Douro Vinhateiro, Leonardo Bizcaya

HÁ COPOS QUE NÃO SE LAVAM

“Não há copos lavados e eu tenho sede. Lá vou eu ter de ir ao rio. Esta secura não se aguenta… Mal me levantei, e o dia já vai torto. Sorte a minha serem só três copos. Esta merda até cola.”

E lá foi ele.

O casebre dele ficava no topo de um monte. Não tinha porta, mas também mais ninguém lá entrava. Rodeava-se de vinhas alheias, porém nem por isso estranhas, e mais nada. O rio corria bem lá em baixo, agora cada vez mais perto, porque levar três copos ao banho não é complicado para ele.

A roupa dele era sempre, sempre a mesma: a camisa não se apertava até ao fim, nem em cima nem em baixo; o seu cabelo era regrado pelo vento e pela maneira como tinha dormido; as calças caminhavam rasgadas e já não se podia confiar naqueles bolsos; os sapatos sobreviveram a uma passagem de geração, mas não mais do que isso.

Antes de começar a lavar os tais copos, mergulhou a sua cabeça no rio. O fôlego já era, mas ele ainda aguentou algum tempo de molho. Depois, com gotículas de água escorrendo pela sua face e a evaporar pelo caminho imposto pela gravidade, levou à água que corria fresca um copo de cada vez, passando no interior dos mesmos os seus dedos enrugados pela vida até os deixar limpos. Recordava-se de levar, com o pai, o pequeno bote da família àquelas águas. (Bem, aquelas não seriam ao certo; a umas parecidas!) Ali fizera-se mestre de navegações em água doce. Então, ele subia e descia o rio várias vezes ao dia, era tanta a falta de afazeres, e o pai sempre aguardava o regresso do filho como se dali nunca tivesse partido.

Agora, reinava ali solidão tal que até ao longe se ouviria o telintar dos copos uns contra os outros na sua mão, se pelo menos alguém lá estivesse.

Subia a colina pela vinha, pelo caminho que a repetição de itinerário deixou cavado na terra batida. Em casa não se ouvia zumbido.

“Deixa lá; eu também tenho fome. A ver se daqui a nada saco ali umas uvitas. Eu sei, eu sei… não gostas muito. Mas podes comer das minhas, se quiseres.”

Ele já não sabia que dia era. Porém, lia o sol como se de um relógio se tratasse. Desta maneira sabia sempre quando os vizinhos saíam das quintas, regressando às moradas efetivas, lá na cidade, para poder passar as suas mãos ao de leve nas videiras alheias. Por vezes, a fruta sumarenta pendia envolvida em adubo, pois “a época” ainda não chegara, mas a fome não escolhe dias e ele até estava habituado ao veneno.

As paredes de casa só suavam, tanto era o calor, e o odor que emanavam confundia-se com o das garrafas vazias. Ao olhar pela única janela ali existente, via outros montes como o dele, ainda que através de uma imagem tremida pelas altas temperaturas e por um fígado avariado. Ao contrário de no dele, nesses montes trabalhavam alguns vindimadeiros, preparando a época que batia à porta. E assim ele recordava novamente o pai.

Por outro lado, à porta dele nada tocava. Não havia porta, é verdade, mas a não chegada de entretém devia-se a uma vida levada de mãos dadas à solidão.

Um rato cruzava o parapeito da dita janela, faminto.

Ele encheu um dos copos na medida certa, e lá começou a beber, fitando o bicho. Uma criança diria que o conteúdo já devorado se tratava de água, mas provado o néctar não seria boa a reação. Para ele, tudo era mais fácil de adivinhar do que para a tal criança, embora fosse ainda mais fácil ser essa criança.

“Se não dissermos que gostamos dos outros, mentimos. Quando os outros morrem, todos os amam. Mas não se pode amar em vida. Pelo menos falando… Não é, pai?”

Bebia por medo da noite e do escuro dela, que tomava conta de tudo e levava todos dali para fora. Mesmo distantes, os vizinhos eram a única companhia que ele tinha. Idos, levavam as preocupações deles, deixando as suas a sós. E todos sabemos que uma preocupação não pode andar de forma ímpar; ela tem de andar de par em par, como as janelas abertas do lindo castelo com que sempre sonhara:

“Este é o meu castelo. Pois é. Todo meu. Meu e teu, minha querida. E tem duas janelas: uma para ti, e outra para mim. Pode ser que assim me comeces a ouvir… através dela. Pode ser que assim comeces a olhar para mim quando falo contigo.”

Entretanto, o pequeno rato assustara-se com o tom de voz dele e fugira pela janela. A solidão era maior a cada momento, e já nem a própria sombra ele reconhecia.

A tarde caíra e ele saiu de casa.

Chegado ao fundo do monte, seguiu pela ponte. Debruçou-se, olhou o rio, que corria e corria e corria numa imagem muito turva, e viu-se em criança no pequeno bote da família a chamar-se a si mesmo. Sentiu o que o seu pai sentia, embora sem essa noção. Por fim, virou a sua face e regressou à margem. Preparava-se para ir dormir, mas não sem antes passar pelo rio. Até porque havia três copos por lavar.

2019

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Miguel Mesquita Montes

Miguel Mesquita Montes

Cinéfilo, com uma enorme curiosidade pelas diferentes caixas de chocolate

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