POESIA

NÃO TE DÊS AO TRABALHO DE FOTOGRAFAR MEIA RUA

não te pedi para guardares a minha imagem. tanto
que não a quis sequer lembrar no espelho e
afastei-me do mar e do reflexo dos vidros.
deixei de conduzir e
esforcei-me para me afastar das montras onde
televisões não estariam ligadas
24 sobre 7
e o material refletor me revelasse ainda eu.

pedi-te, isso sim, que queimasses todas as fotografias de
nós – ou pelo menos de mim, queima-as ao sol
depois de tiradas, que não as quero.

a imagética de um poema não se deve definir pela
moldura. ainda não aprendeste que
é disso que
tenho medo?

ver-me ainda como fui.

apaga a minha fotografia. não a quero. e, por favor,
não photoshopes um poema cru.

sempre foi assim, tanto na poesia,
como na arte de desenhar com luz pessoas que não queremos ser.

*poema inédito do livro CURVA, de Bruno Fidalgo de Sousa, que será publicado, em Portugal e no Brasil, pela editora Urutau [editoraurutau.com.br]

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Bruno Fidalgo de Sousa

Bruno Fidalgo de Sousa

Depois da dança, o lobo avança, encontra a curva.

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