FLORBELA ESPANCA

Nasce Flor Bela, mas cedo começa a utilizar pseudónimos para os seus textos: dos contos ao diário, passando pelas traduções, a obra de Florbela Espanca é tão completa quanto podia ser, embora seja na poesia – e principalmente nos sonetos – que se destacou, imprimindo nos versos a atribulação da sua própria vida. Da frustração feminina perante a opressão patriarcal às problemáticas da sua condição, toca na morte, no isolamento, no  desejo ou na saudade. Um aborto involuntario, a morte da mãe e do irmão e a sua própria doença catalisaram um fim anunciado: depois de duas tentativas infundadas, a poetisa suicida-se, aos 36 anos de idade, no dia do seu aniversário. Recorde-se os 90 anos da sua morte com o soneto “Lágrimas ocultas”:

LÁGRIMAS OCULTAS

Se me ponho a cismar em outras eras
Em que ri e cantei, em que era querida,
Parece-me que foi noutras esferas,
Parece-me que foi numa outra vida…

E a minha triste boca dolorida,
Que dantes tinha o rir das Primaveras,
Esbate as linhas graves e severas
E cai num abandono de esquecida!

E fico, pensativa, olhando o vago…
Toma a brandura plácida dum lago
O meu rosto de monja de marfim…

E as lágrimas que choro, branca e calma,
Ninguém as vê brotar dentro da alma!
Ninguém as vê cair dentro de mim!

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DILÚVIO

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Uma revista digital de publicação literária e divulgação artística.

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