CLUBE DOS POETAS MORTOS

joão cabral de melo e neto

Na efeméride de hoje, celebram-se os vinte anos da morte de João Cabral de Melo e Neto, o primeiro poeta brasileiro a receber o Prémio Camões, reconhecido como um dos poetas da Geração de 45, navegante do modernismo brasileiro. Os seus versos destacam-se pela estética peculiar, pela desnutrição sentimental, pela fuga ao lirismo do século XX. O seu primeiro livro foi “Pedra do Sono”, mas os críticos apontam “Morte e Vida Severina” como o ex-libris do poeta e diplomata que traduziu a dualidade, o surrealismo, a sílaba pela sílaba na sua extensa obra. Faleceu em 1999.

FÁBULa DE UM ARQUITETO

A arquitetura como construir portas,
de abrir; ou como construir o aberto;
construir, não como ilhar e prender,
nem construir como fechar secretos;
construir portas abertas, em portas;
casas exclusivamente portas e teto.
O arquiteto: o que abre para o homem
(tudo se sanearia desde casas abertas)
portas por-onde, jamais portas-contra;
por onde, livres: ar luz razão certa.

Até que, tantos livres o amedrontando, 
renegou dar a viver no claro e aberto.
Onde vãos de abrir, ele foi amurando
opacos de fechar; onde vidro, concreto;
até refechar o homem: na capela útero,
com confortos de matriz, outra vez feto.

Da obra “A educação pela pedra”, (1966)

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Uma revista digital de publicação literária e divulgação artística.

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