BEM SOUBE QUE A TERRA ME IRIA MENTIR E AMORAS

Bem soube que a terra me iria mentir.
Mal sabe sempre que aterrar me mente.
Ascendo, por fim:
Estás alva e a tua íris mais azul que nunca.
Enfio a linha na agulha, sim, rainha alva de luz;

[ pedias-me,
de quando em vez,
“que esta vista já não dá
para ver como tu vês. “ ]

Tão mais luzidia do que esta agulha é
aquela que nos coseu.
Que isto a vida que deixaste
não é mais que costuras e remendos.
E enxertos.
E excertos.
E ex-certos:

Ex-certos os que se deixam mentir pela terra.

Oxalá tivesses ensaiado a ida,
Mas não:
Estreaste-a, de improviso,
sem anunciar data nem lugar.
Quem está
está;
vê;
Sabe.
Não estive e soube
Sem ir, por saber ao que sabem os ex-certos,
Indoutos.
Por crerem na terra que apodrece
E não naquela onde, porque metafísica,
podes ainda crescer.

Ainda assim vi-te, alva, calma, branda
Bradei.

Não te ponho flores, não;
Ponho-as na anamnese minha que rego
Como se no teu jardim
Ainda crescesses.

Não te canto salmos, não.
Toco-te Tchaikovsky,
Que a mulher de ti também
Brada:
por exaltação, imperial exaltação,
e está-se a cagar para solenidades.

Ahhhhhhh
vil morfina espetada na carne…
Digo-te, ignóbil morfina,
que só matarás amor fino.

Havias de saber, pífia morfina,
que a doença não lava amor,
não leva amor;
só leva o corpo
e remenda a vida.

Ana Rodrigues
Porto, 15 novembro 19
06h00

Comecei a faturar aos dez, praí.
[ Pray? Should I pray? This is my pray, then.]

Desenfreadamente, galopava silvas e matos e musgos e ribeiras
para chegar às amoras
que te circundavam a casa.
Supunha lá eu tornarem-se as amoras
aminha entrada na economia paralela.
Acabava no envelope,
o ‘cacau’ que arrecadavas na venda das amoras;
aquele envelope dos sábados;
daqueles sábados em que ias vender as minhas amoras.

Desenfreadamente, galopei silvas e matos e musgos e ribeiras
para chegar às amoras.
Já não lá moras, vó.
Mas amor mora ainda, vó.
Não finda, vó.
Basta-me.

Ana Rodrigues
Porto, 15 novembro 19
06h16

An old woman knitting, Cassatt
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