Greta Knutson-Tzara, Spring Morning, 1950s

O QUE PRECISA A POESIA

o primeiro verso vem sempre
carregado de
hidrogénio,
vem rimado,
é do hélio, do vapor:

o que precisa a poesia?

contenho-me

o que precisa a poesia?

nunca de um rebanho.

afinal

o que precisa a poesia é espaço o que precisa a poesia é espaço o que precisa a poesia é espaço o que preciso da poesia é espaço o que precisa a poesia é o espaço o que precisa na poesia é espaço o que precisa da poesia é do espaço e repetição e

métrica antes que
se desalinhe tudo se
encavalguem as
palavras

RITMO, não grites, ritmo como
se todo o verso um fonema
toda a sílaba operação
ponto G
de gravidade
falta
intensidade nesse poema

CARALHO

imagética. um rio que escorre
montanha abaixo
e sangra e sangra e encarnada
como tinto é a água

o que precisa a poesia
é um verso estranho

quem precisa somos nós

tão imprecisa a nossa voz

(que até um verso entre parênteses conta)

(até um espaço.
até um ponto)

.

um poema tem:
tem nada
nada tem.
só assim
funciona

o poema, como a arte, é parte do exato processo
de tudo o que tem fulcral função
por somente se dignar a existir.

o que precisa a poesia é ser passada a limpo.

o melhor calígrafo
cede sempre à cacografia
quando transcreve algo que nunca leu.

(algo que o papel nunca vira)

o que precisa
a poesia
é a inexatidão.

Precisamente.

Share on facebook
Share on twitter
Share on linkedin
Share on pinterest
Share on pocket
Bruno Fidalgo de Sousa

Bruno Fidalgo de Sousa

Depois da dança, o lobo avança, encontra a curva.

PARTILHAR