IV
LXVI a Bela aos oitenta

vazio olhar no espelho do hall
rugas minhas; lá fora primavera
na cozinha as luzes que a Bela
pintava quando nova sonhava;
quando nova ainda sonhava com
sonhos desconcretizados
vazio olhar o meu desde os trinta
presságio bom em número para morrer
porém vivi; morto vivo por aqui
com memórias nunca minhas
nostalgias de coisas cruas
de coisas inacabadas
de histórias por escrever
histórias jamais escritas
coisas que nunca chegaram a acontecer
e vivo entre um espelho e outro
o do hall e o da Bela que já não me vê
da Bela que nunca pintou
como sonhou
em nova
pintar

Girl before a mirror, Pablo Picasso
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Rui Sobral

Rui Sobral

Escritor que lê, escreve e medita. E repete todos os dias, não necessariamente na mesma ordem.

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