CLUBE DOS POETAS MORTOS

ALEXANDRE O'NEILL

Um dos fundadores do Movimento Surrealista de Lisboa, Alexandre O’Neill, consagrado poeta e prosista do século XX (com uma carreira dedicada às letras, da publicade às crónicas), autor do famoso chavão “há mar e mar, há ir e voltar”, nasce em Lisboa em 1924, estreando-se com A Ampola Miraculosa nos Cadernos Surrealistas. A obra de O’Neill deambula na vanguarda, bebendo do surrealismo e sem medo de experimentação. Ousa satirizar Portugal, à data sob o jugo do Estado Novo, e contrapor a imagem heróica do proletariado, herança do  neorealismo, com as angústias e esforços da vida rural, versando sobre a morte, a saudade, a solidão – sempre com um humor satírico muito característico. A sua oposição ao regime apresentou-se de várias formas – e por várias vezes foi Alexandre O’Neill interrogado e vigiado, sendo inclusive preso durante 21 dias. O poeta acabaria por morrer, na sua cidade de Lisboa, a 21 de Agosto de 1986, sendo, até aos dias de hoje, um dos nomes maiores da poesia portuguesa do século XX.

UMA VIDA DE CÃO

Não
não é a poesia caixa de música
ou a poesia piolho místico enterrado no sebo destes dias
ou qualquer outra
que podem dissolver a tua alma
tão problemática
no vinho da beatitude

Ah
o «mistério» da poesia a poesia
técnica da confusão
a capelista poética e os primeiros fregueses
ainda a medo ainda receosos
de te pedirem a Dor em alfinetes que não tenhas
logo ali à mão

E quando dizes «Poesia» eu tenho nojo
aquele nojo violento que me dá
o olhar furtivo a atenção desatenta
dos que se demoram nos lavabos nas salas dos cinemas
de mãos distraídas procurando
a solução da noite

Instalaram-se em ti
a mesma contracção suspeita
a mesma hipocrisia o mesmo sobressalto
a mesma curva obscena
que o olhar descreve
goza
e disfarça

Quando dizes «Poesia» dizes medo
dizes família tradição classe
e a vida de cão que te esperava
e que é hoje a tua vida a tua «transcendente»
vida de cão

*

Ensinaram-te palavras que pareciam
prontas a derrotar quem as ouvisse
ensinaram-te gestos para elas
e a tal ponto te humilharam
que te puseram de pé
limpo
inteligente
e aprumado

Pronto a seguir
seguiste
e agora estás aqui pois claro
angustiado e iludido
mas deliciado

*

Até aos útlimos arcanos
cafés e leitarias
seguiste André Breton
ou a sombra dele
e a aventura mental que procurava
um sinal exterior
um estilhaço vivo do acaso
a Nadja lisboeta que salvasse
ou a noite ou a vida
acabou em «bons» poemas «maus» poemas
em palavras e palavras

E coberto de palavras enterrado
numa terra de murmúrios de gemidos
teu coração já nada faz mover
senão moinhos de palavras
e «a dor é grande» dizes tu
«mas sublime»

*

Mas não sou eu que te lamento
Os teus mitos esperam-te
já impacientes

Agora põe-te a andar
agora passa por cá daqui a uns anos

Talvez me encontres
talvez possa fazer qualquer coisa por ti
qualquer coisa simples
quase inútil
quase ridícula
oferecer-te uma sílaba
um conselho
um cigarro

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Uma revista digital de publicação literária e divulgação artística.

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