Fotografia de Fabian Fauth

IRÁS SEMPRE CRUZAR A MESMA RUA

TIAGO MARCOS

Irás sempre cruzar a mesma rua
No caminho que é pensar
E terás os pés doídos pelas pedras
Mas não pares.
Sei, só no espaço guardado para a esperança,
Que uma manhã nova virá
E todo o pó que o caminho tem
Será soprado por um vento novo
Um vento ainda por inventar
E ai depois do caminho andado
Poderás correr
Haverá ainda ferros e facas
E medos e escuro e males e fel
E línguas e álcool e feridas
E cansaço e trapos e velas
E rezas e mentiras
E santos e guerras
Haverá ainda geada dentro dos corpos mais lentos
E sangue nalgumas esquinas
Haverá ainda olhos tristes
O pavor à morte
E abandono.
Não irás no teu caminho curar nada
E o mundo seguirá cruel e frio
Não deixarás depois de ti caminho feito
E poucos te sentirão o rasto
Ainda assim, não pares
Não pares nunca…
Tens a noite e a loucura
Tens a música que te empurra
E as palavras.
E se não tiveres futuro
Também não terás culpa
Desde que não pares…
O caminho que é pensar
Já te matou o que foste
Já te matou os deuses
Já te fez morder os lábios
Quando disseste de mais ou de menos
Já te fez ir até à carne viva da verdade
Para voltares para trás
Com a boca cheia de sangue
E os olhos feitos de água
Só para dares mais um passo em frente
Depois, aprendeste a fingir como quem aprende a pintar
E tem talento para isso.
E agora corres no caminho que é pensar
Com um pé em cada extremo da estrada
Para que possas ir a direito
Tudo o que foste persegue-te
Olhas para trás às vezes para saber o que és…
E quase, quase tocas o sonho
Mas com os dedos mais curtos que a vontade
Sentas-te e escreves.

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Tiago Marcos

Tiago Marcos

Nasceu em 1987 e a data da morte ainda está por apurar

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