A MÁQUINA DE ESCREVER

Ainda consigo sentir o que sentia
quando um escritor me tocava.
Apertava-me as teclas,
não para me apertar,
mas para apertar alguém.
O que os escritores não sabem
é que quem mais apertam
são eles.

Ainda consigo sentir o que sentia
quando um escritor me usava.
Cravava no papel que eu cuspia,
esquecendo-me do que nele escrevia,
o que ele lá julgava que sentia
naquele preciso momento.
Mas já vinha tarde
o escritor,
que já ele tinha sentido,
que já me tinha contado
o que por mim tentava inventar.

Ainda consigo sentir o que sentia
quando um escritor me limpava.
Passava-me o pano da sua mente,
deixando a ferramenta limpa e reparada
para poder voltar a fingir trabalhar.

Ainda consigo sentir o que sentia
quando era eu quem escrevia.
Prometia a emoção reinventada,
permitia uma escrita refinada,
longe deste metal sujo de que afinal sou feito,
que já nem consigo sentir,
que já nem consigo escrever
se não letras soltas
em papel gasto
o que afinal vos quero dizer:
o escritor sou eu.

Share on facebook
Share on twitter
Share on linkedin
Share on pinterest
Share on pocket
Miguel Mesquita Montes

Miguel Mesquita Montes

PARTILHAR