Fernando Pessoa, pintura de António Faria

A CARTA QUE OPHELIA ACABOU POR ENVIAR

Meu querido Fernando,
tomara eu ser querida tua como tu és meu
para poder tocar-te quando te vejo
nas raras vezes em que te vejo
que na verdade são as raras vezes em que me vês a mim

Mas o teu olhar trespassa-me, Fernando
e à querida Ophélia não a quer nem sua mãe
nem minha mãe
nem ninguém no mundo que ela-eu não queira também

Não te envio esta carta, meu ursinho
pois não há passarinho ou carteiro que percorra toda essa distância por uma carta de amor
ou amorzinho

Fosses tu menos engracadinho com esta coisa que é sentir coisas e eu contava-te o que sinto –
que é uma espécie de melancolia apaixonada e irritadiça
E tudo culpa tua, meu Nandinho

Oh Nandinho!
Aqui em casa já batem as duas
e aí? Já é hora do vinho?

Já molhei o pergaminho no meio dos soluços
e de todos os sustos o maior foi
quase insultar-te sem querer

Para quê namorar-te se te posso escrever estas cartas para não as enviar
e talvez até para te insultar um pouquinho?
e chamar-te meu parvinho
seu doidinho
grandessíssimo filho da puta

Para que saibas que ente nós os dois
está tudo acabado
acabadinho:

Um inspirado “até nunca”!

Ophélia, mulher de ninguém
Lisboa, 3/2/1

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Lia Cachim

Lia Cachim

Poeta que não aceita ser poetisa e que escreve porque precisa.

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