Crâne de squelette fumant une cigarette, by Vincent Van Gogh, 1888

EIS QUE UM DEUS IRREMEDIÁVEL DESVENDA OS SEUS PLANOS

Eis que um Deus irremediável
desvenda os seus planos
a prova não é um tormento honroso
à escatologia
é uma castanha meia verde enrolada na língua
“Meu Deus”
mas a castanha agora entre o verso dos dentes e a bochecha fala por si própria
duplica a sua verdade e enche a boca
e qual foi o erro de antecipar o Outono
ou se isso merece avaliação posterior ao facto consumado não foi revelado no relatório
médico.

Três cigarros no rasgo do bolso como judeus no armário
enquanto a gestapo – a esposa – circunda em suspeita
e um dos pequenos chora na sua garganta a cada inspiração como gato de rua
mas não és humano
não és
se não adivinhas a falta de diligência num trabalho absurdo
ou julgas que os cães ladram a todos os intrusos
que circundam o quintal
que não há outros a lavrar-te a seara?

Três passos nos três degraus
a bengala a servir o pé
o braço a servir a bengala
assim se faz a justiça dos homens
a Rita do Paúl à porta acena
e de pensar que a minha mãe
Deus a tenha
me queria na namoradeira da Rita do Paúl
o cigarro que veio como amigo da guerra
as costas agora arqueadas ali encostadas sem misericórdia
das frestas do granito
não julgo sábio desperdiçar um dos poucos cumprimentos que me restam
a um amor passado
como quero o cabelo no enterro
se tenho cigarros para ir ao Abílio tratar disso.

A penitência a penitência a cruz da igreja o ato de contrição
o meu querido pai e um golo de vinho azedo por cada azeitona
a borralha nos pés a defraudar as intenções de Dezembro
e ali fino como uma vide eu olhava a janela
descobrindo vultos na esgrima dos ramos
nas convulsões dos seus pequenos dedos
o medo o vento o inimigo
eu já longe da janela de casa entregue aos meus desígnios
e o vento a apagar todos os fósforos
o meu amigo de guerra sem guita

que sarilho foi este em que me meti
a minha Maria viuvada ao menos não precisa de avental preto
não sou o primeiro a morrer-lhe

Adenocarcinoma dos pulmões
pequeno como um xíxaro mas ambicioso
o inimigo deu tréguas e foi a guita de um amigo e um pedaço de bigode
nemesis o vento
a seu tempo ignorará os meus braços
há aqui algo omisso aos castanheiros
algum pacto pagão
alguma castanha pregada à língua
ou será um dióspiro fora do tempo
um figo leitoso
ou verdade de outro caracter?

O Zé encostado à porta da tasca mais cacho que homem
devia beber de graça
segura as paredes com as costas
e se a mulher sonhasse
não vinha destratá-lo de vassoura em riste
o almoço negligenciado a cheirar a bispo
o sangue de Cristo a macular a camisa do Zé outro vinho a manchará mais tarde
quando Zé decidir demitir-se de ser pedra angular
do rasgo do casaco um cigarro para o Zé
que parece precisar de um amigo
e o vermelho
“não deixes a fachada cair”
mas a castanha arranhou a garganta
e as vides da videira do meu pai
a fazer ver que a voz é hoje em dia uma guerra
temo dizer amo-te à Maria
rasgar o odre e perder de vez a minha colheita.

Sobra um cigarro para ir ao Abílio
quero ir bonito como na foto da tropa
em cima da lareira
caso
amanhã o lençol acorde da cor
de maçã madura
e eu não.

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António Fojo

António Fojo

Activista anti social pela alta burguesia e empreendedorismo.

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