III | XX ASTRONAUTA AMOR

POESIA RUI SOBRAL IIIXX astronauta amor foi sempre o amor. é sempre o amor. nada é tão alto como o amor, nada é tão solene, nem severo; nada é tão agramatical, nem fértil nem terreno nem astronauta no espaço;nada é tão sereno ou obsceno como é o amor. foi sempre o amor, será sempre o amor. que nos […]

O TEU NOME

Egon Schiele, The Lovers, 1909 POESIA O TEU NOME BRUNO FIDALGO DE SOUSA a partir de “Esquimó“, de Fabrício Corsaletti ​ no outro dia, ouvi na televisão o teu nomeas notícias adoram noticiar o teu nomeeu gostava de nunca me esquecer do teu nomee gravar no meu diário o teu nomepara notificar o notário do […]

III | XIII VALA SÓ MINHA

Stabat Mater, Roberto Fiore POESIA RUI SOBRAL IIIXIII vala só minha o pó das cinzas minhasneste mundo derramadasoh vala triste que me tenssempre tão mortotão morto e preocupadode fracassar cansadode em alto mar, à vela, naufragadoa esbravejarde em alto mar, à vela, naufragadoa esbravejar, a esbravejarsempre tão mortosempre à esperaque a vala me tornemorto descansadomorto […]

II | II NOITES DE DIAS EM VÃO

POESIA RUI SOBRAL II II noites de dias em vão impiedoso é este vazioque preenche as noitesas noites minhasnoites sozinho de angústias fartonoites perdidasde dias em buscade quem afinal sou eu impiedoso vazio queescravo me manténs a mima mim cru de ser mata-me de tiou mata-te de mimdisfarça-me para longede quem afinalsou eu Ilustração de […]

A PRIMAVERA QUE NOS SEPARA

POESIA A PRIMAVERA QUE NOS SEPARA MIGUEL MESQUITA MONTES Os teus olhos serãoO melhor do próximo verão.É certo, mais virão,Mas, para mim, isso nem é questãoPois ainda é invernoE eu não tenho onde me aquecer…Onde estarais vós, olhos verdes,E quando me ides querer ver? Eu cá nasci do castanhoE deixei que mos pintassem assim.Não pude […]

III | XVIII Petra – UM POEMA DE AMOR

First Steps (after Millet), Vincent van Gogh POESIA RUI SOBRAL IIIXVIII Petra – um poema de amor também Tu me ajudas a descer da cadeira de madeiraproíbes-me com a Tua nascençade morrer cedo às minhas mãos(uma outra espécie de Salvaçãouma outra forma de penitência)já não desejo a morte como antesnem a fome me é tão […]

Manuel Resende | Confissão

CLUBE DOS POETAS MORTOS MANUEL RESENDE Poeta de sublime engenho e surreal crueza, poeta discreto de ímpeto lírico vigoroso, Manuel Resende, também jornalista, também tradutor (de Marx a Kaváfis), publicou somente três livros de inéditos ao longo de três distintas décadas: “Natureza Morta com Desodorizante” em 1983, “Em Qualquer Lugar” de 98 e “O Mundo […]

QUERIA INVENTAR UMA LINGUAGEM

Composition VII, Wassily Kandinsky POESIA QUERIA INVENTAR UMA LINGUAGEM PEDRO VALE Que ri aI n v e n t a rU m a  l i n g u a g e m ,movimento perpétuo, eUm culto e belo cogumelo encontrar.Queria a raiz, o chão, a manta, o lar. T e rA do r ado oReto […]

IV | LXVI A BELA AOS OITENTA

POESIA RUI SOBRAL IVLXVI a Bela aos oitenta vazio olhar no espelho do hallrugas minhas; lá fora primaverana cozinha as luzes que a Belapintava quando nova sonhava;quando nova ainda sonhava comsonhos desconcretizadosvazio olhar o meu desde os trintapresságio bom em número para morrerporém vivi; morto vivo por aquicom memórias nunca minhasnostalgias de coisas cruasde coisas […]

BEM SOUBE QUE A TERRA ME IRIA MENTIR E AMORAS

POESIA BEM SOUBE QUE A TERRA ME IRIA MENTIR E AMORAS ANA RITA RODRIGUES Bem soube que a terra me iria mentir.Mal sabe sempre que aterrar me mente. Ascendo, por fim:Estás alva e a tua íris mais azul que nunca. Enfio a linha na agulha, sim, rainha alva de luz; [ pedias-me,de quando em vez,“que […]

II | XCIX OUTRO RENASCIMENTO

POESIA RUI SOBRAL IIXCIX outro renascimento histórias de virgindadena central dos autocarrosnos bancos da cidadenas esplanadas hoje nuasna relva onde comemoscoisas tuas; coisas nossasnas mochilas da escolae tantos sonhos vivemostantos pães na relva comemostanto amor, tantas promessastantas lágrimas e ciúmestantas origens desconhecidastodas vindas do estômagoo amor não foi suficiente, amore hoje olho-tee desejo-te com a […]

EIS QUE UM DEUS IRREMEDIÁVEL DESVENDA OS SEUS PLANOS

Crâne de squelette fumant une cigarette, by Vincent Van Gogh, 1888 POESIA EIS QUE UM DEUS IRREMEDIÁVEL DESVENDA OS SEUS PLANOS ANTÓNIO FOJO Eis que um Deus irremediável desvenda os seus planos a prova não é um tormento honroso à escatologia é uma castanha meia verde enrolada na língua “Meu Deus” mas a castanha agora […]

I | LXXXIX SETE E MEIA

Yellow House, Vincent Van Gogh, 1888 POESIA RUI SOBRAL ILXXXIX sete e meia o credo rezado ao fim da tardecabeceira da cama de solteiroDeladoze pessoas na pontevindas da casa divinarumo à casa amarelao sabor a cevada na minha bocamisturado com circus de sabores pastososdesde as três e meia; desde as três e meiada tardee o […]

NÃO É NADA QUE O TEMPO POSSA EMPURRAR

POESIA NÃO É NADA QUE O TEMPO POSSA EMPURRAR TIAGO MARCOS Não é nada que o tempo possa empurrarNão é nada que o mar possa levarE por mais que escaves a terraA impossibilidade permanece…Espera um poucoDeixa que te tente explicar,É uma espécie estranha de angústiaNão é a saudade dos poemas comunsNem a revolta contra a […]

III | XIX CARTA DE DESPEDIDA

Michaelangelo’s list detail POESIA RUI SOBRAL III XIX carta de despedida uma vida inteira em pontuações finais; ou talvez a minha carta de morte natural: abacaxi. melão. água. pão. chocapic. ice tea. batata frita. douradinhos. vinho. carregar telemóvel. Share on facebook Share on twitter Share on linkedin Share on pinterest Share on pocket PARTILHAR

MECÂNICA DO SONHO

POESIA MECÂNICA DO SONHO PEDRO VALE Trepa a liana o simbólico detetive da imaginação.Referência orgânica da língua, declaração de exílio, fonte abundante.Descida à prisão. Identidade e interesse do pensamento.Descoberta dos personagens: paradigma e destino.Um poeta articula e reverte o mundo de casa aberta, viva canção. (falsidade-embaraço, perfume-folclore, magia-projeção, poema-cheiro,figura-mãe, memória-ferrugem) Arrastamento, recorrência e inevitável esquecimento […]

IRÁS SEMPRE CRUZAR A MESMA RUA

Fotografia de Fabian Fauth POESIA IRÁS SEMPRE CRUZAR A MESMA RUA TIAGO MARCOS Irás sempre cruzar a mesma ruaNo caminho que é pensarE terás os pés doídos pelas pedrasMas não pares.Sei, só no espaço guardado para a esperança,Que uma manhã nova viráE todo o pó que o caminho temSerá soprado por um vento novoUm vento […]

A UVA NÃO UIVOU

On The Vine, Darice Machel McGuire POESIA A UVA NÃO UIVOU SARA MARTINS Há tempo em que a terra uiva, Lavrando bocas entre bocejos. Ainda a terra não acabou de bocejar-te, E já as parras, em ninhos, murcham-se. Ainda nem as uvas se deixam ver, E já a terra uiva de dentro do ninho. Ou […]

QUANDO VOLTARES

Scotch, Rocks I, 2008, Julia Jacquette POESIA QUANDO VOLTARES ANTÓNIO FOJO quando voltares, não olhes de soslaio para mim.eu fiz da minha biologia uma tentativa,eu portei-me bem e a preceito.deixei feita a cama, enchi os vasos de água,calcei com amor as botas rasgadasque encontrei no meio da lama.eu cantei para Ti quando a raivaera por […]

POEMAS DA MINHA VIDA

Pintura de Aires dos Santos POEMAS poemas da minha vida MIGUEL MESQUITA MONTES I OS ROJÕES DA MINHA MÃE SÃO OS MELHORES rojões DO MUNDO Os rojões da minha mãe são os melhores rojões do mundo,Embora goste mais de os comer no restaurante.Cansado, chego a casa e brilha a lua:“Mãe, o que vamos jantar?”“Rojões, e […]

EXERCÍCIO DE MORRER II

POESIA exercício de morrer ii LÍVIA PELLEGRINI Fazercontigo escansões no tempo Reconhecendo-teao transcorrer do rio instante por instante e sempre do cantochão às alturasa voz Inscrevendod e v a g a r i n h o nossa fatia de brisanossa cadência de amor. Share on facebook Share on twitter Share on linkedin Share on pinterest […]

ERA UMA VEZ NA TERRA UMA FLOR ARRANCADA

Night Blooming Cereus, de Ladianne Henderson, 2015 POESIA Era uma vez na Terra Uma flor arrancada ANA RITA RODRIGUES [ A Flor do Sonho, alvíssima, divina, Miraculosamente abriu em mim ]  Florbela Espanca    Pingava do céu,naquele final de tarde.Apesar disso,imperou o alcatrão, ao relento.Auscultadores pousados, microfones desligados;jingles trocados  pelo assentoda tua mota: adrenalina que o peito quase […]

CORO ATLÂNTICO

“Polar Woman ― The Memory of her Icy Love”, Kazuya Akimoto POESIA coro atlântico LÍVIA PELLEGRINI Minha terra tem encantosTantosque não há como contar Estão no canto que insistenas aves e as que aqui gorjeiamtransitam agitadas Trazem no cantouma dorde uma mensagem deslocada : óleo mortal éderramadonas águas férteisde Dona Janaínae espalha-se por toda a […]

DERRETEM-SE AS MÃOS NAS MEMÓRIAS

Melting Watch, Salvador Dali, 1954 POESIA DERRETEM-SE AS MÃOS NAS MEMÓRIAS SARA MARTINS Derretem-se as mãos nas memórias,Que ao fogo ficaram e acabaram por se fazer. Estendem-se os braços para além daquilo que se é, Enquanto as horas fogem em passos líquidos, Como se procurassem um gesto que não é meu.  Se todas as coisas […]

A CARTA QUE OPHELIA ACABOU POR ENVIAR

Fernando Pessoa, pintura de António Faria POESIA A CARTA QUE OPHELIA ACABOU POR ENVIAR LIA CACHIM Meu querido Fernando,tomara eu ser querida tua como tu és meupara poder tocar-te quando te vejonas raras vezes em que te vejoque na verdade são as raras vezes em que me vês a mim Mas o teu olhar trespassa-me, […]

A POESIA DAS COISAS

POESIA SONHO – VI NUNO MINA Ver tudo menos aquilo que se vê. Uma magia de pôr um sorriso nos lábios, Por ver numa gota de chuva, Num olhar, Num vento, Algo mais do que aquilo que é. A poesia das coisas está em nós. Negar-nos é retirar brilho a um mundo Que é muito […]

DA BOCA FIZ UMA GAIOLA ABERTA

POESIA DA BOCA FIZ UMA GAIOLA ABERTA SARA MARTINS Da boca fiz uma gaiola aberta,Tenho-a cheia de pássaros a picar-me por dentro. A sede das penas a romperem-me a carne,Cegou-me a inocência cristalizada nos olhos. Quantos mais pássaros, mais dentes,Quantos mais dentes, menos pássaros. E porque lhes mastigo os ossos,O âmago escorre pelas minhas mãos. […]

NÃO TE DÊS AO TRABALHO DE FOTOGRAFAR MEIA RUA

POESIA NÃO TE DÊS AO TRABALHO DE FOTOGRAFAR MEIA RUA BRUNO FIDALGO DE SOUSA não te pedi para guardares a minha imagem. tantoque não a quis sequer lembrar no espelho eafastei-me do mar e do reflexo dos vidros.deixei de conduzir eesforcei-me para me afastar das montras ondetelevisões não estariam ligadas24 sobre 7e o material refletor […]

QUEM ME DERA MORRER

POESIA QUEM ME DERA MORRER RUI SOBRAL quem me dera morrerquem me deramorreragoracom as mãos sujas de tintajá seca nas extremidadesainda húmida entre os dedosazul vermelho por todo o ladoisso faria de mim escritor dotadoaté ao último suspiro a escrevera azul vermelho preto tambémo nervo ulnar ainda a baterdas veias mais tinta a rebentarainda mais […]

SONHO – V

Interchange, Willem de Kooning, 1955 POESIA SONHO – V NUNO MINA Engana-se um poetaComo se manipula uma criança. Basta uma folha em brancoPara ainda haver esperançaDe dar cor(da) aos sonhos,Medonhos, como o fadoAprisionado em que levaA sua vida enganada. Cria mundos, cria-se.E tinta basta escorrerPara que Ele nunca se percaE se derrame em sangue. Vai […]