucos consigam ler na cacografia o teu nome
não é egoísmo – é por saudade que este poema não dirá o teu nome

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Bruno Fidalgo de Sousa

Bruno Fidalgo de Sousa

Depois da dança, o lobo avança, encontra a curva.

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