MIGUEL TORGA

O nome Miguel Torga não é passível de irreconhecimento. Nascido em Vila Real Adolfo Correia da Rocha, só ao terceiro romance, A Terceira Voz, adotou o pseudónimo literário pelo qual hoje o conhecemos, em homenagem a Cervantes, Unamuno e à flor da montanha. Um dos mais influentes autores portugueses do último século, “pai” dos seus sempiternos Bichos, Contos da Montanha ou O Senhor Ventura, um recatado homem das serras e do trabalho formado em medicina – estudos pagos pelo tio em recompensa de cinco anos de trabalho no Brasil -, cujo espólio literário conta mais de cinquenta livros publicados, dezenas de revistas assinadas com os seus poemas, nomeações a Prémios Nobel e a conquista do primeiro Prémio Camões em 89, fruto, muito mais que recompensa, de uma obra vincadamente humanista – para ele, é a Humanidade que se deve exaltar, “hinos aos deuses, não” – e fortemente marcada pela liberdade, pela morte, pela assertividade, leveza e peso em simultâneo. Miguel Torga deixou-nos há precisamente 25 anos.

MISERE NOBIS

A esta mesma hora,
Quantos poetas, como eu, à espera!…
Passou o inverno, veio a primavera,
Deitou-se a noite, ergueu-se a madrugada,
E a voz
de todos nós
Cativa na garganta estrangulada!

Nenhum sinal no céu de próximo milagre;
Os adivinhos mal nos adivinham;
E os restantes humanos,
Há infinitos anos
Que apenas tecem
A teia da rotina,
Como o instinto os ensina.

E resta-nos a força
Que empurra os cegos contra a claridade.
Ter confiança é deslaçar metade
Do nó do tempo que o destino aperta.
Suprema descoberta
Doutros que no passado não desesperaram,
E foram premiados, e cantaram.

Mas pesa como um luto
Este silêncio hostil.
E fere como a raiva dum cilício
A certeza da morte
Colada ao corpo.
Que desgraça
Desconhecida,
Se a mudez ultrapassa
A nossa vida!

Orfeu Rebelde, 1958

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