Niemöller, Brecht, Eduardo: os versos antifascistas pelo mundo

“Primeiro vieram pelos socialistas, e eu não disse nada – eu não era socialista.
Depois vieram pelos sindicalistas, e eu não disse nada – eu não era sindicalista.
Depois vieram pelos Judeus, e eu não disse nada – eu não era Judeu.
Depois vieram por mim – e ninguém restava para protestar.”

Que atire a primeira pedra quem nunca encontrou, pelas páginas mais e menos sombrias da Internet, duas, três, quatro versões muito semelhantes deste poema vincadamente antifascista ou, não incorrendo à generalização, vincadamente contra a tirania, que aqui traduzo livremente. É, em simultâneo, um lamento e um chamado. Ambos, o lamento e o chamado, pela mesma razão: o silêncio dos que restam, em cumplicidade com a antidemocracia vigente à data. Com certeza: afinal, estas palavras surgiram em pleno regime nazi, onde quer os socialistas, quer os sindicalistas e principalmente os judeus foram levados, concentrados e mortos.

São quatro versos desdobráveis, daí os diferentes exemplos online. Mas já lá vamos. A realidade é que esta estrofe parece ter aproveitado o embalo dos meios digitais, tornando-se globalmente reconhecida como símbolo de inquietação, expressão comum nas crónicas badaladas dos meios de comunicação, cliché exaustivamente utilizado em vagos discursos políticos. E a grande maioria dos seus citadores aposta, erroneamente, num variado leque de escritores como autor das famigeradas palavras. Muitas vezes, e aqui o busílis, confundindo também dois poemas distintos, ambos sofredores do mesmo mal, da mesma imprecisão autoral, ambos fruto da História.

O primeiro destes dois poemas começa por “Primeiro vieram pelos socialistas”, e foi o teólogo protestante alemão Martin Niemöller (1892-1984) o autor da popular quadra, que é, na maioria das vezes, atribuída a Bertolt Brecht (1898-1956) (certas fontes afirmam que o também poeta revolucionário e contemporâneo de Niemöller escreveu, inspirado nas palavras do pastor, a sua versão do poema, o chamado Intertexto – que, por si só, é a criação de um texto a partir de um já existente – e cuja popularidade rivaliza em pleno com a do original. Não obstante, há também uma passagem numa antologia de poesia selecionada de Brecht que diz “A primeira vez que noticiaram o abate dos nossos amigos houve um grito de horror. Depois, outros cem foram abatidos. Mas quando se abateram mil e não se via fim algum para o abate, uma manta de silêncio espalhou-se. Quando o mal se aproxima como chuva em queda, ninguém diz “pára!” Quando se começam a empilhar os crimes, eles tornam-se invisíveis. Quando o sofrimento se torna insuportável, os gritos já não se ouvem. Também eles diminuem como chuva no verão.”).

Niemöller, que serviu o exército alemão antes de se voltar para a teologia, começou, inclusive, como apoiante do Terceiro Reich. A sua lealdade, contudo, era para com a igreja. Face à censura da GESTAPO (a polícia secreta alemã), passou a encarar o regime nazi com inimizade, como o inimigo que era – ainda é – o fascismo. Foi aí que, em múltiplos discursos públicos, as palavras “Primeiro vieram os socialistas, e eu não disse nada” ganharam força e público. Niemöller passou os últimos sete anos da ditadura nazi em campos de concentração, mas o seu poema não permaneceu com ele. Rapidamente foi adoptado pelas diferentes e variadas forças antifascistas e minorias, que substituíram os sujeitos referidos de acordo com a sua própria ideologia. Assim, e sabendo também que o próprio pastor não tinha uma ordem pré-definida e que alterava as palavras conforme o local onde protestava, e à medida que os primeiros exemplares impressos dos fadados versos surgiam, múltiplas versões conquistavam o seu lugar (de notar, contudo, que a versão por mim transcrita acima está, nominalmente, mais de acordo com, por exemplo, a versão oficial do Museu do Holocausto nos Estados Unidos da América).

Daí surge também a versão similar de Bertolt Brecht, o que tem levado a alguma confusão por “citadores” de todo o mundo. Na que parece ser a mais tradicional das versões atribuídas ao poeta da revolução, lê-se:

Primeiro levaram os negros
Mas não me importei com isso
Eu não era negro

Em seguida levaram alguns operários
Mas não me importei com isso
Eu também não era operário

Depois prenderam os miseráveis
Mas não me importei com isso
Porque eu não sou miserável

Depois agarraram uns desempregados
Mas como tenho meu emprego
Também não me importei

Agora estão me levando
Mas já é tarde.
Como eu não me importei com ninguém
Ninguém se importa comigo.

Como exemplo-mor do vigor destas palavras, e mesmo sujeito a milhares de partilhas e desconfigurações, raras são as vezes em que o poema aparece desprovido da sua interpretação original: que o silêncio é cúmplice do autoritarismo; que o status quo deve ser questionado; que os gritos vizinhos poderão ser os nossos. Antes tem-se adaptado, ocupando o seu lugar na atualidade.

De facto, esta é uma temática comum nas palavras de Niemöller, mas também no segundo poema que mencionei no início deste texto, cuja origem está envolta numa confusão exacerbada: dezenas de escritores de fama irrefutável já viram o seu nome inscrito sob incontáveis citações do poema, casos de Gabriel García Marquez, Jorge Luis Borges ou Carl Gustav Jung. Ainda assim, atrevo-me a dizer que nove em dez vezes que encontro os próximos versos que transcrevo, é o nome de Wladimir Maiakovski, poeta russo (1893-1930), que os ladeia.

Tu sabes,
conheces melhor do que eu
a velha história.
Na primeira noite eles se aproximam
e roubam uma flor
do nosso jardim.
E não dizemos nada.
Na segunda noite, já não se escondem:
pisam as flores,
matam nosso cão,
e não dizemos nada.
Até que um dia,
o mais frágil deles
entra sozinho em nossa casa,
rouba-nos a luz, e,
conhecendo nosso medo,
arranca-nos a voz da garganta.
E já não podemos dizer nada.

Estes versos, tantas vezes isolados, são parte de um conjunto maior (transcrito no final do artigo), o poema “No Caminho, com Maiakovski”, escrito na década de 60 por Eduardo Alves da Costa, recatado poeta brasileiro de 84 anos, para o livro homónimo. É fácil – talvez nem tanto – compreender onde se deu a confusão, dado que quer no título quer no poema aparece o nome do poeta russo. Mas se “No Caminho” remete para os emblemáticos versos de Drummond, “com Maiakovski” a literalidade ganhou. O erro, que aparentemente começou na epígrafe de um dos livros de Roberto Freire (que cita Eduardo como tradutor), foi ignorado por milhares de estudantes que tomaram os tais versos para si e para os seus cartazes de luta contra a ditadura militar ou pelo movimento Diretas Já, antes de ingressar em múltiplas aventuras erráticas por todo o mundo, com a sua associação a Maiakovski quase sempre sem contraditório. E assim ficou, quando viralizou na passada década de 90, iludindo meios de comunicação, editoras, televisões, para espanto do próprio autor, que editou, posteriormente, toda a sua obra num livro com o mesmo nome (após uma polémica televisiva, em 2003, que repôs um momento de justiça, com um diálogo na novela Mulheres Apaixonadas a incendiar as indignações de todos os que desconheciam a verdade). A história turbulenta da obra pode ser lida aqui, no site da editora, que a retrata como uma maldição – e, na verdade, ainda hoje temos notícias várias, de personalidades diversas e meios distintos, utilizando as palavras, quer de Niemöller, quer de Eduardo, e mencionando quase sempre e nomeadamente, Brecht e Maiakovski.

Uma situação que tem dado momentos tão divertidos quanto exasperantes; e que em pouco difere dos apócrifos da literatura lusa. Não esquecer que a frase “Pedras no caminho? Guardo todas, um dia vou construir um castelo”, entre tantas outras, ainda é indevidamente atribuída a Fernando Pessoa, que nunca a escreveu (foi, sim, o autor brasileiro Nemo Nox), tal como Orwell nunca disse a célebre frase sobre o jornalismo e a publicidade, nem Maria Antonieta disse ao povo para comer brioche.

É hábito comum a desinformação. Sempre o foi. A arte da citação já encheu algumas colunas de jornal, mesmo que o próprio jornalismo publique tantas vezes sem certezas; se as fake news são “novidade”, as frases-boato sempre existiram e vão continuar. Por vezes, vão perdurar e, como se inscritas na pedra, dá-se como História a sua realidade. 

Estes dois poemas talvez sejam dos exemplos mais fulgurantes do desfecho inevitável de uma má citação, muito também pela maleabilidade com que nos são entregues, espalhadas em redes sociais e plataformas online. A aparente dificuldade da questão autoral, nomeadamente no que foge à contemporaniedade, também viabiliza a constante partilha, sendo muitas vezes impossível creditar determinados autores. A questão autoral, que, recordo, é uma questão relativamente recente, tem-nos apresentado as suas vantagens e desvantagens. O poema de Niemöller terá só um autor, ou cada um, à sua maneira, o reescreveu, qual barco de Tesseu? O Intertexto de Brecht é mesmo de Brecht? Ou terá surgido como chuva miúda, gota a gota, pela mão de quem que ouve um conto e acrescenta um ponto? A literatura iniciou como um jogo de telefone estragado, sussurrando ao próximo as palavras, vítima da oralidade. A Ilíada era cantada e memorizada muito antes de Homero (se é que existiu) a compilar em poema. E Eduardo, poeta amaldiçoado, cujos versos céleres se encontram na sombra de Bertolt, Marquez, Borges e Maiakovski?

Uma questão para um outro texto, que me alongo. E remeto-me assim, ao silêncio. Mas nunca ao silêncio ininterrupto, esse que mencionaram Niemöller, Brecht e Eduardo Alves da Costa, esse silêncio cúmplice que antecipa e sucede aos tiros, à censura, ao fascismo. Porque – com toda a certeza – é muito menos importante discutir os autores do protesto que, efetivamente, protestar.

no caminho, com maiakovski

EDUARDO ALVES DA COSTA

Assim como a criança
humildemente afaga
a imagem do herói,
assim me aproximo de ti, Maiakóvski.
Não importa o que me possa acontecer
por andar ombro a ombro
com um poeta soviético.
Lendo teus versos,
aprendi a ter coragem.

Tu sabes,
conheces melhor do que eu
a velha história.
Na primeira noite eles se aproximam
e roubam uma flor
do nosso jardim.
E não dizemos nada.
Na segunda noite, já não se escondem:
pisam as flores,
matam nosso cão,
e não dizemos nada.
Até que um dia,
o mais frágil deles
entra sozinho em nossa casa,
rouba-nos a luz e,
conhecendo nosso medo,
arranca-nos a voz da garganta.
E já não podemos dizer nada.

Nos dias que correm
a ninguém é dado
repousar a cabeça
alheia ao terror.
Os humildes baixam a cerviz:
e nós, que não temos pacto algum
com os senhores do mundo,
por temor nos calamos.
No silêncio de meu quarto
a ousadia me afogueia as faces
e eu fantasio um levante;
mas amanhã,
diante do juiz,
talvez meus lábios
calem a verdade
como um foco de germes
capaz de me destruir.

Olho ao redor
e o que vejo
e acabo por repetir
são mentiras.
Mal sabe a criança dizer mãe
e a propaganda lhe destrói a consciência.
A mim, quase me arrastam
pela gola do paletó
à porta do templo
e me pedem que aguarde
até que a Democracia
se digne aparecer no balcão.
Mas eu sei,
porque não estou amedrontado
a ponto de cegar, que ela tem uma espada
a lhe espetar as costelas
e o riso que nos mostra
é uma tênue cortina
lançada sobre os arsenais.

Vamos ao campo
e não os vemos ao nosso lado,
no plantio.
Mas no tempo da colheita
lá estão
e acabam por nos roubar
até o último grão de trigo.
Dizem-nos que de nós emana o poder
mas sempre o temos contra nós.
Dizem-nos que é preciso
defender nossos lares,
mas se nos rebelamos contra a opressão
é sobre nós que marcham os soldados.

E por temor eu me calo.
Por temor, aceito a condição
de falso democrata
e rotulo meus gestos
com a palavra liberdade,
procurando, num sorriso,
esconder minha dor
diante de meus superiores.
Mas dentro de mim,
com a potência de um milhão de vozes,
o coração grita – MENTIRA!

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Bruno Fidalgo de Sousa

Bruno Fidalgo de Sousa

Depois da dança, o lobo avança, encontra a curva.

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