Night Blooming Cereus, de Ladianne Henderson, 2015

Era uma vez na Terra Uma flor arrancada

[ A Flor do Sonho, alvíssima, divina, 
Miraculosamente abriu em mim ]  
Florbela Espanca 

 

Pingava do céu,
naquele final de tarde.
Apesar disso,
imperou o alcatrão, ao relento.
Auscultadores pousados, microfones desligados;
jingles trocados  pelo assento
da tua mota:

adrenalina que o peito quase arrancou.

Arrancaste.

“Podes dizer adeus à mota, se contares aos pais!”
Uma década depois,
(e porque ‘já somos crescidinhos’  [ somos ? ] )
o ultimato-ameaça já não seria preciso.

No vermelho,
fiel à lei paraste,
pausa na adrenalina
que os olhos me abriu:

Apercebi-me de que não eras tu,
a quem me agarrava quando arrancava,
Mas o meu querido João,
Também irmão.

O sol despedia-se, em tons mornos,
atrás dos ciprestes do cemitério.
Oxalá lá te estendesses:
Mais perto de mim ficarias.

Minto !
Se lá estivesses,
Já nem lá estarias:
autorizo-me somente a crêr que
o que de ti ficou
ficou na massa incorpórea
que ainda nutre a memória.

Prefiro ter-te no sol posto,
pintado em tons mornos,
e não no cemitério frio.
Assim,
despedir-me do sol que se despedia (tu),
seria um bafo quente,
daqueles em que se aquecem as mãos frias.
[Talvez haja frios que aqueçam; neste caso não.]

Não patrocinarei cemitérios,
pois não patrocino guarnições isentas de valor: 
jamais um pedaço de mármore
pelo qual se paga um salário mínimo,
combinará com a imagem de ti;
tão lúcida,
ao contrário do vidro do capacete
baço, por que sobre ele pingava do céu;
ao contrário da lápide fria,
que as mãos nunca foi capaz de aquecer. 

[ Tentem lá, frequentadores de cemitérios,
aquecer as mãos no pôr do sol e na lápide;
comparem; 
e digam-me, depois,
qual o mais próximo do bafo quente:
se a lápide ou o pôr-do-sol. ]

Sobre os deslicenciados pedaços de mármore,
decompunham-se e jaziam flores murchas;
murchas porque sem raízes;
sem raízes porque arrancadas

Da Terra.

Como tu:

Era uma vez na Terra
Uma flor
Precocemente arrancada.

Lembras-me o night blooming cereus,
o mais efémero cacto que conheço:
só depois do anoitecer é que a flor brota
e, antes do amanhecer,
já está murcha, cabisbaixa, 
inclinada para a Terra que a fez nascer
e de onde será arrancada;
reconhecendo ser replementar
o ângulo da sua existência. 

Até ao vermelho,
viajei de olhos fechados,
dormente e dormindo;
dormindo e fantasiando
um cenário sem morte

o que seria (?)                                                                                       

ter-te, ainda e aqui,
percorrendo asfaltos do Norte,
na mota à qual, por fim,
(e sem ultimatos, desta vez)
acabei por dizer adeus.

Não foste tu que na mota arrancaste;
a memória é que te arrancou.
                                                                             
Tal como a breve flor    
que se arranca do aqui e agora
sem saber, porém, 
quando será arrancada.                                                                                                                       

 [ Vivemos convivemos resistimos
sem saber que em tudo um pouco nós morremos. ]
Ruy Belo

Atou-me à música,
um;
atou-me à rádio,
outro.
Há em ambos vocês,
Manos,
a semelhança de me terem atado
a parcelas que me firmam
e firme me tornam:
Incapaz de temer
A flor arrancada sem saber.

-Vamos para onde, afinal, quis saber o João;
-Baixa; a Lwezi espera-nos no Era Uma Vez em Paris, esclareci eu.
-Vamos pelos Aliados ou pela Trindade, perguntou o João.
-Aliados, sugeri eu.
-Aquele tolo está em contra-mão, verificou o João.
-Deixa-o estar, quem não, borrifei-me eu.
-Esquece; vamos pela Trindade, reconsiderou o João.
-Sem problema, adiantei eu. Afinal de contas, o destino assim é:
                        -sempre a mudar de sentido, adulterando a génese de si próprio enquanto conceito;
                        -sempre a cobiçar quem nele não crê
                        Porque nem ele em si crê
                        Nem quer crer que em si não crê
.

Não sabe uma flor quando vai ser arrancada,
tal como nós.

-Até de mota filosofas, exclamou o João.
-Como não, perguntei eu, exclamando também.

 

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Ana Rita Rodrigues

Ana Rita Rodrigues

Algures entre Aljezur e Porto. Algures entre jornalismo, literatura e (para sempre) estudante de jornalismo literário.

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