1917

SAM MENDES [2019]

Pela câmara cavalheira do irrepreensível cinematógrafo Roger Deakins, que nunca se coloca à frente das personagens, causando assim ainda mais receio ao espectador, seguimos a missão bélica destacada a Lance Corporal Blake (um inovador e engraçadíssimo Dean-Charles Chapman), que, no arranque do novo filme de Sam Mendes, “1917” (2019), seleciona Lance Corporal Schofield (George MacKay) às cegas para ser o seu wingman numa missão quase impossível que implica atravessar a frente de batalha e penetrar pela zona das trincheiras germânicas em plena Primeira Guerra Mundial, não só para encontrar o irmão do soldado destacado, mas para impedir que outros 1600 soldados americanos sejam apanhados pelo contra-ataque alemão – este é talvez o único ponto negativo que posso apontar a “1917”, pois sobreviver a toda esta aventura, mesmo que inspirada pelos contos do avô do próprio realizador, demonstra que a história foi romantizada em excesso; sempre acompanhados pela banda sonora do experiente compositor Thomas Newman (com a brilhante exceção de no seu momento mais triste), vamos sentindo ao percorrer toda esta longa-metragem aquele aperto invulgar que encontrámos em filmes como “O Resgate do Soldado Ryan” (1998) e “Fúria” (2014), num mundo que parece perfeitamente recuperado da obra exímia de Stanley Kubrick “Horizontes de Glória” (1957); um filme sobre o sofrimento, sobretudo causado pela solidão, mas apoiado pelo natural medo de morrer, que no seu momento mais dramático nos revela a próxima promessa no mundo da representação: quando, antes do meio da caminhada até ao seu irmão, o destemido Lance Corporal Blake é rapidamente apanhado pela faca alemã, num acidente bem prevenível, e grita na cara da morte, perdendo depois um órgão abdominal e até a memória, adquirindo dessa feita uma palidez arrepiante, notamos na sua expressão como em raras vezes notei a presença real do desaparecimento humano num filme; ficamos, portanto, a sós com o não menos destemido Lance Corporal Schofield e, através da técnica hitchcockiana utilizada no drama filosófico “A Corda” (1948), que utiliza cortes escondidos para causar a impressão de que o filme é uma cena contínua, Sam Mendes leva-nos uma mão ao coração e outra à cabeça, porque, como este filme tão bem nos avisa, ninguém está livre de um pesadelo como aquele.

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Miguel Mesquita Montes

Miguel Mesquita Montes

Cinéfilo, com uma enorme curiosidade pelas diferentes caixas de chocolate

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