BRAVO, COMO EU

1.

vejo-te: tens os olhos raiados de sangue.
noto que te aproximas, pronto para me derrubar. sinto-te
resfolgar como danado cão selvagem.
chegamos à batalha.
pontapeias o chão de fúria.
dás voltas à arena em incúria e

ouço-te.

o teu urro é animalesco.
na mão vejo o espeto.

resta a mortalha.

o teu deus que me valha.

2.

arre, cobarde
afinca-me com uma das tuas facas nas costelas
se tiveres coragem — desafio-te a me matares a
quebrar-me na testa essa fibra de porcelana e estilhaçar-me com
os cacos.

amola o sabre no meu pescoço e supõe sempre que eu te matarei
primeiro.

arre, cobarde; não tens olhos na cara e bandarilhas na mão?
não sabes não digas que sou bravo
bravo era pedro
arre, cobarde
não vês que não preciso de fugir? tenho o púlpito do meu lado
sou cultura de tortura anda, desfaz-me, companheiro
quero que me mates de susto para depois me
matares de
dor
lenta
gradualmente
prostra-me de quatro
arranca-me a vontade de ser o animal que me obrigam
arranca-me as tripas porque delas
não posso fazer coração
mete vinte de ti para um de mim e
ainda assim
quero que me mates

foi para morrer que me alimentaste
arre, cobarde
animal disfarçado
mete vinte de mim nas bancadas contra um de ti nu nas praças e
urra urra urra

urra.

que importa retórica e história
se ainda há glória na bandarilha?
arre, cobarde
serra-me os cornos
puxa por mim
não percebes que faz horas que
não morro
quando já a areia me desgasta e o cansaço me arrasta
e me marca o fogo
arre, revolta-te na arena da pseudo-humanização
dos pseudopoetas
das pseudogentes que aplaudem o viver escravo
de quem pede para morrer em urro humano
arre, cobarde
já só sofro por sofrer
e o rei vai nu
montado no meu dorso
carregado no jogo pelo
jugo cru do final que rogo
arre, cobarde
arre,
cobarde,
alarve maquinal, sem pensar porque nos continuas a deixar viver
viver
viver
maldita a repetição na vida de um bravo

e por momentos pode ser que me oiça
me leve a mão ao pescoço e o parta
que me abra a mandíbula e a rasgue
que me arranque o coração de besta do sangue que me resta
arre, cobarde
esta festa não presta
trabalho é trabalho conhaque é abate
arre, cobarde
troca comigo de fraque
veste-me
enfeita-me
o último a apagar a luz
que me mate

3.

na arena trancada, cego de raiva,
o touro-poeta não marra:

deita-se,
aguarda.

poemas retirados do livro CURVA, Editora Urutau, 2020, já em pré-venda

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Bruno Fidalgo de Sousa

Bruno Fidalgo de Sousa

Depois da dança, o lobo avança, encontra a curva.

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