ALDA LARA

A sua poesia é social e humanitária: do exílio à opressão, escreve sobre a mulher, o seu país e o término da colonização, sobre África, da “noite” ao “regresso”, sobre a solidão. Alda Lara, poeta portuguesa com origens angolanas, cursou e praticou Medicina, ao mesmo tempo que a sua ligação com o CEI – Casa dos Estudantes do Império – e as suas declamações em Coimbra e Lisboa apresentaram a Portugal a pouco divulgada poesia africana. Toda a sua produção poética foi publicada apenas depois da sua morte, pelo marido, registo onde também se encontra “Tempo de Chuva”, um livro de contos. Acabou por falecer, em Cambambe, aos 32 anos.

NOITE

Noites africanas langorosas,
esbatidas em luares…,
perdidas em mistérios…
Há cantos de tunguruluas pelos ares!…

Noites africanas endoidadas,
onde o barulhento frenesi das batucadas,
põe tremores nas folhas dos cajueiros…

Noites africanas tenebrosas…,
povoadas de fantasmas e de medos,
povoadas das histórias de feiticeiros
que as amas-secas pretas,
contavam aos meninos brancos…

E os meninos brancos cresceram,
e esqueceram
as histórias…

Por isso as noites são tristes…
endoidadas, tenebrosas langorosas,
mas tristes…como o rosto gretado,
e sulcado de rugas, das velhas pretas…,
como o olhar cansado dos colonos,
como a solidão das terras enormes
mas desabitadas…

É que os meninos brancos…
esqueceram as histórias,
com que as amas-secas pretas
os adormeciam,
nas longas noites africanas…

Os meninos brancos…esqueceram!…

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Uma revista digital de publicação literária e divulgação artística.

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