império noturno

Podemos encontrar a história do Jaime entalada entre a sua particularidade e a tipicidade da experiência coimbrã. Um olhar mais atento talvez se atreva a perguntar se existe outra forma de ser. Mas ele não pergunta, encontra na cidade todas as suas singularidades ao mesmo tempo que, com ela, lima as suas arestas mais ásperas. Por agora são seis e vinte da manhã e o sol mostra-se ao fundo da avenida. A calçada molhada da chuva miúda, típica da alvorada, refletia a luz que teima em aparecer. O Jaime, que por agora tinha desistido da noite, cambaleava até casa. Escorregava a cada terceiro passo, e a vontade de fechar os olhos aumentava com cada escorregadela. A noite longa já não importa, a rua é um obstáculo. As pedras do passeio multiplicam-se diante dos seus pés, mas ele há de lá chegar. Ao quarto, subir a escada, abrir a porta, entrar, beber água e cair perdido na cama. Tudo isto vai ser uma memória, e ele vai rir-se da figura que faz enquanto desce a rua. Amanhã os olhares dos que com ele se cruzam já não vão importar. Com isso mesmo em mente adormece, sem fim previsto. O sono toma lugar, sem sonho, ponto final parágrafo. Quando acordou não se lembrava de passar a porta para dentro. Correu a memória à procura de um fio condutor que lhe desse alguma pista. Não encontrou nenhum, sentia um sabor ácido na língua, mas não se lembra de vomitar. A cabeça estava dorida, mas não se lembra de bater com ela em lado nenhum.

Quando se é jovem e o desejo de se misturar e estar presente comanda todos os movimentos e arde com cada um, tudo serve de desculpa para estar e ser o que cada jovem quer. Fala-se com pessoas que nada têm para dizer e dizem-se coisas que não queremos dizer. Procuramos por nós em toda a esquina, bebemos porque é fácil, muito porque ajuda. O medo de não estar presente carrega-nos para todo o lado. E sem nunca ser, não compreendemos que não somos, simplesmente, ainda. Nasceu algures esta sombra que cria necessidade de construir lembrança. Somos a procura andante dessa juventude fugaz que nunca se materializa, nunca culmina. Mas a sombra é densa, e qualquer jovem ressacado se realiza na memória. A realização é plástica, o menos sensato consegue ver. Mas a virtude e o vício são repetição, e bem reais. A história que contam no fim tem de ser o que fica. Mesmo que voe com a mais pequena brisa.

Horas antes do Jaime se eclipsar no seu quarto cruzou-se, sem nunca se ter apercebido, com Carlos. Estudante, mas com lutas distintas daquelas que estão à vista numa quinta académica como esta. Fazia seis dias que não pousava um pé fora de casa. Vivia na parte velha da cidade, e mesmo dentro da própria casa, passava o tempo no quarto. Nessa noite saiu contragosto, levado de arrastão por alguém que se preocupa. O tempo finta-o entre a conversa, só o peso dos copos dá sinais de mudança. Neste êxtase monótono está ele nu.

O riso, a amizade e o desejo são ventos, a cerveja o catalisador, o tempo não para e o fumo envolve. É mais que a conversa e menos que o silêncio. É mais que um grupo, mas fraco perante a paixão fugaz que o atormenta a toda a esquina. Dorme acordado depois do barulho, e no barulho deseja o sono que oferece paz. Na noite que enfrenta procura a semelhança para dela resgatar a diferença. Os outros felizes e idênticos parecem estranhos unidos por aquilo que o separa. São três da manhã e sente-se aborrecido. Fura a multidão e perfila-se ao balcão enquanto espera a sua vez. À sua esquerda está Jaime, com um sorriso rasgado, a gritar aos ouvidos de alguém. O Carlos não entende, julga que tem de haver uma fonte, um comprimido ou um segredo que ninguém lhe quer contar. Não muito depois foi até casa, atormentado pelo sorriso do Jaime.

No dia seguinte, pouco depois das duas da tarde, veio à varanda. Fumar um cigarro e decidir sobre qualquer coisa. Enquanto ele olhava para a cidade dos estudantes via que nem tudo era mau, na casa em frente uma rapariga que não tinha mais de vinte anos varria a varanda. Lembrou-o da mãe dele e teve saudades de casa, a beleza da rapariga era o cinzento nesta cidade preta e branca. A rapariga que varria a varanda nunca mais abandonou o Carlos. Aquela presença familiar afogou-o. Passado uns dias estava de volta à serra, congelou a matrícula e recompôs-se escondido em casa dos pais. Arranjou um trabalho com o tio e Coimbra não está nos planos por enquanto.

O verão aproximou-se lentamente, aquela noite estava esquecida, porque agora era hora de ir trabalhar. Alvorada acaba de chegar e o telemóvel na cabeceira vibra silencioso, fazendo tremer a parede e o pó das estantes ganhar vida. A cabeça pesada não quer acreditar no que está a acontecer e finge que a noite ainda dura, durante largos segundos. Mas o corpo treinado e bem domesticado alcança o epicentro deste contratempo rotineiro. E põe fim a toda esta maldade que é acordar cedo. Nem sempre o corpo é forte o suficiente, a rotina apesar de bem entranhada tem tendência a ser facilmente contrariada. A decisão acertada
seria levantar-se e enfrentar aquilo que só ele pode enfrentar. Mas o corpo não decide por si e invés de clicar no botão esquerdo clica no direito, todo este sofrimento é adiado por mais dez minutos. Já de pé, agora em contrarrelógio, calça-se enquanto bebe um copo de leite de uma só vez. Lá fora a buzina da carrinha de caixa aberta lembra-o da decisão errada. Mas o estrago não foi grande, o atraso foi mínimo.

Cá fora a neblina cinzenta brilhante rodeava as casas, as árvores, o carro e todo o ar diante dos seus olhos. Estava o típico frio de uma manhã de verão, não ia durar muito, até porque o sol já se tinha feito sentir entre as nuvens que descansavam ao longe por cima da serra. Certo frio até tem um cheiro, leve, fresco e contagiante. Dentro da carrinha esse contágio era evidente, a leveza da atmosfera era palpável desde o momento em que o Carlos abria a porta do pendura. O cumprimento que trocavam rasgava o cansaço, era trabalho mútuo, de equipa. Com o tio as coisas andavam sempre rápido, desde o momento em que se sentava sentia que tinha entrado numa corrente, num movimento constante que se estendia aos mais pequenos pormenores. No momento em que o pé descolava do chão, já a carrinha tinha andado três metros, sem dar conta estavam os dois de cigarro acesso. A puxar, travar, abrir as janelas, mudar a estação do rádio, contar o porquê de estar atrasado, por cinza no cinzeiro, deixar cair cinza nos calções, sacudir, ouvir o que há para fazer hoje, onde temos que parar antes de chegar, queixar-se da ressaca, mandar mensagem a alguém porque é preciso, alguém ligou a alguém e é preciso dar recado, o cão ladra no banco de trás, puxar, travar, deitar fora, apagar no cinzeiro da carrinha.

Assim foram as manhãs do verão de Carlos, depois o trabalho era duro. Ele gostava muito do tio, mas isso não era suficiente. Em setembro contava estar de volta. Estudar e procurar nos dias o fascínio dos sobressaltos emocionais. E quando voltou, plantou-se à varanda, para ver do outro lado a rapariga que varria. Mas ela nunca apareceu. Chamava-se Joana, também se lembra de ver o Carlos a fumar à varanda. Uma vez disse ao João que achava que o Carlos estava a olhar para o seu corpo. Para eles, ele era o pervertido que vivia no prédio da frente. Nunca pensaram duas vezes sobre a questão.

O João e a Joana só se conhecem um ao outro, passaram todas as metamorfoses que o mundo lhes exigiu de mão dada. A história que gostam de contar a quem quer ser entretido pela sua peculiaridade, reza que começou de forma descontraída como qualquer relação que se tem aos quinze. Ambos sabem que o dizem para serem compreendidos. O amor que os
empurrou para este vale é o mesmo agora que no nono ano. Anos depois entre livros, filmes e morangos com açúcar ganharam vocabulário que os permite pertencer à narrativa. Mas quando ele a beijou pela primeira vez atrás do pavilhão da escola, já não queria largar. Quando os joelhos dela fraquejaram a primeira vez que ele lhe confessou amor e esvaziou a alma à beira rio num verão depois das aulas, ela estava pronta para ir viver com ele. Ou fugir e ouvi-lo dizer que a ama todas as noites ao deitar.

Ao longo dos anos as discussões foram inevitáveis, mas mesmo de todas as vezes em que partiram para a violência, as dúvidas ou até a vontade de seguir em frente vinham de fora. Nas suas horas mais sombrias a Joana pensava que estava encurralada, que se fechou sobre o João. Tinha medo de estar a ser enganada pelo hábito. O João com o passar dos anos, aterrorizado pela madrugada, sonhava acordado com o que estava a perder. Às vezes apetecia-lhe o deboche que prometem aos jovens de dezoito anos. Mas foi sempre o outro que fez com que esses momentos morressem à nascença. A Joana começou desde cedo a confundir o amor pelo João, com o amor da história da sua relação. Encontrou conforto na diferença do seu passado. O João é a promessa de uma verdadeira história de amor e intimidade, e é uma sorte pertencer a este enredo.

O declive que os colocou em rota de colisão, para o bem e para o mal, quando decidiram ir viver juntos na universidade e escolher o mesmo sítio para estudar apareceu com a mesma força quando, com dezassete anos, descobriram os corpos um do outro no chão de uma sala qualquer de um amigo qualquer. Ou até quando o João mandou a primeira mensagem à Joana num daqueles telemóveis em que as teclas faziam barulho. Sempre assim, juntos inevitavelmente, nunca nos seus momentos de lucidez lhes pareceu possível ser de outra forma.

Hoje veem a cidade ao longe combalidos pelo conforto do outro, a alvorada é apenas um sonho. Descem à praça e procuram surpresa, mas o chão nunca lhes foge. Envolvidos numa calma arrebatadora brincam com a cidade, vão rir onde sabem que se ri e conversar com quem tem boa conversa para lhes dar. Falam dela como se ela falasse com eles, mas sem autoridade, sabem que ela não pertence a ninguém. Quem diz o contrário nunca ouviu as conversas dos outros nos cafés.

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