POESIA

DA BOCA FIZ UMA GAIOLA ABERTA

Da boca fiz uma gaiola aberta,
Tenho-a cheia de pássaros a picar-me por dentro.

A sede das penas a romperem-me a carne,
Cegou-me a inocência cristalizada nos olhos.

Quantos mais pássaros, mais dentes,
Quantos mais dentes, menos pássaros.

E porque lhes mastigo os ossos,
O âmago escorre pelas minhas mãos.

Ou morrem os pássaros ou morro eu,
Que dentro de uma gaiola aberta,
Não existe espaço maior que o breu.

*poema do livro No Avesso das Horas , de Sara Martins, publicado em Portugal pela editora Epopeia Books [epopeia-records.pt], com prefácio de Ana Rita Rodrigues.

Ilustração de Mariana Cordeiro
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Sara Martins

Sara Martins

Designer de profissão, "No Avesso das Horas" é o seu primeiro livro (Epopeia Books)

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