Ladder to the Moon de Georgia O'Keeffe, 1958

A VIAGEM DE GUSMÃO

para a professora Teresa

Numa tarde de muito calor, um rapaz estava deitado na areia, em frente ao mar. O sol espreguiçava-se e a luz que irradiava aquecia a sua cara. O seu nome era Gusmão, um rapaz muito valente. Tinha sempre a sua espada pronta a travar os vilões que tentassem invadir a sua aldeia. Usava ainda um chapéu de palha já quase desfeito, mas que ainda lhe fazia sombra por estar inclinado sobre a sua cabeça. Vivia num mundo muito diferente do nosso. Gostava imenso de dormir e, quando não estava a dormir, gostava imenso de caminhar pela areia húmida, amortecendo as ondas trazidas pelo mar, deixando assim pegadas que iam sendo engolidas e preenchidas de areia, uma e outra vez.

O céu parecia agora ter sido acabado de pintar de azul claro por um pintor surrealista que, por engano, havia deixado cair pequenas gotas de tinta branca, usada para desenhar a lua, na sua grande tela. Chamavam a estes enganos de estrelas. Nessa noite, depois de um bom descanso sob uma bananeira na praia, ao ouvir os sincronizados cânticos das gaivotas e ao observar o espetáculo estelar que por cima dele acontecia, Gusmão fitou a lua e desejou atingi-la. Sabia-o praticamente impossível, mas mesmo assim não deixou de parte a hipótese de um dia conseguir lá chegar. Contrastavam com aquele céu claro as silhuetas escuras das bananeiras dispersas pela praia. Para atingir a lua, Gusmão tinha de construir um grande escadote de madeira capaz de o levar até lá – um grande escadote de madeira pelo qual ele pudesse trepar o vasto universo que separava a miserável realidade em que vivia do praticamente inatingível sonho em que queria viver. Apesar de ser um rapaz destemido, precisava de ajuda. Ainda encostado à bananeira, deu um enorme salto e começou a correr em direção à sua aldeia. Quando lá chegou, bateu à porta de casa do seu velho amigo Pedicles que, após escassos segundos que para Gusmão pareciam nunca mais passar, a abriu e ouviu o seu amigo a disparar palavras que aparentavam ter sido decoradas momentos antes de ali ter chegado. Pedicles deu um grande passo para trás, quase como que se estivesse a recusar ajudar o seu velho amigo, mas acabou por concordar em cooperar com ele.

A lua, irrequieta no teto do mundo, tomava conta dos pequenos e brilhantes pirilampos que estrelavam aquele céu claro. Mas nem sempre acontecia deste modo, porque até os pirilampos tinham de descansar, por vezes, deixando o mundo às escuras para mais tarde poderem voltar a brilhar. Quando assim acontecia, os amigos de Gusmão ficavam tristes. Ainda assim, não eram quem mais triste ficava. Por não gostar de não conseguir ver o que se passava à sua volta nessas noites sombrias, Gusmão pôs mãos à obra, juntamente com o seu amigo Pedicles.

Na manhã seguinte, os dois amigos foram para a praia. O céu e o mar, irritados, observavam-nos a cortar as bananeiras que tão bem enterradas no extenso areal estavam. O sol decidiu também aparecer mesmo antes de se ir deitar para ver o que se estava a passar e reparou que os dois amigos já tinham reunido madeira suficiente para construir um escadote capaz de chegar até à distante lua. O tempo não temia em avançar e a construção parecia ainda demorada. Fora isso, o sonho de ir à lua era cada vez maior.

Ao fim de alguns dias, o escadote feito de madeira seca cortada de bananeiras da praia estava pronto. Haviam terminado aquela maravilhosa construção. A inquebrável ponte que agora tinham era tão extensa que percorria todas as aldeias do reino de Gusmão, atravessando ainda os belos montes e vales das redondezas.

A altura do veredito final aproximou-se muito rapidamente. Os dois rapazes levantaram com muito esforço o grande escadote, prendendo-o à lua – e nada podia correr mal a partir dali.

Gusmão foi o primeiro a subi-lo, seguido pelo seu amigo Pedicles. E assim foram, em direção ao sonho que lhes era agora comum – o sonho de ir à lua.

Algum tempo havia passado quando já estavam quase a chegar onde nunca ninguém tinha chegado. A lua parecia cada vez maior à medida que os inseparáveis amigos se aproximavam dela.

– Estamos quase a chegar, olha! A lua é já ali! – disse um entusiasmado Gusmão a Pedicles, enquanto apontava para a colossal e vistosa lua.

Mas um imprevisível vento espacial atingiu o corajoso Gusmão que, involuntariamente, se agarrou com muita força ao escadote que agora tremelicava. Embora estivesse protegido, isso não impediu que o chapéu de palha que parecera sempre ter estado na sua cabeça caísse. A lua era já ali e, por isso, deixaram para trás o velho chapéu de palha desfeito.

Gusmão finalmente chegou à lua. Ao sair do escadote, preparou-se para ajudar o seu amigo Pedicles, que estava exausto. Tinha sido uma longa e cansativa subida. Antes de o ajudar, olhou à sua volta e maravilhou-se com a beleza lunar. Foi então que pensou ser o único merecedor de algo tão fantástico.

Pedicles ainda chegou a tocar-lhe, mas a lua parecia não querer ser a sua casa. Instantes depois, viu o escadote a que estava ainda agarrado ser solto pelas mãos do seu velho amigo, Gusmão. Pedicles havia sido largado no imenso espaço vazio. Não teve a oportunidade de cumprir o objetivo que ambos mantinham. Havia desaparecido na vasta escuridão universal, que era quase tudo o que Gusmão conseguia agora ver.

O arrependimento de Gusmão era sobreposto pela felicidade que o simples facto de estar na lua lhe trouxera. Foi o rapaz mais feliz de todos os rapazes do mundo. Escalou montanhas lunares, saltou como nunca antes tinha saltado, e tudo sem ter de estar às escuras. Tinha tudo o que sempre quisera – tudo menos alguém a quem contar a fantástica experiência que estava a viver.

Ao fim de algum tempo, Gusmão começou a sentir a solidão a apoderar-se de si – e tudo porque quis ser o único a chegar à lua. Os dias continuaram a passar e a lua continuou a girar. Gusmão, sem o seu velho chapéu de palha desfeito e sem a companhia do seu velho amigo Pedicles, acabou por deixar de sentir o encanto que era o de estar na lua.

Pensou em construir mais um escadote, mas desta vez para regressar à sua velha aldeia. Quem sabe, para arranjar um novo amigo – um amigo como Pedicles. Caminhou, procurou, mas nada encontrou. Na lua não havia praias, nem bananeiras, nem madeira.

Com a sua espada, agora inútil, cravou algo no piso lunar:

Às vezes, quando estamos a subir num escadote até à lua, vem um vento espacial que nos leva os chapéus de palha. Às vezes até nos leva os melhores amigos. E nunca nos apetece voltar atrás para os ir buscar.”

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Miguel Mesquita Montes

Miguel Mesquita Montes

Duriense apaixonado por cinema e por escrever

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