ANTÓNIO ALEIXO

Em nenhum poeta português se revê tão bem a poesia popular, dedilhada nas quadras características de António Aleixo. O poeta do povo, o “poeta-cauteleiro”, emigrante retornado, foi, segundo os seus contemporâneos, um homem simples, espontâneo, humilde, como concordam os seus versos (“Julgam-me mui sabedor/ E é tão grande o meu saber/ Que desconheço o valor/ Das quadras que sei fazer!”). Poucos anos antes de falecer de tuberculose, editou “Quando Começo a Cantar” (1943) com o Círculo Cultural do Algarve, onde nasceu e morou. “Este livro que vos deixo”, onde Joaquim Magalhães – que escrevia os poemas ditados pelo poeta – reuniu a sua poesia, foi publicado postumamente, em 1969. Deambulando entre a vivência social e a ironia crítica, António Aleixo é, porventura, um dos mais engenhosos e carismáticos poetas portugueses, um representante da honestidade do próprio verso.

QUADRAS ESCOLHIDAS

À guerra não ligues meia,
porque alguns grandes da terra,
vendo a guerra em terra alheia,
não querem que acabe a guerra

Uma mosca sem valor 
poisa, c’o a mesma alegria,
na careca de um doutor
como em qualquer porcaria.

Quem nada tem, nada come;
e ao pé de quem tem de comer,
se alguém disser que tem fome,
comete um crime, sem querer

Embora os meus olhos sejam
Os mais pequenos do mundo,
O que importa é que eles sejam
O que os Homens são no fundo.

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Uma revista digital de publicação literária e divulgação artística.

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