prosa - conto

eucaliptos

ao longe os eucaliptos. recordo-me dos eucaliptos pelo cheiro que se fazia sentir à entrada do cemitério. uma velha aqui outra acolá, poucas pessoas àquela hora. procuro a minha irmã, sei que está junto ao muro, lá em baixo. ouço as folhas dos eucaliptos a esvoaçar, presas ao seu mundo. sigo o som.

a reta é comprida, parece não conhecer fim: do lado esquerdo terra e mármore e lápides de pedra a camuflar as ossadas de gente que perdeu os filhos, ou os pais, ou que se despediu de ninguém ou dos irmãos como a minha perdeu o seu; e carne a ser ferrada e engolida pelos bichos que ela tanto temia em vida. imagino-lhe a pele do rosto pálido, um qualquer fragmento pequeno a ser puxado pela fome das trevas deste mundo animal.

a reta é comprida, parece não conhecer fim: o vento areja as flores secas junto às campas, fotografias de quem padeceu o bem da vida. preto e branco, preto e branco por todo o lado. eu no meio, agora no meio da reta ao encontro da minha irmã, da fotografia que a mãe lhe tirou no último outono, levo água numa garrafa em três dedos incertos para lhe encharcar os amores já secos enquanto rezo pais nossos no canto da boca.

ao longe os eucaliptos. recordo-me do cheiro das suas folhas do tempo em que brincávamos lá em baixo com os gatos da avó, no tempo em que depois dela rezar o credo e eu o pai nosso e tu a avé maria nos entregávamos ao ritual do pão na cevada e de o comer à colher de sopa enquanto pedaços de manteiga vindos do fundo daquele mar negro boiavam de barriga para cima, já afogados, mortos diante da nossa fome.

Acrílico e pastel seco em roof mate, Francisco Ferreira
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Rui Sobral

Rui Sobral

Escritor que lê, escreve e medita. E repete todos os dias, não necessariamente na mesma ordem.

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