A POSSE EM “O PACIENTE INGLÊS”

ESPECIAL – CRÓNICA – ENSAIO A POSSE EM “O PACIENTE INGLÊS” MIGUEL MESQUITA MONTES Não possuímos nada. Toco nas sobrancelhas e arrisco-me a que caiam. Não lhes chamo de “minhas” porque não o são, embora estejam agarradas a mim. Passo a mão no cabelo, ou nos pelos do braço, e sinto o mesmo; talvez possua […]

“Tenet”, de Christopher Nolan (2020)

crítica TENET CHRISTOPHER NOLAN [2020] Ver Tenet (2020) pela primeira vez é como naufragar numa ilha deserta, sem tripulação a acompanhar, e, horas antes de acordar com uma ressaca repleta de dor, bater com a cabeça na rocha mais dura da praia. Depois, lá aprendemos a pescar, a sobreviver, e vamos conhecendo os cantos à […]

Mahmoud Darwish – Tenho lugar marcado no teatro abandonado

tradução TENHO LUGAR MARCADO NO TEATRO ABANDONADO MAHMOUD DARWISH Tenho lugar marcado no teatro abandonadoem Beirute. Talvez me esqueça, talvez recordeo ato final sem saudade… e a única razãoé que a peça não foi escritacom habilidade…Caoscomo nos dias de guerra daqueles em desespero, e uma autobiografia do impulso dos espetadores. Os atores rasgavam osguiõese procuravam […]

Langston Hughes – O Negro Fala de Rios

tradução O NEGRO FALA DE RIOS LANGSTON HUGHES Tenho conhecido rios:Tenho conhecido rios tão arcaicos quanto o mundo e mais antigos queo fluxo do sangue humano em humanas veias. A minha alma tem crescido profunda como os rios. Banhei-me no Eufrates quando as madrugadas eram jovens.Construí a minha cabana junto ao Congo e ele embalou-me […]

Manuel Cintra | Prestes a Cair

Fotografia de Vitorino Coragem CLUBE DOS POETAS MORTOS MANUEL CINTRA Com uma vida dedicada às artes, à poesia (e à sua divulgação), ao teatro, à tradução, à música, à interpretação, Manuel Cintra nasce em Lisboa, em 1956. As suas palavras são íntegras, intensas, platónicas. Um poeta e, ainda além, artista, cuja obra se manterá refém […]

Allen Ginsberg – América

tradução AMÉRICA ALLEN GINSBERG América eu dei-te tudo e agora sou nada. América dois dólares e vinteedois cêntimos Janeiro 17, 1956.Não suporto a minha própria consciência.América quando iremos terminar a guerra humana?Vai-te foder com a tua bomba atómica.Não me sinto bem não me incomodes. Eu não vou escrever o meu poema até estar no juízo […]

Niemöller, Brecht, Eduardo: os versos antifascistas pelo mundo

ESPECIAIS Niemöller, Brecht, Eduardo: os versos antifascistas pelo mundo BRUNO FIDALGO DE SOUSA “Primeiro vieram pelos socialistas, e eu nada disse– eu não era socialista.Depois vieram pelos sindicalistas, e eu nada disse – eu não era sindicalista.Depois vieram pelos Judeus, e eu nada disse – eu não era Judeu.Depois vieram por mim – e ninguém […]

Alfonsina Storni – Alma Nua

tradução ALMA NUA ALFONSINA STORNI Sou uma alma nua nestes versos,Alma nua que angustiada e sóVai deixando suas pétalas dispersas Alma que pode ser uma papoila,Que pode ser um lírio, uma violeta,Um penhasco, uma selva e uma onda. Alma que como o vento vaga inquietaE ruge quando está sobre os mares,E dorme docemente numa fenda […]

Herberto Hélder | Súmula

CLUBE DOS POETAS MORTOS HERBERTO HÉLDER Nasceu e partiu envolto no fumo cinza dos seus cigarros, Herberto Hélder, o da poesia misantropa e muitas vezes tão misteriosa quanto o seu ator, o dos “Passos Em Volta”, talvez a sua obra mais em voga, o autor que negou grande parte das entrevistas, das fotografias, até alguns […]

António Gedeão | Lágrima de preta

CLUBE DOS POETAS MORTOS ANTÓNIO GEDEÃO Nasceu e morreu Rómulo de Carvalho, mas é o nome António Gedeão que ressoa nos ouvidos do leitor, a imagética de uma “bola colorida entre as mãos de uma criança”, o seu musicado poema Pedra Filosofal, presente no seu primeiro livro de poesia, Movimento Perpétuo, publicado somente quando já […]

José Gomes Ferreira | Homens do futuro

CLUBE DOS POETAS MORTOS JOSÉ GOMES FERREIRA Foi um “poeta militante”, à poesia, à sua “teoria do grito poético”, ao poder mutante dos versos. Nasceu no Porto, mas cedo se mudou para Lisboa – onde veio a morrer. A sua vasta obra divide-se em crónicas, ficção, memórias, traduções, ensaios e literatura infantil (como as Aventuras […]

Alda Lara | Noite

CLUBE DOS POETAS MORTOS ALDA LARA A sua poesia é social e humanitária: do exílio à opressão, escreve sobre a mulher, o seu país e o término da colonização, sobre África, da “noite” ao “regresso”, sobre a solidão. Alda Lara, poeta portuguesa com origens angolanas, cursou e praticou Medicina, ao mesmo tempo que a sua […]

“1917”, de Sam Mendes (2019)

CRÍTICA 1917 SAM MENDES [2019] Pela câmara cavalheira do irrepreensível cinematógrafo Roger Deakins, que nunca se coloca à frente das personagens, causando assim ainda mais receio ao espectador, seguimos a missão bélica destacada a Lance Corporal Blake (um inovador e engraçadíssimo Dean-Charles Chapman), que, no arranque do novo filme de Sam Mendes, “1917” (2019), seleciona […]

Fiama Hasse Pais Brandão | Os amigos que morrem

CLUBE DOS POETAS MORTOS FIAMA HASSE PAIS BRANDÃO Poeta, dramatruga, ensaísta e tradutora, Fiama Hasse Pais Brandão ainda é um nome debilmente iluminado pelos holofotes da cultura portuguesa. A sua obra é vasta e referencialmente rica, harmoniosamente simbólica. Na prosa, destaca-se com Em cada pedra um voo imóvel; na poesia, faz parte da revista Poesia […]

Ary dos Santos | Epígrafe

CLUBE DOS POETAS MORTOS ARY DOS SANTOS Da sua caneta brindam-nos centenas de canções, da sua poesia fica marcada a contestação e intervenção ao  Estado Novo português; dos seus escritos saíram quatro canções vencedoras da Eurovisão e mais de 600 produções poéticas; da sua voz recordamos os discos “Ary por si próprio” ou “Cantigas de […]

Miguel Torga | Misere Nobis

CLUBE DOS POETAS MORTOS MIGUEL TORGA O nome Miguel Torga não é passível de irreconhecimento. Nascido em Vila Real Adolfo Correia da Rocha, só ao terceiro romance, A Terceira Voz, adotou o pseudónimo literário pelo qual hoje o conhecemos, em homenagem a Cervantes, Unamuno e à flor da montanha. Um dos mais influentes autores portugueses […]

Fernanda de Castro | Três Poemas da Solidão

CLUBE DOS POETAS MORTOS FERNANDA DE CASTRO Escreveu para teatro, poesia, na qual se estreou aos 19 anos, literatura infantil, romances, inclusive cinema e um livro de introdução à botânica, traduziu dezenas de importantes autores da literatura europeia e foi a primeira mulher a ser reconhecido com o prémio Ricardo Malheiros, tendo como galardão maior […]

António José Forte | O Poeta em Lisboa

CLUBE DOS POETAS MORTOS ANTÓNIO JOSÉ FORTE O “mano Forte”, como foi apelidado por Luiz Pacheco, é talvez um dos grandes últimos poetas do movimento surrealista da poesia portuguesa, cujos versos “nos ficam como se os houvéssemos descoberto num muro, numa parede que nos perturbou o caminho, porque fulgura neles a feroz exemplaridade dos desastres […]

Seria um crime Martin Scorsese não realizar “O Irlandês”

crítica Seria um crime Martin Scorsese não realizar “O Irlandês”. “O IRLANDÊS”, MARTIN SCORSESE [2019] Robert De Niro, uma das estrelas do filme, vê representados nesta obra “negócios não resolvidos” com o cineasta. Depois de 3h29 de película digital, difundida para todo o mundo pela Netflix, ficam os pontos colocados em todos os is. “O […]

Fernando Pessoa | Liberdade

CLUBE DOS POETAS MORTOS FERNANDO PESSOA Fernando Pessoa recusa apresentações. É indiscutivelmente  um dos mais reconhecidos poetas portugueses e da Língua Portuguesa, um escritor universal e intemporal. A sua obra divide-se em 72 heterónimos, semi-heterónimos e personalidades literárias, escrevendo inclusive em inglês – língua que adotou ao estudar em África do Sul – e deixou […]

Mário Cesariny | Pastelaria

Fotografia de Eduardo Tomé CLUBE DOS POETAS MORTOS MÁRIO CESARINY Diz-se ser ele o principal representante do surrealismo português. Poeta e pintor, dissidente e controverso, Mário Cesariny é uma figura incontornável da cena literária nacional – em Paris, a curta convivência com André Breton ajudou-o a clarificar o caminho do surreal e a afastar-se do […]

Anne Sexton – A Arte Negra

tradução a arte negra ANNE SEXTON Uma mulher que escreve sente em demasia, esses transes e presságios! Como se ciclos e crianças e ilhas não fossem suficiente; como se lamentos e boatos e vegetais não fossem nunca suficientes. Ela pensa que pode avisar as estrelas. Um escritor é essencialmente um espião. Querido amor, eu sou […]

Bang Avenue: dos ensaios no alpendre para o palco do Mercado Negro

ESPECIAIS – REPORTAGEM Bang Avenue: dos ensaios no alpendre para o palco do Mercado Negro ANA RITA RODRIGUES Começámos a tocar atrás do meu prédio. Houve um dia em que uma senhora abriu as janelas. Pensámos ‘ Estamos lixados ! ‘ , até que ela perguntou ‘porque é que pararam ? Eu abri as janelas […]

António Aleixo | Quadras Escolhidas

CLUBE DOS POETAS MORTOS ANTÓNIO ALEIXO Em nenhum poeta português se revê tão bem a poesia popular, dedilhada nas quadras características de António Aleixo. O poeta do povo, o “poeta-cauteleiro”, emigrante retornado, foi, segundo os seus contemporâneos, um homem simples, espontâneo, humilde, como concordam os seus versos (“Julgam-me mui sabedor/ E é tão grande o […]

Jorge de Lima | Poema à Pátria

CLUBE DOS POETAS MORTOS JORGE DE LIMA O “príncipe dos poetas”, como foi apelidado por um jornal da sua terra natal, foi um homem de vários ofícios. Além de médico, professor ou vereador, Jorge de Lima destacou-se nas artes plásticas e na literatura, estando a sua obra divida em estéticas distintas: o seu primeiro livro, […]

Manoel de Barros | Livro sobre Nada

CLUBE DOS POETAS MORTOS MANOEL DE BARROS A lista das suas obras é farta; as condecorações também (onde se incluem dois Prémios Jabuti), ainda que tenha demorado a chegar o reconhecimento da crítica e do público à poesia que o próprio define como parte da “vanguarda primitiva”. Manoel de Barros escrevia ser o poeta “fraco […]

Augusto dos Anjos | Vandalismo

CLUBE DOS POETAS MORTOS augusto dos anjos Quando, em 1912, publicou a sua antalogia de poemas Eu, a crítica não foi a melhor. É que Augusto dos Anjos prima pela singularidade da sua voz poética, unindo um vocabulário científico e racional ao simbolismo da data, dissecando temas como a morte, a angústia e a solidão, deixando nos […]

Cecília Meireles | Rua dos rostos perdidos

CLUBE DOS POETAS MORTOS CECÍLIA MEIRELES Nasce em 1901 e depressa se torna órfã. Criada pela avó, desde nova, como a própria disse, íntima da Morte, conhecedora das “relações entre o Efémero e o Eterno”, Cecília Meireles tomou os temas do abandono e da solidão na sua poesia e ainda hoje o seu lirismo é […]

Patrick Phillips – Elegia a uma Máquina Avariada

tradução elegia a uma máquina avariada patrick phillips O meu pai tentavaarranjar alguma coisa e eu ali me sentei a assistir,como costumava fazersempre que alguma coisa corria errado.Questionei-o repetidamente sobre onde tinha andadoaté que pousou a chave inglesae disse: Escutamorrer é apenas algo que acontece às vezes.Quem sabede onde vem essa espécie de sonho?Por que […]

Indulgência Plenária, de Alberto Pimenta

crítica INDULGÊNCIA PLENÁRIA ALBERTO PIMENTA, EDIÇÃO LÍNGUA MORTA [2018] Quando a poesia encontra a realidade e, irreparavelmente, a funde nessa sublimação natural das palavras, as histórias que se diziam factos reforçam-se, dilatam-se. A literatura é exímia no relato narrativo; a poesia é perita na desconstrução (e construção, que a arte tem por hábito ser uma […]