III | XIX POETA NA POESIA

POESIA RUI SOBRAL IIIXIX poeta na poesia não há poema lidoem que não seja encontradaa poesia de quem o lêsem que nele veja guardadocomo mistério suplementara vida morta onde se revê Share on facebook Share on twitter Share on linkedin Share on pinterest Share on pocket PARTILHAR

III | XVIII ESPANHOLA NOSSA MARESIA

POESIA RUI SOBRAL IIIXVIII espanhola nossa maresia no ar a maresia chegava-nosao coraçãoestávamos todos lána mão de uma espanholaestávamos todos látodos menos um Share on facebook Share on twitter Share on linkedin Share on pinterest Share on pocket PARTILHAR

III | XX FAMÍLIAS PERFEITAS MINHA

One of the Family, Frederick George Cotman, 1880 POESIA RUI SOBRAL IIIXX famílias perfeitas minha há famílias perfeitasvivem em cidades modernascom veleiro e moto de pistatodos com carros e motoristanas suas casas luminosasjantam descansados à mesanão há crianças a correr à voltatodas se comportam decentementee crescem com banho ao deitare pequeno-almoço de manhã há famílias […]

III | XV ENUNCIADO À MORTE

Fotografia de Chris Buckwald POESIA RUI SOBRAL IIIXV enunciado à morte subi as escadas – feito loucosubi-as sempre a correrdeitava-se a noite devagare eu ao cimo a querer chegarpara encontrar no ventorazões para não me atirar Share on facebook Share on twitter Share on linkedin Share on pinterest Share on pocket PARTILHAR

III | XX AO MEU LADO NINGUÉM

Twilight, Venice – Claude Monet POESIA RUI SOBRAL III XX ao meu lado ninguém descansa amor que o sol se pôs e me iluminou ainda tu dormias pintou-me de gelo por dentro e de amor a ti por fora devagar desencarcerou do peito meu a lua e disse-me baixinho sossega ainda há tempo até sossegar […]

III | XV CAMINHOS DE TERRA E SANGUE

Landscape, Rene Magritte, 1926; POESIA RUI SOBRAL IIIXV caminhos de terra e sangue percorri todas as tuas estradasas que trilhaste sozinha nosfrios da madrugadadentro da cúpula envidraçadaque construímos sem medidae nos guardamos para sempre percorri-as devagar na pérfidaesperança de nos encontrarencontrei-nos sozinhos lentostrilhos a metade por acabartrilhos de terra e sanguetrilhos ainda por trilhar Share […]

O QUE PRECISA A POESIA

Greta Knutson-Tzara, Spring Morning, 1950s POESIA O QUE PRECISA A POESIA BRUNO FIDALGO DE SOUSA o primeiro verso vem sempre carregado de hidrogénio, vem rimado,é do hélio, do vapor: o que precisa a poesia? contenho-me o que precisa a poesia? nunca de um rebanho. afinal o que precisa a poesia é espaço o que precisa […]

III | XVIII SUOR AMOR NOSSO

Caspar David Friedrich – Woman Before the Rising Sun (1818-20) POESIA RUI SOBRAL IIIXVIII suor amor nosso respirações tuas adormecem o meu solfazem-me sentir que adormecem o meu sole devagar transpiras espinhos nossos dos braçose contas-me aos poucos que partiste de manhãrefletem-se cores e novas flores em mimsinto escapar espaços novos de nós doise mordem-me […]

BRAVO, COMO EU

POESIA BRAVO, COMO EU BRUNO FIDALGO DE SOUSA 1. vejo-te: tens os olhos raiados de sangue.noto que te aproximas, pronto para me derrubar. sinto-teresfolgar como danado cão selvagem.chegamos à batalha.pontapeias o chão de fúria.dás voltas à arena em incúria e ouço-te. o teu urro é animalesco.na mão vejo o espeto. resta a mortalha. o teu […]

I | XCVI JANELAS ABERTAS RETROVISOR O MEU PAI

POESIA RUI SOBRAL IXCVI janelas abertas retrovisor o meu pai do alto do meu quarto ouço carros lá forarodas nuas no alcatrão da chuva molhadosinto a brisa das janelas abertas dos carrose lembro-me de quando criança as abrianos bancos de trás partilhados com a sofiae o meu pai pelo retrovisor me seguia do alto do […]

III | XX PESCOÇO VELHO E O SERROTE

Black Untitled by Willem de Kooning, 1948 POESIA RUI sOBRAL IIIXX pescoço velho e o serrote decapitaste-me e eu feliz ajudei-tenaquelas partes mais difíceis a minha mão a empurrar a canetaque me ia cortando devagar o pescoçotinhas um ar sereno enquanto cortavasfizemos quatro ou cinco intervalose eu aguardava pacientementesegurei inclusive o serrote, sozinhoenquanto fumavas lá […]

III | XIX DA RAPOSA O OLFATO

Death in the Sickroom, Edvard Munch, 1893 POESIA RUI SOBRAL IIIXIX da raposa o olfato a fotografia de todos nós outra veztodos nósmenos um Share on facebook Share on twitter Share on linkedin Share on pinterest Share on pocket PARTILHAR

DIRIAM UNS: O MAR AQUIETA, O MAR CONSERTA, O MAR REPARA

Monge Junto ao Mar, Caspar David Friedrich POESIA ANA RITA RODRIGUES Diriam uns:o mar aquieta, o mar conserta, o mar repara.Diriam outros:o mar entorpece sentidos, o mar abate-os, o mar traz fastio e dá nascença à melancolia, ainda que nem sempre a melancolia enfastie.Dir-se-ia:talvez me situassem a mim algures no meio dessas duas margens.E, do […]

II | VII A POESIA DOS DETIDOS

POESIA RUI SOBRAL IIVII a poesia dos detidos no corpo do poema a minha espadadetida por mãos nunca escritasvestida de pó dos pés à cabeça eis um poema teu devagarinhoao luminoso som de apaixonados Share on facebook Share on twitter Share on linkedin Share on pinterest Share on pocket PARTILHAR

III | XVI AMANTES DO CAMPO

Tempo de Colheita, Julian Dupre POESIA RUI SOBRAL IIIXVI amantes do campo semeei na terra um amor que era só nossoe de angústias reguei-o delicadamentetodos os dias ao acordartodos os dias fizesse chuva fizesse sol todos os diastodos os dias reguei-o ao acordaràs vezes vento outras não colhi dos outros verdades sempre nossasverdades mentidas a […]

II TODAS AS NOSSAS CANÇÕES

POESIA RUI SOBRAL IItodas as nossas canções sonhaste-me amor naquela tarde desamparadade nós os dois sempre juntos lado a ladoenquanto nus bebíamos florestas inteirasde amor sangue sangue amor e bebedeiras escapaste-me sozinha no doce horizontede quilómetros inteiros a navegar sozinhoà esquerda o ribatejo à direita sanjoaninasque de fé me perdia de fé me ganhava e […]

II | XCIX A MORTE EM FADO EM MIM

Marsz żałobny, Władysław Podkowiński – 1894. POESIA RUI SOBRAL IIXCIX a morte em fado em mim morrer tornou-se sabedorianas horas de garrafas vaziascustou-me tanto viver tantas vezes na minha vidaque morrer queria tantoque morrer parecia fado sem que matar-me fado se realizasse – morre de uma vez ou vive em mim alguma coisaque me faça […]

III | XIX RUMINANTES HISTÓRIAS MIL

POESIA RUI SOBRAL IIIXIX ruminantes histórias mil ruminantes pensamentos meusimagens em caracol de outroscanções antigas baixinhoe fumo de cigarros à janelajá nem sei quem sou agoranunca soube ao certo tambémmales de amor decertogenealogias obscuras em mime palavras mil à noitehistórias desconhecidasperdidas no raciocínio meuoutrora nu outrora teununca só teu sempre só meu Share on facebook […]

É PRECISO VIVER SEM PAIXÕES

POESIA PEDRO VALE É preciso viver sem paixões.Mergulhar no absoluto anonimato,Permanecer morto ou vivo até ao fim. Aclamar o tumulto escuro e bruto.Encenar o drama clemente e lento.Sentir um amor ideal por anjos nebulosos.Descobrir um novo fundo de poesia e aguardaruma voz que nos ordene docilmente– Não te movas, nem te inquietes,nem traias o queainda […]

III | XX VÍCIOS CIGARRO AMOR

POESIA RUI SOBRAL IIIXX vícios cigarro amor um cigarro no tempo em que fumarme fazia novoe me trazia paz aos pulmões meusum cigarro que agora me pedesa mim devagarnas angústias de um tempo acelerado com o fumo pelas estribeiras da camaenrolo-me nu aos lençóis nossos das noites sem sonoe bebo-me inteiro a um só golesem […]

II | I MAR CORAÇÃO VELHO

POESIA RUI SOBRAL III mar coração velho disseste-me vai afoga-te nas palavras minhase eu tolo à procura delasvoltei no tempoe do teu mar para nele me afogare fugi do tempo outra vez (como antes)enquanto o tempo perseguia devagarentre colinas que ficaram por subirimaginadas em tardes inférteis nossastão esperançosas tardes na época dos sonhos afoguei-me no […]

III | XX OLHOS CÃES FEROZES

POESIA RUI SOBRAL IIIXX olhos cães ferozes olhos na calçadae o corpo inteiro fogesozinho a subir a ruabraçada a braçadaao longe o contentamentoperto a madrugadamantenho os olhosos olhos presospresos na madrugadasempre presos na calçada Share on facebook Share on twitter Share on linkedin Share on pinterest Share on pocket PARTILHAR

I | LXXXVII SOFIA

POESIA RUI SOBRAL ILXXXVII sofia bielabielaó biela Share on facebook Share on twitter Share on linkedin Share on pinterest Share on pocket PARTILHAR

I | XCVI NOITES DE ALVORADA EM MIM

Vincent van Gogh – Cafe Terrace at Night (1888) POESIA RUI SOBRAL IXCVI noites de alvorada em mim nunca houve uma noite sequerem que nenhum medo me assaltassetodas foram alvorada dentro da minha paztodas nuas, malditas noites em mime resta-me a voz dos dias luminososque me abraçam inteiro e fazem correr vestido de esperançapelas beiras […]

PORVENTURA

POESIA PORVENTURA BRUNO FIDALGO DE SOUSA se, porventura, não vos for possível ler este poema, tudo temam. ninguém precisa de um lápis da cor do mar ensonado. dessa grafite que enfeita as linhas tortas da maré. um marcador fluorescente sobre todas as obras inapropriadas. todas as palavras sublinhadas pelo atentado à família, à fé, ao […]

III | XX SEM SABER AMOR

POESIA RUI SOBRAL IIIXX sem saber amor de papel na mão às tantas sozinhoperdido à noite perdido no caminhonaquele em que eu me tornei sónaquele em que em ti vivi para semprede papel à noite na mão feridaencontrei tinta nossa tinta nossa perdidarespirei ao relento flores tuas, amorlá longe no vento amores nossos, queridalá longe, […]

III | I ESCREVER TANTO

Via Láctea, Peter Doig POESIA RUI SOBRAL IIII escrever tanto no dia que deixar de ter medovou escrever um poema sobre a noitemas agora poder ainda não tenho em mimse escrevesse talvez matar-me quisessee quero tanto ainda escreverque por essa vontadeevito o quanto posso de morrer Share on facebook Share on twitter Share on linkedin […]

III | XX SOU SEREI

Drunkenness of Noah, Michaelangelo POESIA RUI SOBRAL IIIXX sou serei desço a rua meio morto vivo de certeza morto também garrafa na mão esquerda à direita um trambolhão não meu mas de outras gentes tão distantes de mim – tão perto de quem um dia serei Share on facebook Share on twitter Share on linkedin […]

III | XII ECO À SALIVA TUA

POEMA RUI SOBRAL IIIXII eco à saliva tua apareceste-me de noitegritar não conseguiaera vazia a minha vozo eco quente que se faziaperdido agoraperdido antesperdido sempreoh, sorte, sorte minhaoh, amante, amante minhavestida de fome engolistea salivaminha, saliva tuaminhatuatão tua Woman II, Willem de Kooning ,1952 Share on facebook Share on twitter Share on linkedin Share on […]

III | VI TRISTE CLAU MINHA

POESIA RUI SOBRAL III VI triste clau minha sentistes amastes não fales assim sentiste, é assim amaste, é assim nunca digo sentistes nunca digo amastes quem o diz é o coração que não tem papas na língua Share on facebook Share on twitter Share on linkedin Share on pinterest Share on pocket PARTILHAR