ESPECIAL - CRÓNICA - ENSAIO

A POSSE EM "O PACIENTE INGLÊS"

Não possuímos nada. Toco nas sobrancelhas e arrisco-me a que caiam. Não lhes chamo de “minhas” porque não o são, embora estejam agarradas a mim. Passo a mão no cabelo, ou nos pelos do braço, e sinto o mesmo; talvez possua tal sentimento, mas nada mais. E mesmo ele esvai-se, como estrelas ao amanhecer, com a chegada da mais próxima delas todas, ou como o arco-íris quando cessa de chover.

Se algum dia tivesse tatuado algo no corpo, teria sido a frase “I want to say you’re mine,” cantada em “So Allowed” por Zach Condon, sempre acompanhado pela orquestra dele, Beirut. Talvez esteja a contradizer-me, mas a declaração acarta tanta coragem quanto cobardia, características das quais somos feitos, e continua a fazer sentido: ora é um ajoelhar perante o amor e o amado, ora um assobio para o lado, nem assumido nem denunciado, cantado para todos em concertos, e para ninguém na dura da verdade.

O paradoxo é um dos maiores propulsores de motivo em estórias. O choque causado por Alfred Hitchcock a meio de “A Mulher Que Viveu Duas Vezes” (1958) ou o teor das conversas públicas com António Lobo Antunes são, enfim, casos que admiro. Em conversa com o cineasta Miguel Gonçalves Mendes [“José e Pilar” (2010)] no programa da RTP “Depois, Vai-se a Ver e Nada,” o apresentador, José Pedro Vasconcelos, perante uma individualidade que se contradizia a cada passo dado no diálogo, assumiu que é preciso ter-se um pouco de génio para se contradizer. Concordo, mas só em parte. Para me ajudar, convoco o escritor J.D. Salinger, que criticava as pessoas, através da voz de Holden Caulfield, de “À Espera no Centeio” (1951), por pensarem que toda a verdade tem de ser absoluta. Afinal, um tolo também se contradiz.

Almásy (Ralph Fiennes), de “O Paciente Inglês” (1996), indica algures no filme, entre banhos com a amante, Katharine Clifton (Kristin Scott Thomas): “Posse. Ser possuído.” Clifton tinha-lhe perguntado o que mais odiava, e a personagem de Fiennes apenas colocou em palavras o que o realizador Anthony Minghella mostrara durante o arranque da estória: Almásy era um homem do mundo; não pertencia a ninguém, e por isso dava-se a todos.

O drama de Minghella, pintado a tons de laranja e uma potencial vítima de análises tão movediças quanto a areia que o banha, é um tratado de cinema. Nele há de tudo: perda, dor, solidão, cuidado, rejuvenescimento, amor. Mas há também lugar para sobre o que estou a escrever: contradição.

Na conversa entre os amantes [Clifton é casada com Geoffrey Clifton (Colin Firth)], Almásy reclama parte do corpo da mulher como seu: começa pela omoplata, mas de imediato torna Katharine ao contrário, acompanha a volta com a ponta do dedo, e clama ser o dono da porção externa à traqueia dela, a incisura supraesternal.

Depois, batiza o pedaço de corpo como ‘Almásy Bosphorus;’ ele, o homem que escrevia sem adjetivar, pois uma coisa é sempre uma coisa, “não importa onde a coloquem.” Caravaggio (Willem Dafoe) vai mais longe, e avisa que ninguém devia possuir a música. Talvez tenha reconhecido que o melhor dono que tal arte pode ter seja mesmo alguém como Almásy: saber de cor toda e qualquer canção, conhecer a finalidade dela, e, sem dar conta, estar sempre a cantá-la, encantando quem ouve.

Almásy acaba por perder a amante, como tem de acontecer em todas as estórias épicas; são tragédias antigas. Ainda não foram inventadas balanças para regular a paixão. Apesar dos esforços tremendos, os resultados foram modestos, como observa Fred Ballinger em “A Juventude” (2015) acerca da tentativa de recuperar a memória, um tema também presente em “O Paciente Inglês.” Almásy agarrou Clifton como Lennie acarinhou os ratos que tanto queria domar no conto “Ratos e Homens” (1937), de John Steinbeck: até os estrangular. A partir do momento em que sentiu que possuir Katherine Clifton seria a única solução para evitar a separação, ele perdeu-a, sem precedentes e, sobretudo, sem volta a dar, como funciona com todas as perdas.

Ainda a voltou a ter nas mãos, mas apenas por breves momentos, que pediram um esforço menor a Almásy pois ela já estava mais leve, sem a alma no lugar que lhe convém. José Saramago bem dizia: “Gostar é provavelmente a melhor maneira de ter, ter deve ser a pior maneira de gostar.”

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Miguel Mesquita Montes

Miguel Mesquita Montes

Duriense apaixonado por cinema e por escrever

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