Claude Monet, An Orchard in Spring, 1886

A PRIMAVERA QUE NOS SEPARA

Os teus olhos serão
O melhor do próximo verão.
É certo, mais virão,
Mas, para mim, isso nem é questão
Pois ainda é inverno
E eu não tenho onde me aquecer…
Onde estarais vós, olhos verdes,
E quando me ides querer ver?

Eu cá nasci do castanho
E deixei que mos pintassem assim.
Não pude escolher!
Mas tu, nessa tua altivez apaixonante,
Que me ajoelha neste vale lamacento,
Que me reduz em idade
E me aumenta a vontade de os ter,
Finalmente dás por mim;
E nunca será tarde.

Desces dos céus e nesta cabeça suja tocas
Com essas mãos angelicais.

A chegada da primavera não se notou
Se não nas lindas folhas verdes
Que vieram morrer ao meu pobre quintal.
Embelezaste este lugar
Com uma culpa que nunca terás de carregar,
Pois se é para mudar
Que seja contigo ao luar.

Imagino uma noite sem ti,
Olhando, sem esforço, em volta de mim,
E caio no arrepio frio da noite
E dos sentimentos em frenesim.
Eles lá se acalmam, mesmo sem ti,
Sobretudo e sobre todos sem ti,
Porque contigo não parariam,
E sem ti nem imaginam
O que podiam sentir.

As guerras já lá vão
E os muros estão quase todos em queda.
A distância é uma cruel miragem;
A vontade é a regra.
E se algum se voltar a erguer,
Tirando de mim o que não me pertencer,
Subirei a este escadote
Feito camaleão de seu dote.
A minha magia é a de mudar
E a de não olhar para trás.
A este lado do muro
Nada de novo trarás…
Fica pelo teu, pois a subida não demora.
E se ontem era inverno
E hoje cantam os passarinhos
Neste verão só vão sobrar paredes entre vizinhos.
O resto é para queimar,
Derrubar, e humilhar,
Pois admitir que nos separem
É o mesmo que me matarem.

Subido o escadote, espreito do pedestal;
Olho para cima, onde nada está
Para além de um corpo celestial:
É o nosso sol! Não és tu…
(Como eu tão tonto imaginava)
Deves ter descido à lama, meu amor,
Para veres se alguém te esperava.

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Miguel Mesquita Montes

Miguel Mesquita Montes

Foi naquele fim-de-semana de Holden Caulfield que encontrei um motivo para escrever, mas sobretudo alguém que finalmente compreendesse os meus turbulentos 17 anos. Hoje, com outra idade, escrevo na louca tentativa de deixar os outros conhecerem-me um bocado melhor

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