Vessels In A Swell At Sunset, Ivan Konstantinovich, 1850

O GRANDE NAVIO

Na solitude das montanhas, cercado sobretudo por árvores, vivia um velho numa cabana de madeira que construíra para a esposa fazia muito tempo. O velho nunca acreditara um dia vir a ficar sozinho, mas o tempo marcou a sua posição, provando que mesmo o conhecimento de uma alma experiente pode, por vezes, estar errado.

“Morreste numa tarde chuvosa,” diria ele à sua amada, se ao menos ainda tivesse força nas cordas vocais. As suas mãos tremiam e ele quase deixou cair o copo de brandy que segurava. “Vivemos juntos por… quase tanto de quanto me consigo lembrar, e não houve um único dia em que eu não soubesse onde estavas, desde então. Por vezes escapavas até ao rio, pensando que eu não sabia, apenas para ouvires o som da água a correr de forma selvagem pela floresta. Às vezes ias até ao celeiro, onde nunca tivemos animais, mas onde nos perdemos naquelas noites de verão, sob o céu mais bonito que alguma vez vi. Outras vezes ficavas-te apenas pela cama, esperando pela chegada do dia seguinte… e ele sempre chegou.”

“Mas agora olho em volta e não te vejo mais, e não sei se estás ao pé do rio a cantar, se no celeiro à minha espera e à espera de que eu te ame só mais uma vez. Eu sei que esta não é uma noite de verão, mas podia ser, se apenas quisesses, pois sempre fizeste tudo à tua maneira, e eu sempre acreditei em ti por isso.”

O velho estava preocupado por não mais se conseguir recordar da face da sua amada. “Mas eu ainda a consigo cheirar, pois consigo,” respondia à sua preocupação. “O dia que pensei nunca chegar finalmente chegou, e eu não sei mais onde estás, embora saiba que enterrei o teu corpo no jardim que temos em frente à nossa casa. Só desejo que ainda estivesses na nossa cama, esperando pelo amanhã… mas infelizmente não há mais amanhãs para ti.”

O velho sentou-se no sofá pelo resto da tarde, lembrando-se do que conseguia da sua amada. Depois de beber um grande trago de brandy, reuniu todas as forças que ainda tinha para tornar a sua história de amor eterna:

«Aqueles eram tempos de guerra, e a segurança não podia ser garantida algures na aldeia a não ser numa pequena casa perto da praia. Nessa pequena casa vivia um marinheiro reformado com o filho, um jovem soldado pronto para ir à guerra. O jovem soldado não queria nada ir à guerra para proteger a aldeia, pois ao invés disso ele queria viver em paz, “e a guerra não consegue fazer paz,” ele sempre acreditara.

Uma noite, quando a aldeia acordara com incessantes disparos, o jovem soldado decidiu finalmente fugir daquele campo de batalha. Sem o consentimento do pai, escapou de mansinho de casa e foi até à praia, onde o marinheiro reformado guardava o seu velho bote. O céu começava a confundir-se com o oceano, pois ambos se tornavam negros, e a lua não estava por perto. “Porra, deixei os remos em casa,” pensou. Por vezes é assim que o mundo se comporta connosco: precisamos de arriscar para nos apercebermos de que talvez ainda não estamos preparados para o enfrentar.

O jovem soldado acabou por dormir no velho bote, balançando com as ondas pacíficas, até o primeiro raio de sol atingir a sua vista. “Podia fazer um par de remos com a madeira da floresta,” disse ele de si para si quando acordou, não se lembrando de que falava sozinho. O jovem soldado tinha sido treinado naquela floresta durante meio ano, aquando da recruta do exército, portanto fazer um par de remos de alguma madeira não seria mesmo um problema.

Quando o sol estava finalmente erguido no céu, o soldado já ia a algumas milhas da praia. O dia corria naturalmente e ele continuava a remar e a remar até que encontrou muitos barcos alinhados à sua volta. “Preciso de chegar a terra antes deles todos, ou nunca encontrarei a paz,” disse ele para si mesmo, uma vez mais.

Um grupo de tubarões que rasgavam o oceano aproximou-se dos barcos. O soldado ficou tão ansioso por estar atrás dos barcos que nem conseguia remar direito. “Preciso mesmo de me focar nisto, ou vou morrer a qualquer momento,” disse, enquanto os seus olhos procuravam terra no horizonte.

Depois de remar mais algumas milhas, o soldado ouviu um barulho estridente. Olhou para de onde o som parecia vir e viu fumo negro dissolver-se no ar. Era um grande navio, todo mestre de si mesmo.

Desesperado por estar perdido desde que nascera, mas agora mais do que nunca, o soldado enfrentou o grande navio, remando o velho bote até à sua frente para ser destruído. Uma jovem senhora, que estava cá fora a sentir o vento a cortar gentilmente o seu cabelo dourado, viu o soldado lá em baixo, nadando pela sua vida, e lançou-lhe uma corda que estava perto de si. “Vá lá, trepa-a,” gritou ela para ele. “Não temas a bondade de uma mulher tonta como eu.”

Depois de ser salvo, o soldado perguntou à mulher por que atirou ela aquela corda. “Eu estou neste navio sozinha, embora haja cá muitos marinheiros, e estou à espera de alguém que me ajude a encontrar o amor… e tu pareceste meio perdido. Já estás apaixonado, jovem rapaz?”, ela perguntou.

“Essa pergunta é ridícula,” respondeu ele com convicção, e a beleza dela ultrapassou-o, “pois um homem está sempre apaixonado, mesmo que só pela própria mãe.” A senhora sorriu para o soldado. Ele sorriu de volta. Os tubarões tinham desaparecido. Os dois encontraram finalmente o que procuravam.

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Miguel Mesquita Montes

Miguel Mesquita Montes

Duriense apaixonado por cinema e por escrever

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