ANTÓNIO GEDEÃO

Nasceu e morreu Rómulo de Carvalho, mas é o nome António Gedeão que ressoa nos ouvidos do leitor, a imagética de uma “bola colorida entre as mãos de uma criança”, o seu musicado poema Pedra Filosofal, presente no seu primeiro livro de poesia, Movimento Perpétuo, publicado somente quando já Rómulo fazia 50 anos de uma vida dedicada ao ensino e à ciência – presença habitual nos seus versos, ademais o principal registo do seu portefólio, a obra histórica e ciêntifica à qual dedicou grande parte da sua reforma, não deixando de imprimir a sua exigência, discrição e pragmatismo ao teatro, à ficção ou ao ensaio. António Gedeão veio a falecer por duas vezes, em Poemas Póstumos e Novos Poemas Póstumos. Rómulo de Carvalho, contudo, só nos deixou neste dia, 19 de fevereiro, em 1997, depois de largos anos de excelência quer no laboratório, quer nas letras.

LÁGRIMA DE PRETA

Encontrei uma preta
que estava a chorar,
pedi-lhe uma lágrima
para a analisar.

Recolhi a lágrima
com todo o cuidado
num tubo de ensaio
bem esterilizado.

Olhei-a de um lado,
do outro e de frente:
tinha um ar de gota
muito transparente.

Mandei vir os ácidos,
as bases e os sais,
as drogas usadas
em casos que tais.

Ensaiei a frio,
experimentei ao lume,
de todas as vezes
deu-me o que é costume:

Nem sinais de negro,
nem vestígios de ódio.
Água (quase tudo)
e cloreto de sódio.

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Uma revista digital de publicação literária e divulgação artística.

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