Monge Junto ao Mar, Caspar David Friedrich
Diriam uns:
o mar aquieta, o mar conserta, o mar repara.
Diriam outros:
o mar entorpece sentidos, o mar abate-os, o mar traz fastio e dá nascença à melancolia, ainda que nem sempre a melancolia enfastie.
Dir-se-ia:
talvez me situassem a mim algures no meio dessas duas margens.
E, do cimo desta arriba? Reparo:
são nove da manhã e há já quem tenha madrugado para vir percorrer a areia de lés a lés.
Com certeza, alguém da primeira margem, a quem o mar há de aquietar, consertar, reparar.
E, diante de mim, neste cimo de arriba, ainda:
São nove da manhã e há já quem tenha madrugado, leve as mãos aos bolsos, dos bolsos saque a navalha, com a navalha raspe as lapas que o mar colou ao xisto das rochas baixas.
E, ainda, quem tenha vindo içar a cana e enganar com anzol vários sargos, talvez safios, com sorte robalos.
Afinal,
parece que há ainda uma terceira margem:
o mar dá sustento, o mar é ganha-pão, o mar entretém.
O homem da cana tem perícia, sabe de cor a ergonomia da arte de pescar, os gestos da mão e do braço, os equilíbrios, os ritmos, as intensidades,
cada puxar de manivela, cada enrolar e desenrolar de carretel.
Este homem parece não se incomodar com a serenidade e com a demora que por vezes exige a espera do atracar de peixe.
A pesca é bela porque ensina; porque dá conta de uma postura diante da vida:
é preciso tardar. É preciso aguardar. É preciso dar espaço à serenidade.
É uma arte quase pedagógica (!)
Por outro lado, ensina ainda a Pesca:
ténue é a diferença entre a cana de pesca e o corpo de quem a segura:
ambos tão submetidos a um devir
que pode ser de chumbo;
ambos tão frágeis.
Pensar o contrário é ser-se anzol,
é enganar peixe,
é ludibriar o corpo.
O homem sente puxar a linha, atracar o anzol. É sargo (!) Mãos à manivela, ao carrete; o sargo chega ao cimo da arriba, o homem abre-lhe a boca, separa-lhe os dentes, desatraca o isco, dá meio círculo em torno de si e guarda-o na cesta de vime que lhe tinha servido de banco enquanto esperava por peixe.
O homem vê-me e eu vejo-o.
O homem tem os óculos guardados, mas não os coloca.
O homem não coloca os óculos porque sabe que não é com os olhos que se vê o belo.
Na pele deste homem há crostas, feridas estancadas por torniquetes improvisados.
Este homem é arriba xistosa: em ambos, o frágil e prosaico corpo, e nele: a visível obra do mar, a erosão, o sal.
Em direção a mim caminha, desviando os tufos de estevas com os pés para que não lhe atrapalhem o caminhar.
A camisa mal abotoada dá conta dos pelos do peito, e o arregaço das mangas exibe uma tatuagem que os agentes do tempo não apodreceram:
é o nome que a mim me deram
o nome que o homem tem tatuado.
Ainda assim, reparo:
o homem tem os ossos precocemente mortificados, e
há tudo naquele corpo
menos carne.
No lugar desse, o homem é um feixe lívido que radia, incandesce.
O homem está morto.
Está morto neste tempo que foi seu e a que já não pertence.
O homem está morto
e não está.
O homem não está morto no lugar
onde o tempo não existe.
[ As explicações palavrosas amortecem o medo, a iminência do desconhecido, a ameaça eterna e externa ao corpo.
Talvez por isso não me profira este homem uma singular palavra,
e somente me emita a suave e dura melodia
do silêncio.
De um sublime, porque secreto,
silêncio. ]
[ O Homem é surdo.
Dentro de mim, há gritos que ao Homem são inaudíveis, inacessíveis. Como se houvesse na garganta um espaço próprio a esses gritos, que lhes dá nascença, que os segrega, e onde estão destinados a padecer, sem romperem a fronteira, sem chegarem ao exterior, condenados à mudez.
O Homem é surdo,
e daí retribuir-lhe também eu
uma mesma suave e dura melodia
do silêncio –
esse som que custa mais a escutar,
porque sublime, porque secreto. ]
Como qualquer outro lugar sem tempo,
o mar é um lugar onde se nasce onde se cria onde se vive onde se morre
onde se volta.
Em casa desse homem [ nossa casa ], o calendário é feito de um papel que, tal como o devir, há de parecer também ele chumbo,
neste dia que reproduz o dia em que a fragilidade da cana e da linha coagularam com a do seu corpo;
O sopro que inaugurou o som da sua última hora e que arribas afora soa;
ou os sete anos passados sem poder o seu corpo sentir mais sopro algum.
Pessoas enlutadas de preto sorririam como se sorri a tristeza alegre que é lembrar a ausência de um corpo que costumava mover os que ficaram.
Lembrar a ausência do corpo é lembrar a póstuma ausência de uma gravidade que por norma põe os pés no chão;
é lembrar a supressão desse chão ou a distância a que parecia estar um território firme por onde se pudesse prosseguir.
Pessoas de vestes do dia-a-dia, garridas, floreadas, berrantes, não sorriem:
riem;
riem como riem as vestes de cores que têm no corpo e que berram;
Riem como quem ri a alegria triste que é lembrar a presença de uma figura que à sua maneira move os que ficaram. Lembrar a presença da figura é lembrar a contínua presença de uma gravidade, de um chão, de um equilíbrio, de um território firme que custam a encontrar e que,
tal como o Homem que Pesca sabe de cor,
exigem espera, demora, tardamento.
O homem acena como acena quem dificilmente sabe se voltará,
e vai.
Leve e frio
terno e sombrio
próximo, cada vez mais
próximo.
Há quem acredite e diga que há uma figura que tem olhos sem ter corpo, e lhe chame Deus.
Eu prefiro acreditar que há uma figura que não tem corpo mas tem braços,
e é pelo teu nome que lhe chamo:
Mano.
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Ana Rita Rodrigues

Ana Rita Rodrigues

Independentemente da coisa que for, é indubitável que passará pela criação de histórias e recriação de gentes.

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