III | XX PESCOÇO VELHO E O SERROTE

Black Untitled by Willem de Kooning, 1948 POESIA RUI sOBRAL IIIXX pescoço velho e o serrote decapitaste-me e eu feliz ajudei-tenaquelas partes mais difíceis a minha mão a empurrar a canetaque me ia cortando devagar o pescoçotinhas um ar sereno enquanto cortavasfizemos quatro ou cinco intervalose eu aguardava pacientementesegurei inclusive o serrote, sozinhoenquanto fumavas lá […]

III | XIX DA RAPOSA O OLFATO

Death in the Sickroom, Edvard Munch, 1893 POESIA RUI SOBRAL IIIXIX da raposa o olfato a fotografia de todos nós outra veztodos nósmenos um Share on facebook Share on twitter Share on linkedin Share on pinterest Share on pocket PARTILHAR

DIRIAM UNS: O MAR AQUIETA, O MAR CONSERTA, O MAR REPARA

Monge Junto ao Mar, Caspar David Friedrich POESIA ANA RITA RODRIGUES Diriam uns:o mar aquieta, o mar conserta, o mar repara.Diriam outros:o mar entorpece sentidos, o mar abate-os, o mar traz fastio e dá nascença à melancolia, ainda que nem sempre a melancolia enfastie.Dir-se-ia:talvez me situassem a mim algures no meio dessas duas margens.E, do […]

II | VII A POESIA DOS DETIDOS

POESIA RUI SOBRAL IIVII a poesia dos detidos no corpo do poema a minha espadadetida por mãos nunca escritasvestida de pó dos pés à cabeça eis um poema teu devagarinhoao luminoso som de apaixonados Share on facebook Share on twitter Share on linkedin Share on pinterest Share on pocket PARTILHAR

III | XVI AMANTES DO CAMPO

Tempo de Colheita, Julian Dupre POESIA RUI SOBRAL IIIXVI amantes do campo semeei na terra um amor que era só nossoe de angústias reguei-o delicadamentetodos os dias ao acordartodos os dias fizesse chuva fizesse sol todos os diastodos os dias reguei-o ao acordaràs vezes vento outras não colhi dos outros verdades sempre nossasverdades mentidas a […]

II TODAS AS NOSSAS CANÇÕES

POESIA RUI SOBRAL IItodas as nossas canções sonhaste-me amor naquela tarde desamparadade nós os dois sempre juntos lado a ladoenquanto nus bebíamos florestas inteirasde amor sangue sangue amor e bebedeiras escapaste-me sozinha no doce horizontede quilómetros inteiros a navegar sozinhoà esquerda o ribatejo à direita sanjoaninasque de fé me perdia de fé me ganhava e […]

II | XCIX A MORTE EM FADO EM MIM

Marsz żałobny, Władysław Podkowiński – 1894. POESIA RUI SOBRAL IIXCIX a morte em fado em mim morrer tornou-se sabedorianas horas de garrafas vaziascustou-me tanto viver tantas vezes na minha vidaque morrer queria tantoque morrer parecia fado sem que matar-me fado se realizasse – morre de uma vez ou vive em mim alguma coisaque me faça […]

III | XIX RUMINANTES HISTÓRIAS MIL

POESIA RUI SOBRAL IIIXIX ruminantes histórias mil ruminantes pensamentos meusimagens em caracol de outroscanções antigas baixinhoe fumo de cigarros à janelajá nem sei quem sou agoranunca soube ao certo tambémmales de amor decertogenealogias obscuras em mime palavras mil à noitehistórias desconhecidasperdidas no raciocínio meuoutrora nu outrora teununca só teu sempre só meu Share on facebook […]

É PRECISO VIVER SEM PAIXÕES

POESIA PEDRO VALE É preciso viver sem paixões.Mergulhar no absoluto anonimato,Permanecer morto ou vivo até ao fim. Aclamar o tumulto escuro e bruto.Encenar o drama clemente e lento.Sentir um amor ideal por anjos nebulosos.Descobrir um novo fundo de poesia e aguardaruma voz que nos ordene docilmente– Não te movas, nem te inquietes,nem traias o queainda […]

III | XX VÍCIOS CIGARRO AMOR

POESIA RUI SOBRAL IIIXX vícios cigarro amor um cigarro no tempo em que fumarme fazia novoe me trazia paz aos pulmões meusum cigarro que agora me pedesa mim devagarnas angústias de um tempo acelerado com o fumo pelas estribeiras da camaenrolo-me nu aos lençóis nossos das noites sem sonoe bebo-me inteiro a um só golesem […]

II | I MAR CORAÇÃO VELHO

POESIA RUI SOBRAL III mar coração velho disseste-me vai afoga-te nas palavras minhase eu tolo à procura delasvoltei no tempoe do teu mar para nele me afogare fugi do tempo outra vez (como antes)enquanto o tempo perseguia devagarentre colinas que ficaram por subirimaginadas em tardes inférteis nossastão esperançosas tardes na época dos sonhos afoguei-me no […]

III | XX OLHOS CÃES FEROZES

POESIA RUI SOBRAL IIIXX olhos cães ferozes olhos na calçadae o corpo inteiro fogesozinho a subir a ruabraçada a braçadaao longe o contentamentoperto a madrugadamantenho os olhosos olhos presospresos na madrugadasempre presos na calçada Share on facebook Share on twitter Share on linkedin Share on pinterest Share on pocket PARTILHAR

I | LXXXVII SOFIA

POESIA RUI SOBRAL ILXXXVII sofia bielabielaó biela Share on facebook Share on twitter Share on linkedin Share on pinterest Share on pocket PARTILHAR

I | XCVI NOITES DE ALVORADA EM MIM

Vincent van Gogh – Cafe Terrace at Night (1888) POESIA RUI SOBRAL IXCVI noites de alvorada em mim nunca houve uma noite sequerem que nenhum medo me assaltassetodas foram alvorada dentro da minha paztodas nuas, malditas noites em mime resta-me a voz dos dias luminososque me abraçam inteiro e fazem correr vestido de esperançapelas beiras […]

PORVENTURA

POESIA PORVENTURA BRUNO FIDALGO DE SOUSA se, porventura, não vos for possível ler este poema, tudo temam. ninguém precisa de um lápis da cor do mar ensonado. dessa grafite que enfeita as linhas tortas da maré. um marcador fluorescente sobre todas as obras inapropriadas. todas as palavras sublinhadas pelo atentado à família, à fé, ao […]

III | XX SEM SABER AMOR

POESIA RUI SOBRAL IIIXX sem saber amor de papel na mão às tantas sozinhoperdido à noite perdido no caminhonaquele em que eu me tornei sónaquele em que em ti vivi para semprede papel à noite na mão feridaencontrei tinta nossa tinta nossa perdidarespirei ao relento flores tuas, amorlá longe no vento amores nossos, queridalá longe, […]

III | I ESCREVER TANTO

Via Láctea, Peter Doig POESIA RUI SOBRAL IIII escrever tanto no dia que deixar de ter medovou escrever um poema sobre a noitemas agora poder ainda não tenho em mimse escrevesse talvez matar-me quisessee quero tanto ainda escreverque por essa vontadeevito o quanto posso de morrer Share on facebook Share on twitter Share on linkedin […]

III | XX SOU SEREI

Drunkenness of Noah, Michaelangelo POESIA RUI SOBRAL IIIXX sou serei desço a rua meio morto vivo de certeza morto também garrafa na mão esquerda à direita um trambolhão não meu mas de outras gentes tão distantes de mim – tão perto de quem um dia serei Share on facebook Share on twitter Share on linkedin […]

III | XII ECO À SALIVA TUA

POEMA RUI SOBRAL IIIXII eco à saliva tua apareceste-me de noitegritar não conseguiaera vazia a minha vozo eco quente que se faziaperdido agoraperdido antesperdido sempreoh, sorte, sorte minhaoh, amante, amante minhavestida de fome engolistea salivaminha, saliva tuaminhatuatão tua Woman II, Willem de Kooning ,1952 Share on facebook Share on twitter Share on linkedin Share on […]

III | VI TRISTE CLAU MINHA

POESIA RUI SOBRAL III VI triste clau minha sentistes amastes não fales assim sentiste, é assim amaste, é assim nunca digo sentistes nunca digo amastes quem o diz é o coração que não tem papas na língua Share on facebook Share on twitter Share on linkedin Share on pinterest Share on pocket PARTILHAR

II | XCVI DONA MARIA SEGUNDA

POESIA RUI SOBRAL IIXCVI dona maria segunda já vi um tio dormir no jardimdo parque da minha cidadedeitado num banco vermelhode lado; coitado, sofria acho que isto é um poemapelo menos assim o sintopelo menos assim o sentequem o viu naquele dia Share on facebook Share on twitter Share on linkedin Share on pinterest Share […]

I | LXXXVIII VERMELHO SANGUE MÃE

POESIA RUI SOBRAL ILXXXVIII vermelho sangue mãe em pequena confundi cotão de uma meia vermelha com um pedaço de sangue do meu pé tenro e salutar chorei como uma criança como a criança que era a minha mãe apareceu do nada encontrou-me no bidé não me limpou as lágrimas acalmou-me o peito disse filha, isso […]

I | LXXXIX ZÉ POETA AMIGO

Friends Under The Rain, Leonid Afremov POESIA RUI SOBRAL ILXXXIX zé poeta amigo o Zé é o meu grande amigo o poeta dos poetas mas não tendo umbigo de que serve o poeta se nem de umbigoestá vestido talvez o Zé o tenha e eu só precise de escrever direito este poema importa é o […]

MAIO É UMA CANÇÃO

Fotografia de Gerald Bloncourt POESIA MAIO É UMA CANÇÃO BRUNO FIDALGO DE SOUSA maio é uma cançãode vozes em uníssonoem manifesto maio é uma cançãoa mais antiga partituraum cantar de solfejo maio é uma cançãotrova-se em briga por saúde, pão, habitação maio é uma cançãode desejo e desparazitação maio é um cançãoà desgarrada de um […]

I | XCIV PÁTRIA PAI

POESIA RUI SOBRAL IXCIV pátria pai o meu pai tem um quadro de uma fotografia dele quando tinha uns dezassete, dezoito anos e eu só penso escrever um livro sobre um assassino para fazer dessa fotografia a capa desse livro. o meu pai não é um assassino, é a minha pátria. Share on facebook Share […]

ABRIL É UM LUGAR

POESIA ABRIL É UM LUGAR BRUNO FIDALGO DE SOUSA abril é um lugaronde em todas as esquinasse oferecem flores abril é um lugarcomo são as casasque erguemos abril é um lugarde portas escancaradascomo braços cheios de nadaonde ninguém disparae em todas as carascomoção abril é um lugaruma taberna onde se brinda à terra da fraternidade […]

O QUE QUER QUE ENTERRES

25 de Abril, Mariana Cordeiro POESIA O QUE QUER QUE ENTERRES ANTÓNIO FOJO se pisas as sementes,se mentes,se travas o caminhoà primavera tudo isso um dia te espera a tirania do homem anónimoas obras predilectas – o que quer que enterresna superfície da esfera – o pesar do teu próximo,a voz dos profetas tudo isso […]

III | XIX POESIA VI

Daydreamer -Required Reading, Carl Larsson POESIA RUI SOBRAL IIIXIX poesia vi pouso baudelaire na beira da janela olho impaciente a janela embaciada entre as gotas da humidade vejo um carro lá fora a subir a encosta rumo ao nevoeiro, parece desviar-se destino à lua, abranda, encosta, uma porta aberta alguém se aproxima em passo acelerado […]

La Danse, Henri Matisse,1909 POESIA – CALÍ BOREAZ ainda sou muito nova para escrever este poemapercebo que a melancolia é um excesso— de espaço e de tempopercebo que sou dos cavalos que precisamnão do toque do chicote ou mesmo do sangue a rachar os ossosmas do próprio desaparecimento— para iniciar o trotepercebo e procuro seguir […]

III | XVII FOLHAS SECAS EM MIM

Still Life with a Basket of Potatoes, Surrounded by Autumn Leaves and Vegetables, Van Gogh POESIA RUI SOBRAL IIIXVII folhas secas em mim há lá noite mais escura do que aquela que vive em mim há lá morte mais crua do que a vida que vejo em mim há lá vida mais banal do que […]