a arte negra

ANNE SEXTON

Uma mulher que escreve sente em demasia,
esses transes e presságios!
Como se ciclos e crianças e ilhas
não fossem suficiente; como se lamentos e boatos
e vegetais não fossem nunca suficientes.
Ela pensa que pode avisar as estrelas.
Um escritor é essencialmente um espião.
Querido amor, eu sou essa rapariga.

Um homem que escreve sabe em demasia,
tais feitiços e fetiches!
Como se ereções e congressos e produtos
não fossem suficientes; como se máquinas e galeões
e guerras não fossem nunca suficientes.
Com móveis usados ele faz uma árvore.
Um escritor é essencialmente um trapaceiro.
Querido amor, tu és esse homem.

Nunca amando a nós mesmos,
odiando até os nossos sapatos e os nossos chapéus,
amamo-nos um ao outro, precioso, precioso.
As nossas mãos são azul-claras e gentis.
Os nossos olhos estão cheios de terríveis confissões.
Mas quando nos casarmos,
as crianças partirão com repulsa.
Há demasiada comida e ninguém fica
para comer toda a estranha abundância.

the black art

A woman who writes feels too much,
those trances and portents!
As if cycles and children and islands
weren’t enough; as if mourners and gossips
and vegetables were never enough.
She thinks she can warn the stars.
A writer is essentially a spy.
Dear love, I am that girl.

A man who writes knows too much,
such spells and fetiches!
As if erections and congresses and products
weren’t enough; as if machines and galleons
and wars were never enough.
With used furniture he makes a tree.
A writer is essentially a crook.
Dear love, you are that man.

Never loving ourselves,
hating even our shoes and our hats,
we love each other, precious , precious .
Our hands are light blue and gentle.
Our eyes are full of terrible confessions.
But when we marry,
the children leave in disgust.
There is too much food and no one left over
to eat up all the weird abundance.

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Bruno Fidalgo de Sousa

Bruno Fidalgo de Sousa

Depois da dança, o lobo avança, encontra a curva.

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