crítica

INDULGÊNCIA PLENÁRIA

ALBERTO PIMENTA, EDIÇÃO LÍNGUA MORTA [2018]

Quando a poesia encontra a realidade e, irreparavelmente, a funde nessa sublimação natural das palavras, as histórias que se diziam factos reforçam-se, dilatam-se. A literatura é exímia no relato narrativo; a poesia é perita na desconstrução (e construção, que a arte tem por hábito ser uma faca de dois gumes) dessas paisagens vulgares, que vulgar é o mundo – principalmente este que traça Alberto Pimenta no seu Indulgência Plenária, livro de um só poema, poema de uma só história, o caso trágico e pérfido que, em 2006, atormentou Portugal e as ruas do Porto: o homicídio de Gisberta Salce Júnior. A transfobia, a humilhação, a tortura a que a brasileira de 45 anos foi sujeita, durante três dias, à mão de um grupo de jovens (alguns sobre a alçada da instituição católica Oficinas de São José), motivou o poeta à escrita deste requiem, como o próprio denomina, onde um urinol e a respetiva Mosca, “pura invenção desse Génio holandês”, introduzem os detalhes imaginados nesta imaginada composição de dor e humanidade. É uma elegia interventiva a “uma vítima talvez da violência urbana/ É preciso denunciar isto”, vítima não da sua própria condição, mas da condição que lhe impuseram. Gisberta faleceu afogada, depois de ter sido espancada e abusada cruelmente. Alberta Pimenta, contudo, não intenta relatar a tragédia, mas refletir nela e na figura de Gisberta, transexual, imigrante ilegal, sem-abrigo, seropositiva, a ainda-persistente discriminação do “Estranho” – repudiando o fascismo e o catolicismo, servindo-se de uma analogia com Otelo e a Canção do Salgueiro – que, em italiano, se escreve Salce. Este pequeno livro é um memorando da história, ficção real, tão próxima dos factos quanto os sustenidos pontos acrescentados a cada conto. A intemporalidade da poesia de Alberto Pimenta transcreve-se nas memórias que lhe vincula – e como exemplo de humanidade, nos versos carregados com que relata a reminiscência de  “Tanto esforço perdido Gisberta Salce/ até para os que te mataram/ que nem conseguiram tirar o proveito monumental/ que procuravam/ Servir-se de ti para perder o medo/ sentir-se Pessoas livres/ como tu// Ergueram de facto um monumento a si mesmos/ talvez enlouqueçam lá dentro/ quando lembrarem as tuas últimas palavras/(…)”. A liberdade de Gisberta Salce foi questionada. Durante três dias, demonizada. E, por fim, concedida lhe foi uma indulgência plenária aos “pecados” que a deixaram morrer, ser livre, tanto quanto aos “pecados” que a impediram de viver. São obras como esta sinfonia empática de Alberto Pimenta que ainda denunciam as trevas do vulgar mundo onde tais histórias persistem fora dos versos. São trovas como estas uma necessidade à preservação da História escrita por quem não vence.

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Bruno Fidalgo de Sousa

Bruno Fidalgo de Sousa

Depois da dança, o lobo avança, encontra a curva.

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