III | XX MÃE SOPA

Madonna and Child with the Milk Soup, Gerard David, 1510 – 1515 POESIA RUI SOBRAL ​ III XX mãe sopa às vezes era a fomehoje ainda a sintomesmo não a tendopercebo agora quequem a fome fizervítimadela para sempre seráescravaservia-me cevadaou pãoou marmeladanão gostava de saladaachava-ademasiado molhadatroncos das árvores na sopahoje eu sei que eram outra […]

UM HOMEM PEQUENO

Sem título, Pedro Santos POESIA UM HOMEM PEQUENO ANTÓNIO FOJO Começámos com o silêncio como intérprete.O delicioso sol amarelo, a noite oponente da cor, a doce brisa que acaricia as flores infantes da Primavera com a sua mão colossal.Depois, uma janela que nega a brisa, dá emprego ao silêncio, jubila as coisas mortas da sala.A […]

II | I CARTAS MINHAS LEVADAS

POESIA RUI SOBRAL III cartas minhas levadas procuro revistas velhaspela rua em frente à minha casanão encontro umanem umamas encontro ventoe imagino-o a levar as revistase os jornaise os panfletose os livros para criançaspequenosvolto para dentrofecho a porta velhada minha varanda antigae sentado no sofáimagino as letras perdidasas páginas ilustradasos papéis esquecidosroubados pelo ventoagora alvo […]

III | XX CARDÍACO DILÚVIO

After the Rain Gloucester, by Paul Cornoyer POESIA RUI SOBRAL IIIXX cardíaco dilúvio desço a ruasozinhoespero-te nuapelo caminho onde tu estás amor?deixei-te nua, sozinhano caminhohá alguns anosfazia noitefazia frio onde tu estás amor?deixei-te nua, sozinha aquele tempero teuaquele tempero que era só teuque me elevava a ser mais euque me eleva a ser mais eu […]

ESTADO DE EMERGÊNCIA

POESIA ESTADO DE EMERGÊNCIA BRUNO FIDALGO DE SOUSA fizeram soar o alarme semencerrar os despejos. pediramcontenção a 4000 pessoas sem condição para isolamento social. a 300 mil recibos verdes sem opção de quarentena fiscal. restam máscaras que caem enquanto sobem os preços, marcas que lucram e os seus negócios ilesos,ácaros que se acumulam, vírus incansáveis […]

I – QUANDO O PORTUGUÊS FOR SILENCIADO

POESIA I ANTÓNIO FOJO Quando o português for silenciado, falaremos uma outra língua.Severa, severa, eternizada em estátua de cera à janela da cultura morta, faz odes à Grande Companhia Oriental.É o grande retorno.O Régio ser republicano é muito Alanis Morisette.Eu já vendi mais livros do que li.Para que quero o Queiroz?Eu vejo o mestre de […]

II | II HIGIENIZAÇÃO DE UM EX-AMANTE

Man Looking in a Mirror, Pablo Picasso (1969) POESIA RUI SOBRAL IIII higienização de um ex-amante pego na escovae começo a lavaros dentesprimeiros os da frenterapidamente de ladomovimentos circularesoutros aleatóriosabstratospara cima para baixoesquerda direitaa água em abundânciao cheiro a lavadoimprimo força à escovaà escova contra as gengivascuspo sanguerenovo a intensidadeo sangue escorre-me boca foranão penso […]

I | XC O CAFÉ ERA COM PÃO

POESIA RUI SOBRAL IXC o café era com pãoum sabor novoa cada pensamento hoje avó, avó, quando posso lancharà primeira não me ouviaà segunda, já vai, já vai café com pãoum sabor novoque não sei mais onde encontrar “Peasant Girl Drinking Her Coffee”, Camille Pisarro, 1881 Share on facebook Share on twitter Share on linkedin […]

III | XIX O COMPRIMIDO DA MANHÃ

Três Músicos, Pablo Picasso POESIA RUI SOBRAL IIIXIX o comprimido da manhãcostas retasombros descontraídosrespiração consciente uma duas três quatrorespirações profundasrecordo-me recordo-me de um filete de sangue nas gengivasmantenho a respiraçãorios nos olhos outra vezruminantes pensamentos agrestes na minha cabeçaleonard cohen e outras poesiasflanders amarante e leonard cohen e outras poesiase o adanowski o filho e […]

NUNCA A BOCA ME SOUBE TANTO A SILÊNCIO

Another Place, Antony Gormley, 1997 POESIA NUNCA A BOCA ME SOUBE TANTO A SILÊNCIO SARA MARTINS Derrama-se pelos olhos a mudez que não se diz. Nunca a boca me soube tanto a silêncio… São as coisas a saberem a coisas no final de tudo. Tudo, não deixa de ser uma só única coisa, Aquilo que […]

III | XX ASTRONAUTA AMOR

POESIA RUI SOBRAL IIIXX astronauta amor foi sempre o amor. é sempre o amor. nada é tão alto como o amor, nada é tão solene, nem severo; nada é tão agramatical, nem fértil nem terreno nem astronauta no espaço;nada é tão sereno ou obsceno como é o amor. foi sempre o amor, será sempre o amor. que nos […]

O TEU NOME

Egon Schiele, The Lovers, 1909 POESIA O TEU NOME BRUNO FIDALGO DE SOUSA a partir de “Esquimó“, de Fabrício Corsaletti ​ no outro dia, ouvi na televisão o teu nomeas notícias adoram noticiar o teu nomeeu gostava de nunca me esquecer do teu nomee gravar no meu diário o teu nomepara notificar o notário do […]

III | XIII VALA SÓ MINHA

Stabat Mater, Roberto Fiore POESIA RUI SOBRAL IIIXIII vala só minha o pó das cinzas minhasneste mundo derramadasoh vala triste que me tenssempre tão mortotão morto e preocupadode fracassar cansadode em alto mar, à vela, naufragadoa esbravejarde em alto mar, à vela, naufragadoa esbravejar, a esbravejarsempre tão mortosempre à esperaque a vala me tornemorto descansadomorto […]

II | II NOITES DE DIAS EM VÃO

POESIA RUI SOBRAL II II noites de dias em vão impiedoso é este vazioque preenche as noitesas noites minhasnoites sozinho de angústias fartonoites perdidasde dias em buscade quem afinal sou eu impiedoso vazio queescravo me manténs a mima mim cru de ser mata-me de tiou mata-te de mimdisfarça-me para longede quem afinalsou eu Ilustração de […]

A PRIMAVERA QUE NOS SEPARA

Claude Monet, An Orchard in Spring, 1886 POESIA A PRIMAVERA QUE NOS SEPARA MIGUEL MESQUITA MONTES Os teus olhos serãoO melhor do próximo verão.É certo, mais virão,Mas, para mim, isso nem é questãoPois ainda é invernoE eu não tenho onde me aquecer…Onde estarais vós, olhos verdes,E quando me ides querer ver? Eu cá nasci do […]

III | XVIII Petra – UM POEMA DE AMOR

First Steps (after Millet), Vincent van Gogh POESIA RUI SOBRAL IIIXVIII Petra – um poema de amor também Tu me ajudas a descer da cadeira de madeiraproíbes-me com a Tua nascençade morrer cedo às minhas mãos(uma outra espécie de Salvaçãouma outra forma de penitência)já não desejo a morte como antesnem a fome me é tão […]

Manuel Resende | Confissão

CLUBE DOS POETAS MORTOS MANUEL RESENDE Poeta de sublime engenho e surreal crueza, poeta discreto de ímpeto lírico vigoroso, Manuel Resende, também jornalista, também tradutor (de Marx a Kaváfis), publicou somente três livros de inéditos ao longo de três distintas décadas: “Natureza Morta com Desodorizante” em 1983, “Em Qualquer Lugar” de 98 e “O Mundo […]

QUERIA INVENTAR UMA LINGUAGEM

Composition VII, Wassily Kandinsky POESIA QUERIA INVENTAR UMA LINGUAGEM PEDRO VALE Que ri aI n v e n t a rU m a  l i n g u a g e m ,movimento perpétuo, eUm culto e belo cogumelo encontrar.Queria a raiz, o chão, a manta, o lar. T e rA do r ado oReto […]

IV | LXVI A BELA AOS OITENTA

POESIA RUI SOBRAL IVLXVI a Bela aos oitenta vazio olhar no espelho do hallrugas minhas; lá fora primaverana cozinha as luzes que a Belapintava quando nova sonhava;quando nova ainda sonhava comsonhos desconcretizadosvazio olhar o meu desde os trintapresságio bom em número para morrerporém vivi; morto vivo por aquicom memórias nunca minhasnostalgias de coisas cruasde coisas […]

BEM SOUBE QUE A TERRA ME IRIA MENTIR E AMORAS

POESIA BEM SOUBE QUE A TERRA ME IRIA MENTIR E AMORAS ANA RITA RODRIGUES Bem soube que a terra me iria mentir.Mal sabe sempre que aterrar me mente. Ascendo, por fim:Estás alva e a tua íris mais azul que nunca. Enfio a linha na agulha, sim, rainha alva de luz; [ pedias-me,de quando em vez,“que […]

II | XCIX OUTRO RENASCIMENTO

POESIA RUI SOBRAL IIXCIX outro renascimento histórias de virgindadena central dos autocarrosnos bancos da cidadenas esplanadas hoje nuasna relva onde comemoscoisas tuas; coisas nossasnas mochilas da escolae tantos sonhos vivemostantos pães na relva comemostanto amor, tantas promessastantas lágrimas e ciúmestantas origens desconhecidastodas vindas do estômagoo amor não foi suficiente, amore hoje olho-tee desejo-te com a […]

EIS QUE UM DEUS IRREMEDIÁVEL DESVENDA OS SEUS PLANOS

Crâne de squelette fumant une cigarette, by Vincent Van Gogh, 1888 POESIA EIS QUE UM DEUS IRREMEDIÁVEL DESVENDA OS SEUS PLANOS ANTÓNIO FOJO Eis que um Deus irremediável desvenda os seus planos a prova não é um tormento honroso à escatologia é uma castanha meia verde enrolada na língua “Meu Deus” mas a castanha agora […]

I | LXXXIX SETE E MEIA

Yellow House, Vincent Van Gogh, 1888 POESIA RUI SOBRAL ILXXXIX sete e meia o credo rezado ao fim da tardecabeceira da cama de solteiroDeladoze pessoas na pontevindas da casa divinarumo à casa amarelao sabor a cevada na minha bocamisturado com circus de sabores pastososdesde as três e meia; desde as três e meiada tardee o […]

NÃO É NADA QUE O TEMPO POSSA EMPURRAR

POESIA NÃO É NADA QUE O TEMPO POSSA EMPURRAR TIAGO MARCOS Não é nada que o tempo possa empurrarNão é nada que o mar possa levarE por mais que escaves a terraA impossibilidade permanece…Espera um poucoDeixa que te tente explicar,É uma espécie estranha de angústiaNão é a saudade dos poemas comunsNem a revolta contra a […]

III | XIX CARTA DE DESPEDIDA

Michaelangelo’s list detail POESIA RUI SOBRAL III XIX carta de despedida uma vida inteira em pontuações finais; ou talvez a minha carta de morte natural: abacaxi. melão. água. pão. chocapic. ice tea. batata frita. douradinhos. vinho. carregar telemóvel. Share on facebook Share on twitter Share on linkedin Share on pinterest Share on pocket PARTILHAR

MECÂNICA DO SONHO

POESIA MECÂNICA DO SONHO PEDRO VALE Trepa a liana o simbólico detetive da imaginação.Referência orgânica da língua, declaração de exílio, fonte abundante.Descida à prisão. Identidade e interesse do pensamento.Descoberta dos personagens: paradigma e destino.Um poeta articula e reverte o mundo de casa aberta, viva canção. (falsidade-embaraço, perfume-folclore, magia-projeção, poema-cheiro,figura-mãe, memória-ferrugem) Arrastamento, recorrência e inevitável esquecimento […]

IRÁS SEMPRE CRUZAR A MESMA RUA

Fotografia de Fabian Fauth POESIA IRÁS SEMPRE CRUZAR A MESMA RUA TIAGO MARCOS Irás sempre cruzar a mesma ruaNo caminho que é pensarE terás os pés doídos pelas pedrasMas não pares.Sei, só no espaço guardado para a esperança,Que uma manhã nova viráE todo o pó que o caminho temSerá soprado por um vento novoUm vento […]

A UVA NÃO UIVOU

On The Vine, Darice Machel McGuire POESIA A UVA NÃO UIVOU SARA MARTINS Há tempo em que a terra uiva, Lavrando bocas entre bocejos. Ainda a terra não acabou de bocejar-te, E já as parras, em ninhos, murcham-se. Ainda nem as uvas se deixam ver, E já a terra uiva de dentro do ninho. Ou […]

QUANDO VOLTARES

Scotch, Rocks I, 2008, Julia Jacquette POESIA QUANDO VOLTARES ANTÓNIO FOJO quando voltares, não olhes de soslaio para mim.eu fiz da minha biologia uma tentativa,eu portei-me bem e a preceito.deixei feita a cama, enchi os vasos de água,calcei com amor as botas rasgadasque encontrei no meio da lama.eu cantei para Ti quando a raivaera por […]

POEMAS DA MINHA VIDA

Pintura de Aires dos Santos POEMAS poemas da minha vida MIGUEL MESQUITA MONTES I OS ROJÕES DA MINHA MÃE SÃO OS MELHORES rojões DO MUNDO Os rojões da minha mãe são os melhores rojões do mundo,Embora goste mais de os comer no restaurante.Cansado, chego a casa e brilha a lua:“Mãe, o que vamos jantar?”“Rojões, e […]